TEMPOS DE CÁGADO
Enquanto uma guerra entre traficantes resultava em mortos e feridos no Complexo do Alemão, a três quilômetros dali, no Morro do Juramento, em Vicente Carvalho, na Zona Norte, um confronto entre traficantes também fazia vítimas inocentes (já que hoje as vítimas culpadas são extremamente raras ou suicidam-se no Japão).
A menina Ana Clara estava dormindo e foi mortalmente ferida ao ser atingida por estilhaços de uma granada de fabricação caseira. A explosão do artefato foi decorrente de uma suposta briga na tentativa de invasão da favela por bandidos do Comando Vermelho para retomar o controle dos pontos do tráfico sob o domínio da quadrilha rival, o ADA - Amigos dos Amigos (não sei bem por que, mas esse comando dos Amigos dos Amigos me fez lembrar as investigações sobre Renan Calheiros, presidente do Senado, no rumoroso caso da incômoda gestante e suas pensões suspeitas).
Bomba por bomba, voltemos às granadas, pois em casa de enforcados não se fala em corda.
Noite de terça-feira, aqui perto de onde moro, no Leme, duas outras explodiram, ilustrando o forte tiroteio no enfrentamento de duas facções que também lutavam pelo controle dos pontos na favela do Chapéu Mangueira. Vindos do Vidigal, em duas vans, traficantes subiram o morro e saíram atirando. A polícia prevê novos confrontos, uma vez que os criminosos expulsos devem tentar retomar o controle da favela. Ou seja: mais granadas à vista.
Aqui uma curiosidade animal: os novos donos das bocas-de-fumo no Chapéu são liderados pelo traficante, cuja alcunha é Cágado. Nada mais elucidativo: os moradores do Leme estão sitiados e reféns do medo, sob um clima de terror, e tudo por culpa do Cágado e seus comparsas.
Dizem os jornais que Cágado (José Ricardo Rosa) cumpria pena em regime semi-aberto no Complexo Penitenciário de Gericinó, mas não volta à prisão desde janeiro. Nosso Cágado é fugitivo. Aliás, para se fugir hoje da cadeia até em passos do próprio (enquanto isso, em Brasília, o presidente do Senado continua sem esclarecer as dúvidas e contradições a respeito do pagamento de pensão para sua filha com a gestante incômoda. Mas aí não se trata mais de obra de cágado, e sim de seu feminino chulo no plural).
Por falar nelas (as do feminino plural), não faz tanto tempo, uma simulação de resgate, em Rondonópolis, Mato Grosso, acabou também em morte e ferimentos generalizados. O motivo, quase inacreditável: as balas de uma escopeta, que eram para ser de festim, eram reais. Sabe-se que esse tipo de arma causa um estrago enorme, pois espalha esfera de chumbo no momento do disparo. Como fezes ao ventilador (não, não voltarei a falar do Plenário do Senado em Brasília).
Saudades do samba e não dos tiroteios nas favelas; do bandido da Luz Vermelha, ao invés do Comando da mesma cor; dos políticos suicidas japoneses; das balas de festim de verdade; das pensões que pagava do próprio bolso o Chico Anysio; do tempo em que cágado era só uma tartaruga simpática e, last but not least, do curto espaço de tempo em que as balas não se perdiam tanto e as granadas eram só de Espanha.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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