NADA ADMIRÁVEL GADO VELHO
Quatro ex-diretores do Banco Central foram acusados e condenados por uma suspeita operação financeira para socorrer os bancos Marka e FonteCindam do banqueiro Salvatore Cacciola. Todos recorreram e Cacciola escafedeu-se para a Itália. Já que ia acabar em pizza, ao menos uma legítima napolitana.
O ex-senador Luiz Estevão e o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto foram acusados do desvio de milhões para a construção do Tribunal Regional de São Paulo. O juiz Lalau está preso, mas em prisão domiciliar, sem a vigilância da polícia, morando no Morumbi. O ex-senador vai bem, obrigado, tem até time de futebol.
Outro ex-senador e agora deputado pelo PMDB do Pará, Jader Barbalho, foi acusado de chefiar um esquema de mais de um bilhão, destinado a projetos na Amazônia. Criou imaginários ranários e nós ficamos engolindo os sapos.
O processo sobre a CPI do desvio da grana nos títulos públicos de diversos estados e municípios, envolvendo Celso Pitta e Maluf, foi arquivado no STJ por prescrição. Em vez de prescritos, deveriam ser proscritos. O senador ACM foi acusado de montar uma central de grampos para espionar adversários políticos e até uma namorada. Foi absolvido. Na certa, por falta de grampos adversários.
Fiscais de renda e auditores, liderados por Rodrigo Silveirinha (típico caso do nome adequado à pessoa), enviaram ilegalmente para a Suíça mais de 30 milhões de dólares. Condenados em primeira instância, conquistaram o direito de responder em liberdade. Nada mais justo.
Já o assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, foi flagrado em vídeo cobrando propina do empresário Carlinhos Cachoeira e pedindo dinheiro para as campanhas de Rosinha e Benedita da Silva. Não há registro de nenhum processo aberto para o caso. Tudo normal.
O pagamento de mesadas a partidos da base aliada ao governo em troca de apoio político tramita calmamente em Brasília. Marcos Valério e Delúbio Soares deleitam-se. Ambulâncias eram compradas superfaturadas e parlamentares recebiam agrados. Estes respondem a inquérito no Supremo. As ambulâncias ainda não se pronunciaram. Precatórios, bingos, propinodutos, vampiros, mensalões, sanguessugas, SUDAM etc. Antigamente eram dólares uruguaios e prêmios na loteria.
Agora o gado bovino é que tem a culpa. Vai ver Zé Ramalho é que tem razão. Só que o pessoal de Brasília não está marcado, porém feliz. A impunidade desses crimes, chamados de “colarinho branco”, beira a patifaria explícita e desafia o mínimo de pudor, também conhecido como decoro.
Políticos, banqueiros, servidores públicos, empresários acusados de fraudes milionárias estão fora da cadeia e longe de qualquer possibilidade de punição. Os processos se arrastam nos tribunais e a perspectiva clara é que a maioria prescreva.
O acima exposto (como uma fratura) apenas reproduz o noticiário dos jornais através do retrato da impunidade no país. O pior é que um escândalo sucede o outro. Sai Renan, entra Roriz e outros virão. Como se ficássemos anestesiados com tudo. Vulgarizaram a corrupção. Como nas telenovelas que se repetem e seguem os velhos moldes.
Poucos se lembram dos personagens de “O Clone”, “Os ossos do Barão”, “Pecado Capital” ou “O Rei do Gado” (este, então, é sugestivo). Não mais importa. Trocam-se os papéis e os autores, e mantém-se o esquema. É mais ou menos isso.
Se não forem extintos o foro privilegiado e a prescrição para este tipo de crime, a tendência é que permaneça o mesmo cenário cínico e tragicômico. E haja pastelão, paciência, conto, vigário e novela.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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