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» RIO DE JANEIRO, 1 DE ABRIL DE 2007

A SEXÓLOGA E A MINISTRA

Um recente relatório divulgado pela O.I.T. (Organização Internacional do Trabalho) revela que mais de um milhão de mulheres trabalham como escravas sexuais no mundo. O que nos interessa notar é que o Brasil foi considerado o maior "fornecedor" dessa inusitada mão-de-obra. E bota mão na obra.

Na Europa, as meninas são conhecidíssimas e supervalorizadas mais do que as demais. Só em Portugal, estima-se que quase 4 mil brasileiras trabalhem como garotas de programa e sejam vítimas dessa rede de prostituição internacional.

A razão dessa alta procura por brasileiras é devida à nossa  intensa miscigenação racial (diferença de biotipos). O(a)s aliciadore(a)s - essa cambada que ganha em torno de R$600,00 por menina - prometem melhores oportunidades de emprego no exterior e até casamentos com cidadãos europeus. Uma ilusão tão direta quanto ingênua, mas que funciona.

A situação torna-se grave quando sabemos que, para poder viver, elas são obrigadas a fazer programas sexuais com turistas e moradores das cidades onde vivem, strip em boates e, no final, entregar boa parte da renda aos proxenetas e traficantes que ficam com os passaportes da(s) vítimas.

O turismo sexual interno não fica atrás. Ao recorrer à prostituição, nossas jovens procuram mais do que a sobrevivência física. É a própria auto-estima que está em jogo. Muitas pensam em guardar dinheiro (dólares ou euros) para a futura independência.

O que causa apreensão, para não dizer pavor misturado à vergonha, é a faixa etária dessas garotas. A prostituição infantil está cada vez mais infantil. Começa aos dez. Aos doze a menina já pode ser vista como veterana no metier.

Essa exploração sexual covarde, abusiva e adulterada, ou seja, sua extrema infantilização, tem forte amparo nas drogas, principal fonte de quebra de vontade da pessoa explorada.

O deputado e ex-cantor (ou seria o inverso?) Agnaldo Timóteo defende o meretrício como arma de defesa e de subsistência dessas infelizes. Esquece-se, talvez, de que a maioria dos usuários desse tipo de desvio moral busca nessas crianças dar vazão a seus instintos reprimidos e exercitar seu domínio, o qual seria praticamente impossível de ser exercido se fosse com uma pessoa adulta. Dito de outro modo, danem-se as seqüelas e tudo pelo vil metal. Tudo pelo ralo, tudo pelo sexual. Tudo pelo social, não importa o preço nem a premissa.

As taras, desigualdades, abandono político, fome, miséria, vários poderiam ser os motivos de tamanha expansão e desfaçatez do quadro crescente do turismo sexual. A venda do corpo com forma de sobrevivência ou negócio é um processo antigo e se deve a inúmeras causas. Desde a introdução das francesas e "polacas" no final do século XIX à atual inclusão sexual de nossas pobres crianças, o que se vê é uma vigarice que só. Tapar o sol com a peneira é a saída exercida pela imensa maioria. É a tal linha de raciocínio marginal: "eu podia estar roubando, matando etc, mas só estou dando por grana".

Há violências e violências, sem dúvida, e nosso intrépido Agnaldo Timóteo, irresponsavelmente, se baseia nisso.

Já bem preconizava outro velho ícone, Paulo Maluf, que estuprar podia, mas matar, não. É a mesma base canstrona e perigosamente acomodada de encobrir o óbvio que nos esbofeteia e pede respostas. Um cinismo bem-intencionado. Qualquer dia, masturbar-se em frente a incubadoras vai virar moda. Mas do que espantar-se mais? Ainda temos a lógica a nosso favor: foi nomeada para o Turismo, a agora ministra Marta Suplicy. Isto é, para o turismo sexual uma sexóloga. Nada mais coerente.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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