2a. BIENAL DO LIVRO DE LAGES
Sempre quando participo de uma bienal ou feira de livros sinto a mesma sensação de falsidade ideológica. Como se vivesse num outro mundo, um universo fake, onde escritores virassem artistas midiados, astros televisivos, craques da bola ou finalistas de Big Brother. Difícil acordar desse sonho, mesmo que efêmero. Entrevistas, autógrafos, convites, como se tudo aquilo fizesse parte de uma realidade cotidiana quimérica. Daí a minha impressão de ingênuo encantamento. Aproveito cada instante como se fosse o derradeiro, pois eis que, quando a festa acaba e a carruagem vira abóbora, a auto-estima desce aos calos e o ego vai desinchando, desinchando... como tem que ser. Paciência.
Neste fim de semana, fui convidado pela organização da 2ª Bienal de Santa Catarina, na simpática cidade de Lages, para participar como palestrante, discorrendo sobre o humor na literatura, ao lado de meu colega e crítico de livros e adjacências, Luiz Horácio Rodrigues.
A efervescência cultural proporcionada por esses eventos não tem paralelo de comparação. As crianças, principalmente, são brindadas com a oportunidade de visitas monitoradas, contadores de histórias, ofertas de livros, enfim, uma ficção do tipo de como seria bom se durasse todo o ano.
Uma atividade, em particular, chamou-me a atenção: o Projeto Pequeno Escritor, com mais de 100 alunos do ensino fundamental (3a. e 4a. séries), que escreveram em sala de aula para posterior seleção e publicação na Bienal em livro com ilustrações de Santiago, cartunista do jornal Zero Hora, e prefácio de Luis Fernando Veríssimo. Belíssima idéia.
Fui apresentado e pude conversar com autores locais, trocar informações e experiências, num intercâmbio tão necessário quanto lúdico à profissão de escrever. Caso fosse mesmo considerada profissão, e não simples hobby, a renitente função de escritor neste país. Vista aqui como rentável e de subsistência minimamente digna através da venda do seu produto final, o livro em questão. Mas pode-se muito bem viver e sobreviver de artes afins à literatura, sem dúvida. Posto isso, prossigamos.
Conheci o impressionante trabalho artístico do fotógrafo Ricardo Bampi, revelando a beleza da paisagem da Coxilha Rica lageana. Acabamento primoroso e uma visão romântica e histórica da região.
No campo do humor, uma grata satisfação: o jovem e promissor Gustavo de Amorim, com seu divertido e bem escrito “Manual bem-humorado dos privilegiados auditivos” (ed. Scortecci). Gustavo, que tem deficiência auditiva mas não é surdo nem bobo, apresenta em seu livro a limitação física sob um prisma de alegria de viver e superação. E bota superação nisso, pois, além de todos os entraves naturais e preconceitos advindos, ele ainda resolve ser escritor. Pois ele conseguiu, com louvor e ironia. A parte do livro em que ele se finge de surdo é impagável. Assim como também impagáveis são os meus credores. Embora isso não venha ao caso. Ou melhor, venha. Aprenderei com o Gustavo a fingir-me de surdo com eles.
Não há como deixar de mencionar o espírito e a camaradagem do pessoal da produção. Além de me entupirem com pinhões (em Lages há pinhão em quase tudo, desde a cocada até o remédio para dor de cabeça), os responsáveis pela Bienal foram gentis e atenciosos, contribuindo com a farsa bem-vinda do tratamento vip a todos os escritores. Difícil foi voltar à realidade dos aeroportos, do regresso ao Rio, dos atrasos e apagões com seus correspondentes orgasmos e relaxações.
Antes de retornar ao feijão-com-arroz carioca, registro com loas justíssimas o churrasco de ovelha da Fazenda Boqueirão, um pedaço de Lages escondido entre araucárias e pinheiros americanos que deve ser visitado sempre.
Parabéns a Santa Catarina pelo evento e pela real oportunidade de reconstruir conhecimentos e repassar cidadania e cultura a quem se interessa. Que venham outras bienais. Lages merece.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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