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» Marcio Paschoal escreve aos domingos. Acesse o site do autor: www.marciopaschoal.com

» RIO DE JANEIRO, 12 DE MAIO DE 2007

EXCOMUNGADOS, UNI-VOS!

O Papa Bento XVI chega ao Brasil com intenções de firmar o acordo antiabortista e participar da Conferência Geral do Episcopado, ou o que isso venha a significar, afinal episcopados e abespinhados estamos nós.

A pontifícia verdade é a ratificação do santo padre para deixar bem claro sua posição, ou seja, promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência da própria natureza humana. Esse tal declínio a que Bento se refere seria o repúdio também à pesquisa de embriões.

Diferentemente de seu antecessor, o novo papa fala melhor o Português  e ostenta melhor forma física, notada pela serelepe descida nas escadas da aeronave que o trouxe. E a forma atlética dá vazão à pretensa fluidez de idéias.

A discussão, ou melhor, o ponto nevrálgico da discórdia seria mesmo a descriminalização do aborto, anunciada pelo presidente Lula e desfraldada por seu ministro da saúde José Temporão, reafirmando que o aborto não é uma mera questão religiosa, e sim, de saúde pública.

De fato, não se pode tapar os olhos à realidade de um país, onde as mulheres fazem o aborto marginalizadas, clandestinamente e correndo risco de vida e seqüelas variadas, inclusive podendo sofrer sanções penais.

A tendência do Supremo Tribunal Federal é considerar isenta de pena a gestante que fizer o aborto quando for portadora de feto anencefálico (ausência de massa cerebral), equiparando às duas exceções já vigentes e previstas em artigo do Código Penal. Isto é, nos casos de meio de salvar a vida da gestante ou quando ela for vítima de estupro.

A Igreja Católica já manifestou sua opinião totalmente contrária ao aborto, tendo inclusive seu alto clero no México (outro grande centro católico) proposto excomunhão àqueles que se posicionarem a favor.

O ministro Temporão (metendo a carapuça) declarou que sua fé não pode ser excomungada. Outro ministro, o da cultura, já cantava que andar com fé ele ia, posto que ela não costumava falhar.
           
Na realidade, ninguém pode ser friamente favorável ao aborto, contudo não se deve ficar fazendo vista grossa e praticamente ignorar sua existência. Seria, mal comparando, como se a polícia declarasse ser contra a bala perdida.

Há muito deixei de levar a sério certos dogmas e práticas católicas e, junto a inúmeros outros, presumo, prossigo e persigo minha fé de forma individual e meio egoísta mais por falta de meios do que propriamente entusiasmo. Afinal, padres prevaricam, roubam e nutrem esquisitas tendências pedófilas. Ou seja, são humanos como Pedro o era. Simples pescador e pecador.

Assim sendo, resta-nos a fé recém e autocriada e as orações, não importando a forma, o quê ou para quê se ore. E não se diga tratar de má vontade com a Igreja, verdadeiros tesouros, nada pelo viés religioso, mas pelo histórico. Não há quem resista às igrejas de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Salvador e aqui mesmo no Rio. Quando se admira toda aquela arquitetura e aura, fica difícil não viajar no esplendor de uma época nem tão esplendorosa assim, mas inegavelmente bela e misteriosa.

O tema gera polêmicas intermináveis, como política, futebol e sexo, e abstenho-me por aqui (não de sexo, por favor), mas de prosseguir com o assunto.

No final, seguirá a caravana com seus fanáticos, fariseus, beatos, cientistas ou quiméricos, puxando cada qual a brasa para sua sardinha. E a sobra irrefutável dessa iguaria fica patente: humanidade e razão raramente combinam quando não se faz o uso paliativo de certa hipocrisia.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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