Vai uma dose de etanol, aí?
Seria êta, nóis! o plural de etanol?
A notícia foi veiculada com toda a pompa merecida: o Brasil quer produzir etanol a fim de substituir cerca de dez por cento da gasolina consumida em todo o mundo num prazo de vinte anos.
O país já tem uma frota de quase três milhões de veículos movidos a álcool. Todo mundo deve estar lembrando da propaganda do “você ainda vai ter um”. Naquela época se imaginava ter um baita problema. Pois é, não é que o aumento da produção do etanol passou a ser fundamental para a seqüência e o sucesso desse projeto? Uma questão de aparente obviedade, mas que ainda gera um bocado de controvérsias.
Nesse sentido, Estados Unidos e Brasil (o primeiro com o milho e nós com bagaço da cana) acertaram cooperar também no desenvolvimento de um mercado internacional para tais produtos.
O ainda presidente de Cuba, Dom Fidel chiou nas tamancas. Para Castro, a produção de etanol a partir do milho (mais do que da cana) beneficiaria os ricos consumistas em detrimento da queima de alimentos dos mais pobres. A equação ao ritmo de rumba seria, mais ou menos, mais biocombustível para os abastados e menos fubá de milho para os pobres.
E você, o que está achando? Pode ser meio simplista o raciocínio castrista, pois não se medem economias e produções dessa maneira linear. Afinal, a fome não decorre só da escassez de alimentos, mas da carência de empregos e de renda.
Na verdade, o mundo já produz alimentos suficientes para as necessidades do dobro da população mundial. E isso que é mais dramático e vergonhoso.
Já os ambientalistas revelam sua preocupação com o impacto ambiental. Embora isso já ocorra de uma forma bem mais acentuada com o petróleo. Além do que, os biocombustíveis ajudariam na diminuição do aquecimento global, reduzindo significativamente a emissão de poluentes na atmosfera.
Outro fator positivo seria a geração de milhões de empregos a partir da produção do etanol, ajudando inclusive na distribuição de renda, sobretudo se a agricultura familiar for estimulada pelo governo.
A crise energética que afeta a todos constitui severo obstáculo ao progresso desenvolvimentista. Os programas de produção dos biocombustíveis se transformariam na mais viável solução emergencial.
O fato decisivo nessa pendenga toda é o desenvolvimento das tecnologias. Aí, decidem-se os campeonatos e a porca torce o rabo. Os cientistas europeus e norte-americanos estão mais avançados nesta pesquisa e contam com muito mais investimentos. Do nosso lado a vantagem de dispor do bagaço na cana, pronto para ser reprocessado. A saber: a fase de reprocessamento é o calcanhar de Aquiles na produção, e os demais países teriam de recolher no campo os resíduos necessários com custos adicionais. Sem contar, é claro, que nosso presidente, recém reunido com o Bush em Camp David, encheu-nos de orgulho com sua firmeza e eloqüência, pois sabe-se que, quando o tema é cana de açúcar, ele é profundo conhecedor do assunto. Um brinde a isso.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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