A Morte e a Morte no Mercado de Trabalho
Dos jovens brasileiros, na faixa etária entre 18 e 24 anos, apenas 20% podem ser considerados economicamente ativos. O que significam, a curto e médio prazos, esses números?
Simples: um contingente de mais de três milhões de pessoas em grave situação de risco social, sem perspectivas de presente e de futuro.
O jovem hoje sabe da ilusão do diploma. Muitos o querem apenas para currículo ou para poder prestar concursos.
Como a formação profissional também não é valorizada, faltam técnicos capacitados para o mercado, o que resulta no engrossamento das estatísticas de desemprego ou de subemprego.
Nelson Rodrigues, do alto de sua genial dramaticidade e eloqüência, alertava: “jovens, por favor, envelheçam!”
Atualmente deve-se tomar o cuidado para não envelhecer tão rápido, pois o mercado de trabalho também trata mal os idosos. Fica a máxima do ficar e correr com o bicho atrás.
Retrocedo no tempo e vejo com tristeza o que agora acontece. Antes, se saía de casa, se alugava um imóvel, se arrumava um emprego, a vida era mais leve e havia opções tanto para erros, quanto para acertos.
Ao mesmo tempo, na minha idade, vejo, consternado, as portas (e janelas) do mercado de trabalho teimosamente se fecharem. Só se aceitam jovens. Contraditório?
Pode ser. Velhos e jovens na mesma corda bamba, no mesmo barco furado.
Ponho-me em elucubrações baratas: jovens usam piercings nas orelhas, velhos têm-nas cheias de pêlos; tesão nos idosos é substituído pouco a pouco pela paciência; físico pelo tísico; os maiores problemas com jovens são de natureza existencial, com velhos, renal, quando não, hormonal; jovens pagam um caro preço pela prepotência, enquanto os mais velhos fogem do fantasma da impotência, pois os quadris que antes eram furacões, agora se escondem atrás dos pneus.
Eufemismos à parte, jovens têm o rompante da aventura, e quando quebram a cara aprendem lições. Já velhos costumam deter toda a experiência.
Teoricamente, toda experiência deve ser experimentada. Achou redundante? Pois é, nada melhor que redundâncias para explicar experiências. A vida é feita delas, redundantes experimentos. No final, sempre se quebra a cara, sempre sobram as lições.
Acho que Nelson Rodrigues estava blefando com sua frase. Jovens, por favor, permaneçam o quanto puderem jovens. Mais jovens, cada vez mais, direto ao útero, se possível.
Novo ou velho, ambos têm em comum o temor à morte. Os primeiros pela ameaça de precoce rompimento dos sonhos, e os últimos por tê-la, incômoda, bem de pertinho.
Na juventude os olhos brilham, na velhice a vista é cansada. Embora, o curioso seja que esse cansaço faça enxergar mais. Com ou sem Nelson. Com ou sem oferta de trabalho. Mesmo na distância, às vésperas ou no abrupto da morte.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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