A MEUS PARCOS E SELETOS LEITORES
O teimoso hábito de escrever crônicas com certa constância tem me feito lidar com assuntos que, talvez, não me ativesse tanto. Por exemplo, o caso da China e seu desenvolvimento que espanta. Quando escrevi sobre os escândalos no Brasil que se sucedem, como fecho, ironizei sobre a estranheza dos chineses punirem com pena de morte seus políticos envolvidos em corrupção. Recebi, então, o retorno da leitora amiga, a escritora Cecília Costa, alertando-me sobre alguns procedimentos menos nobres de Pequim. Isso resultou em crônica, desta vez mais detalhada, sobre o quase insustentável crescimento econômico chinês.
Já comentei que minha lista de leitores não é extensa, mas, em termos de qualidade, deixaria qualquer cronista lisonjeado. E algo preocupado também.
O leitor atento, Ronaldo Maués, amigo de longa data, me cobra mais seriedade e menos humor, ao passo que outro amigo de infância, Melvyn Cohen, sugere a seção de cartas dos jornais, pois acha que sou pouco lido. Nunca entendi se foi elogio ou zombaria. O fato é que um me esculhamba e o outro me avacalha.
Sigo firme porque uma das melhores coisas, mesmo com os amigos de infância, é a resposta dos leitores sobre meus textos.
Sobre a tal crônica da China, o poeta e letrista, Sergio Natureza, com toda a sua capacidade de astuto observador do mundo, me adverte: “...simpatizo com a cultura deles que, mesmo com todos os defeitos e idiossincrasias por você listados, neles há de se louvar o culto à beleza - são artistas únicos, artesãos detalhistas e precisos (há pouco fui ver a magnífica exposição de trabalhos contemporâneos no CCBB) ...há outros defeitos também...mas, enfim, estamos falando de seres humanos, não de deuses. A invasão do Tibet, claro que tem razões que a própria razão desconhece - mas os chineses também foram quase liquidados pela Inglaterra, empanturrados de ópio, tiveram suas mulheres estupradas pelos britânicos e outros 'afagos' mais, o que não impediu ninguém de amar os Beatles e os Rolling Stones, pois não?”.
Outro leitor ilustre, o crítico literário Luiz Horácio, o gaúcho mais carioca que conheço, me incentiva: “... tu tá cada vez melhor, tchê!”. Sempre achei natural e nunca discordei de um elogio. Boa, professor Horácio!
Já o leitor, músico carioca mas com coração pantaneiro, Paulo Simões, mostra total desânimo (não comigo, mas com a situação): “...saiba que compartilho de sua indignação, não alimentando esperanças de que restem, neste farrapo de país, companhia suficiente para influirmos em nossos, cada vez mais, tristes destinos. Espero que a nossa, apesar de tudo saudável, veia humorística, nos ajude a enfrentar as tristes conseqüências de tantas irresponsabilidades”...
Simões referia-se à crônica sobre a incrível impunidade dos políticos. Sobre isso, outro leitor de peso, o advogado Luiz Paulo Viveiros de Castro, aproveita para lembrar os superfaturamentos na secretaria de saúde do governo carioca, levado a cabo pelo médico Sergio Côrtes, na compra sem licitação de roupas de cama e vestimentas hospitalares. Consta que a diferença de preços chega a quase 200%. Margem difícil de se imaginar, até para chineses.
Também indignado, o leitor Waldo Luís Viana, escritor e ardoroso crítico a tudo de errado que está aí, questiona: "...imagine, ó Paschoal, se esse apagão e o desastre da TAM acontecessem na China, quantas cabeças iriam rolar?"
Degolas à parte, a verdade é que a situação anda grave. Sem contar que meu Flamengo permanece na zona de rebaixamento.
Para finalizar, reproduzo a de outro poeta, o leitor Euclides Amaral, apoiando-se no humor e no sarcasmo na terra dos relaxamentos e orgasmos ministeriais: “...evito comprar os produtos chineses há tempo, detesto trabalho escravo. Escravidão pra mim só na cama: ela manda e eu faço! Depois fico com os olhos que nem chinês... apagadinhos.”
Fica por aqui a crônica desta semana, uma homenagem a meus pacientes leitores. Com a certeza de que, sem eles, nada teria muito sentido. Nem a China.
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Sobre o autor: *MARCIO PASCHOAL é escritor.
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