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» RIO DE JANEIRO, 25 DE MARÇO DE 2007

Sobre heróis e incompetentes

Com os últimos acontecimentos quase surreais na nossa cidade, gostaria de propor a reflexão se tudo é mesmo mera questão de incompetência ou se há alguma coisa estranha no ar. Meio fora da ordem, como alertou Caetano Veloso. E olha que não falamos aqui de sandices inócuas, como a declaração do deputado Clodovil Hernandez de que era contra o Orgulho Gay, já que não tinha o menor orgulho de ser gay, e sim de ser ele mesmo. Surpreso, paciente leitor? Eu não. Há ou não alguma coisa conspirando contra o bom-senso?

E já que falamos de bom-senso, é útil salientar (no pior sentido da palavra, que é ressaltar, tornar visível...) que a turma que ainda insiste em voar está no limite. Os apagões aéreos se repetem com a constância dos disparates, e o governo mostra-se o maior interessado em resolver tudo, embora se negue em aceitar uma CPI. Se bem que as CPIs estão numa fase de amplo descrédito. Não por causa das comissões ou parlamentares, o problema reside nos inquéritos. A quem inquirir? Proselitismos e corporativismos em excesso.

Mas não se pode dizer de má vontade política. Alguns tentam, é verdade. Benedita da Silva, nossa bem-intencionada secretária da Ação Social, vem com o projeto sui generis da extensão da Bolsa Família para a família dos delinqüentes. Penso que vai ter até muito parente de malandro incentivando o crime só para amealhar essa boquinha. Até quem estava preso vai querer participar. Querem ver? O Estado do Rio tem mais de 6 mil foragidos. Destes, só em regime semi-aberto são quase 4 mil. Resumo da ópera bufa: o cara consegue ser transferido, trabalha durante o dia e volta à noite para a cela. Será que o pessoal volta? Pra quê? Agora, o negócio é engrossar a turma da Bolsa Bandido. Que tal se o Lula seguisse o conselho do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe? Declarar guerra ao narcotráfico e aos marginais, colocando o Exército inteiro nas ruas e nas estradas, como Uribe fez por lá. Poderia ser uma solução traumática e eficiente. Profilática, demagógica? Quem sabe? Mas parece que o foco do nosso mandante é outro, o buraco seria mais embaixo ou em cima, mais para o Ponto G.

Bem, como foi dito (ou escrito) no início do texto, a incompetência se mistura à total estranheza dos fatos. Se bem que nem o mais otimista ou ingênuo irá acreditar que se trata só de incompetentes de plantão. Se os fatos estiverem contra nós, pior para os fatos. Deve haver muito mais que simples aviões de carreira pelo ar, como lembraria o bom Barão de Itararé. Imaginem o nosso Aparicio Torelly convivendo com overbookings em meio a greves de funcionários e aeroportos congestionados. Não daria certo.

Paciente leitor, a realidade é que nossos heróis morreram de overdose de poder administrativo. E vem logo alguém me dizer que tudo é cíclico. Por exemplo, o Collor, com o aval democrático e indefectível dos votos, discursou, garantindo que o tempo seria seu melhor defensor. Como um Mick Jagger em “time is on my side”.  E agora? Dormir com todo esse barulho? Será que ele continuará falando “minha gente”, os dólares ainda estão no Uruguai?

Pacientíssimo leitor, quantas saudades da gonorréia. Nossos heróis têm a cara do Rubinho Pé-de-Barrichello. O curioso e dramático é o Pedro Bial chamar pela tevê os tolinhos do BBB de “nossos heróis”. Lula descreve os usineiros como os neo-heróis da hora. É muita coisa esdrúxula e heróica no ar.

Haja incompetência, ou seríamos o país que um certo generalíssimo francês fez piada? Faz sentido. E já que não é para se levar muito a sério, deixemos pra lá. Aceitemos que o ponto G ficará mais exposto neste outono, o velho craque marrento fará seu milésimo gol, o Alemão ganhará um milhão e alguém, mais lúcido, desesperado ou cínico, certamente pleiteará a criação da Bolsa Cidadão Palhaço. Alguém se candidata?

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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