A POLÍTICA E A ARTE DE VANGUARDA
Outra noite, meio de semana, estava eu com meu chope e duas amigas num bar em Copacabana, esquina da Constante com Domingos Ferreira. Um desses bares modelo paulistano, que eu esqueci o nome e não vem ao caso.
Prosseguindo. Algumas tulipas depois, uma das minhas amigas falou de uma exposição no M.A.C de Niterói, com instalações envolvendo obras com pelos pubianos. Isso mesmo, caro leitor. Também espantei-me e achei tratar-se de brincadeira ou efeito alcoólico. Com um passado que merecia atenção, essa minha amiga, diante da incredulidade da mesa, muniu-se de infrutíferas explicações. Mas nada poderia explicar arte com pentelhos. Pelo menos, tida como séria e respeitosa. Alguma coisa contra pelos pubianos? Muito pelo contrário (opa, esqueça isso...). Nada, muito menos contra a arte ou a mera gaiatice encobrindo mensagens sublineares. Não estaria a minha amiga enganada? Poderiam ser arames, fios de nylon ou sua vista cansada. No entanto, ela insistia: “eram pentelhos, tenho certeza”.
Mais cerveja e brincadeiras e a noite atravessou rápida e alegre, embalada pelas gozações contra minha pobre amiga que, àquela altura, tentava de todas as formas e inutilmente mudar de assunto.
Passado algum tempo, li no JB, caderno de Domingo, que uma artista plástica brasileira montava sua exposição no Centro Cultural Candido Mendes, em Ipanema, utilizando obras que retratavam o universo feminino, com tampões, absorventes, camisinhas, próteses de silicones e, pasmem, pelos pubianos.
Forçosamente lembrei daquela noite e de minha amiga. Não é que ela estava certa. Ora, ora vejam por quais atalhos se mete a arte moderna.
Naquela noite, recordo, perguntei-lhe de quem poderia ser o tal material. Da própria artista? De alguém famoso que doara graciosamente seus pelos mais íntimos? Agora a resposta me chegava via jornal: a artista comprara os pelos pubianos na Saara, ali na Alfândega com Presidente Vargas.
Fiquei logo imaginando aqueles alto-falantes no shopping ao ar-livre, anunciando no armazém do seu Chalibe, pelos pubianos em liquidação! Saldo de pentelhos! O leitor queira me desculpar, mas não houve como segurar.
Bem, voltemos à aparente seriedade e aos reflexos do emprego de esquisitices em nome da vanguarda. A arte acaba enveredando por caminhos nos quais fica difícil distinguir o underground do nothing around. Dá uma vontade de ficar só um pouquinho reacionário e reativo ao bizarro e ordinário. Estaria eu exagerando? E você, leitor, o que pensa?
Desde que a arte é arte, e isso já faz algum tempo, algumas estranhezas serão sempre malditas e incompreendidas até tornarem-se praxe e reafirmarem seu valor. Quando Aleijadinho descobriu a pedra-sabão teve gente que olhou de lado; Mona Lisa não agradou a ninguém no início, nem ao próprio Leonardo.
Então, abaixo a caretice e a censura idiota, paz e vida longa ao pelos pubianos como manifestação artística.
Outro artista plástico, ceramista e escultor de renome, prepara sua exposição de cerâmicas e tipografias, metendo a mão na lama. São novas formas a partir da exploração do material in loco. Ou seria in louco? A arte extraída da lama. Sei não, já vi coisa mais original com certos caranguejos de mangue. Sai fora, cronista atrasado e sarcástico. Na verdade, a arte pode surgir plena através de genitálias peludas ou lodos lamacentos. O importante é a visão e concepção do artista, sacaram?
De maneira análoga e com certo grosso modo que a situação anda a clamar, lembro que alguns políticos bem nossos conhecidos são artistas por esse viés. Chafurdam na lama dos gabinetes e na pornografia quase explícita do Planalto a fim de exercerem suas funções e benesses, descaradamente.
Em tempo, a artista plástica dos pelos pubianos é a Márcia Clayton, e o ceramista da lama é o mineiro Máximo Soalheiro. Os políticos artistas envolvidos em pentelhagem sistemática e lama podre, se citados, não caberiam nesta crônica. E minhas amigas do bar da Constante pedem para não serem identificadas.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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