Informal sim, e daí?
Não sou o que comumente se costuma chamar de um trabalhador padrão. Não fiz como na música de Zeca Baleiro que despediu o patrão dele no primeiro emprego. Ao contrário, trabalhei, entre outras autarquias, por exemplo, na Petrobrás por longos e nem tão profícuos 17 anos. Mas, desde que tornei-me escritor (contra a vontade da maioria de meus leitores) tenho trabalhado mais no sistema de informalidade, não lembrando mais o que quer dizer C.L.T.
De lá pra cá, já fui motorista de crianças, levando os petizes a seus colégios, enfrentando o trânsito e a inevitável algazarra de meus pequenos fregueses; fui animador de festas infantis ou palestrante (o que dá no mesmo); dei aulas de Português; fiz tradução de Inglês; copidesques; revisão de teses de mestrado e doutorado, e, entre outras coisas, aprimorei-me nas tarefas domésticas, onde, para meu orgulho e gáudio, me saí muito bem. Afinal, além do feijão com arroz, minhas massas al sugo, omeletes e risotos de resto de comida são enaltecidos. Sem contar que lavo louça como ninguém, domino como poucos a máquina de lavar, especializei-me em estender roupa na corda e, finalmente, a passar. Passar adiante todo serviço possível.
Larguemos as frivolidades e passemos ao que interessa de fato. Não sou, por assim dizer, um workaholic - termo criado pelo economista (sempre eles) norte-americano W.Oates para designar aqueles que possuem o comportamento compulsivo de trabalhar.
Na verdade posso até me considerar um holidayholic, haja visto tanto feriado nesta nossa terrinha, e de sempre encontrar-me predisposto a usufruir de tais benesses de descanso. Não fazer nada, mesmo parecendo paradoxal, às vezes exige muito de nós. E dos outros também.
Não que esteja fazendo desfeita com esse pessoal executivo-patológico que não se cansa de trabalhar, inclusive sabendo tratar-se de uma doença séria que vitima grande parte da população, mormente a economicamente ativa. Seus sintomas vão desde simples dores de cabeça e sensações de cansaço à diminuição da auto-estima, tonturas e alterações comportamentais graves.
Bom, mas, confesso que desse mal dificilmente padecerei. A não ser que arrume uma função extremamente bem-remunerada de enólogo francês ou primeiros socorros ginecológicos.
Lá vem o cronista com essa sua mania de piada fora-de-hora. Deixemos de meneios e voltemos ao tema da crônica, que, se ninguém ainda percebeu, é o dia do trabalhador.
O dia mundial do trabalho, dizem, foi criado em Paris no final do século XIX. No Brasil, em 24, o então presidente Artur Bernardes oficializou o primeiro de maio como feriado nacional. Uma justa homenagem aos operários.
Mas, vem cá, isso tudo está mudando bem depressa e o ambiente de festa parece que desapareceu. Não se exibem mais desfiles militares, exércitos e mísseis como faziam Moscou e Pequim. Nem Fidel protagoniza seus antológicos discursos de horas, hipnotizando as multidões em Havana. Por aqui, a turma da CUT apenas promove sorteios mixurucas e banca eventos duvidosos.
A verdade é que os reais interesses dos trabalhadores ficaram em segundo plano, cedendo aos desavergonhados procedimentos e às trocas de favores e cargos, com muitos desses senhores das centrais e forças sindicais que se mantêm no poder a custa exatamente desse jogo de cena tão criticável.
Com isso, aumenta a informalidade nos empregos e cada vez mais há trabalhadores nessa situação. Aposto que, se os informais se unissem e efetivassem uma grande greve, sem dúvida que o país pararia. Ao menos para refletir.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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