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» RIO DE JANEIRO, 8 DE ABRIL DE 2007

UMA BALA PERDIDA PARA BURROUGHS

O ex-publicitário e escritor Augusten Burroughs, autor do best-seller “Correndo com tesouras”, é mais uma prova de que as vicissitudes de la vie podem gerar algum lucro, casos consigamos sobreviver de tudo isso. Explico: Augusten (na verdade, Cristopher Robinson) é filho de um professor alcoólatra e sua mãe era uma poetisa maníaco depressiva. Resumo da ciranda: o pai escolhe a carreira de magistério e ainda quer ficar enchendo a cara, e mamãe sonha com a fama escrevendo rimas e tomando antidepressivos. Ninguém dá bola para o pequeno Cristopher. Como se ainda não bastasse é entregue, aos doze anos, em adoção a um psiquiatra doidão, amigo da família. Mais que uma infância triste, um bolero sem fim, um conto de terror. Ravel e Stephen King perdem.

E o que faz Cristopher, ou melhor, Augusten? Percebendo que sua história de vida dava um prato cheio para um romance autobiográfico, conta tudo num livro de memórias de deixar muita gente reclamante feliz da vida, se sentindo até privilegiada.

O resultado é que Mr. Burroughs, hoje um bem-sucedido escritor, mora muitíssimo bem em Nova Iorque, no Upper West Side, não tem problemas com o banco e vive folgadamente seu bendito e merecido sucesso.

Burroughs, em recentes entrevistas, baseia-se na estranheza de sua educação, ou absoluta falta dela, para justificar-se ateu e assumir-se homossexual.

A explicação é simples (para ele). Como não teve nenhum treinamento religioso, confundindo Papai Noel e Jesus Cristo, nunca teve doutrinação do certo e do errado, achando completamente normal ser ateu e gay. A tal história: Deus diz que é errado, pecado, e tome de sanções, confissões, penitências e outras abobrinhas oriundas das lições de nossos antepassados. Pudera, agora virou moda atribuir à tal civilização judaico-cristã, aos políticos e administradores, aos presidentes das federações de futebol e dos Estados Unidos ou aos controladores de vôo, além de outras facções sinistras, todas as mazelas do mundo moderno.

Esqueçamos os culpados. O fato é que para muitas pessoas fica extremamente penoso assumir sua própria sexualidade e aceitar-se assim. Burroughs não teve de passar por isso.

De minha parte, não costumo ser ateu, mormente nas horas ruins, do pega pra capar, do me ajude minha Nossa Senhora etc e tal. Também não tenho nenhum problema com as mulheres. Elas é que parecem ter comigo, haja vista a minha atual penúria de relacionamentos recentes. Não sei bem se algum dia confundi Noel e Jesus. Um dava presentes e o outro fazia você se sentir muito culpado com todas aqueles pregos e espinhos. Melhor seria passear no céu com as renas. Sei que tive censuras demais, algumas palmadas e uma infância aparentemente normal. Digo aparente, pois, como toda loucura, a infância também não pode ser totalmente normal. Ninguém crescerá impunemente. E o começo de vida de Burroughs acabou ajudando. Como uma espécie de compensação do Deus judaico-cristão. A filosofia de que Ele dá um limão e você faz uma limonada. Se bem que muitos ainda prefiram adicionar alguns ingredientes e acabar na caipirinha.

Parabéns, então, àqueles que conseguem tal proeza. Já que não tive nenhuma história de vida mais interessante, fico sem meu romance best-seller. Bem-feito.  Só me resta a ficção. Ou então olhar para o lado e ver a cidade. Será que excesso de bala perdida dá um bom enredo de livro de memórías?

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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