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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Matrix: do outro lado do espelho

Editoria de Arte

30|05|07 • O filme MATRIX nos coloca diante da pergunta crucial de nosso milênio: o que é realidade? O lado direito ou o avesso do espelho? Sem parâmetros, a Mente humana redescobre seu potencial para as infinitas percepções do real.

Como em toda obra, este filme tem várias leituras possíveis. Eu tive de escolher uma delas e escolhi seguir a vertente do próprio nome do filme. Matrix vem do latim, que significa matriz, origem, início. Usando de uma linguagem metafórica, significa ‘Mãe’.

Supondo que todos tenham conhecimento do filme, existem várias passagens em que são colocadas perguntas como essas: O que é a Matrix? Você busca pela Matrix. A Matrix está em todo lugar, a nossa volta, é o mundo colocado diante de seus olhos, para que você não veja a verdade. Que verdade? Que você é um escravo. Sua mente está aprisionada. Assim diz Morfeus a Neo.

E aqui não podemos deixar de dar razão a Freud, que declarou, no ano de 1895, num texto onde ele estudava a histeria, que tudo aquilo que ele dizia sobre os sintomas psicológicos, são encontrados nos romances. Quer dizer, a literatura se antecipa à ciência e dramatiza as questões mais importantes da vida humana. Exemplos não faltam: de Sóflocles a Leonardo da Vinci, Shakeaspeare, Goethe, Joyce, Edgar Alan Poe e muitos outros. Nós podemos rastrear as maiores questões humanas nos filmes que se produzem.

O filme Matrix, por exemplo, coloca a pergunta mais crucial que podemos fazer, que é: quem sou eu e de onde vim? Na vertigem dessas perguntas, outras vão surgindo: o que é realidade? Será que estou sonhando que estou acordado ou estou acordado pensando que estou sonhando? Qual é a garantia, a consistência disto que chamamos de realidade?

Desde o início, quando o filme inclui o plano virtual da informática, tudo parece girar a partir de um mundo gerado por máquinas, computadores, inteligências artificiais, homens-máquina, códigos e sinais elétricos interpretados por computadores. Essa parece ser a linguagem de nossa época. Mas a questão de fundo é muito antiga, tem a idade da origem da humanidade. E talvez tenha sido esse o maior fator de sucesso desse filme, ele trata questões antigas de uma forma moderna.

Vou tentar ir seguindo, paralelamente, o filme e teorias psicanalíticas que falam das mesmas questões. Não foi por nada que intitulei esse texto como “Matrix: do outro lado do espelho”. Porque toda a história começa com um atravessar o espelho (que reflete o conhecido) para ir até as origens (o desconhecido). A cena que mostra isso é bem clara: Depois de ter tomado a pílula vermelha que o levaria a entrar na ‘toca do coelho’, Neo se vê refletido de forma estranha no espelho, há um estranhamento, sua imagem começa a se fragmentar, ele tenta tocar o espelho (vejam a confirmação dos sentidos) para ver se aquilo era real e aí ele começa a ser envolvido por uma substância gelatinosa, como um líquido amniótico que o engolisse num parto ao contrário; em vez de sair, ele entra de volta para o útero.

Então, essa expressão do outro lado do espelho poderia ser entendida como uma regressão a um estado anterior à constituição do ‘eu’. Na teoria psicanalítica há uma expressão criada por Lacan, em 1936, para designar um momento psíquico e ontológico da evolução humana. Este momento se situa por volta dos 18 meses de vida. A criança antecipa a percepção de sua imagem corporal unificada numa forma, como se ele estivesse vendo uma imagem num espelho e se visse refletido nela, e isso, ou essa imagem, ele reconhece como sendo o ‘eu’.  A esse momento Lacan chamou de ‘estádio do espelho’.

Isto significa que o ‘eu’ é uma imagem, nada mais. Ela nos aliena de nós mesmos, mas, sem ela, não existimos enquanto indivíduos. E o que existiria ‘do outro lado do espelho’? Ou seja, antes do ‘eu’ o que existe?  Antes do ‘eu’ não há uma unidade onde o ‘eu’ possa se reconhecer. A isto a psicanálise diz que tudo que há é uma Falta, um vazio, um buraco no ser do qual nada podemos dizer. Podemos supor que lá somos apenas pedaços, fragmentos, dispersão no todo, porque ainda não há consciência do ‘eu’. Podemos até supor uma realidade por detrás disso, mas essa realidade é construída retroativamente, a partir de um ‘eu’ já constituído, que cria uma hipótese, um mundo virtual construído pelas projeções de nossas fantasias.    

Será isso realidade? Ou seja, uma realidade construída, projetada pelo desejo, pela fantasia? Se for, realidade é só uma construção mental, uma idéia, um sonho. Se não for, onde está sua consistência -- material ou não? E é exatamente isso que faz o autor do tema Matrix. Ele cria um fantástico mundo de seres artificiais e máquinas voadoras que ameaçam sugar a vida/energia dos humanos ainda existentes numa terra desértica do ano 2.199.

Novamente coincidindo com a teoria psicanalítica, nesse mundo primordial -- que no filme é o futuro -- não há alteridade, não há o outro, pois não existe um mundo humano. O que caracteriza o mundo humano é a relação com o outro, a empatia, o sentir junto, o amor. Para isso é necessário haver o reconhecimento, e uma espécie de acordo, ou pacto social, onde todos se reconhecem fazendo parte de uma mesma história – mesmo que seja a história de nossa alienação primária. Nós não sabemos de onde viemos, mas fazemos de conta que começamos na hora em que nos vimos refletidos no espelho do olhar do outro e ele nos disse: você é fulano de tal; e nós acreditamos que isto é a verdade.

Vamos aceitar – provisoriamente – que realidade é um pacto social. Um mundo de mentirinha. Criado por um Decreto. Sem questionar quem dá as cartas, ou seja, as grandes corporações financeiras, nossa realidade hoje tem sido bastante parecida com aquela que mostra o filme. Vivemos já num mundo onde as máquinas tem o comando de nossas vidas: são os veículos de condução, a automatização do trabalho, os caixas eletrônicos, os aparelhos elétricos, o computador... num futuro bem próximo os alimentos transgênicos, depois as pesquisas com o DNA, os clones... e a vida vai se tornando cada vez mais artificial.

Num mundo como esse, quais são as imagens especulares que esse pacto social tem produzido nos últimos tempos? A de seres vazios, robotizados, sem vontade própria, apáticos, inconscientes, sonânbúlicos, que se deixam guiar sem muita contestação. No fundo, uma sociedade impotente. Que se embriaga nos fins de semana, se aliena com drogas, se entorpece com o barulho, se embrutece com a violência. Aos poucos está sendo criado um mundo de zumbis do qual nós fazemos parte hoje, agora, nesse momento. Este é o mundo da Matrix. No filme, as pessoas andam atarefadas de cá para lá sem ir a lugar nenhum. Quando surge alguém com talento e capacidade criativa, ele só vê uma saída: transgredir. Antigamente a transgressão era pelas armas ou pela política. Hoje é pela Internet. Penetrar nos sistemas ultra fechados das grandes corporações é um ato mais para o heroísmo do que para a deliquência. Neo era um herói ou um deliquente? Não importa: era alguém que pensava. E porque pensava, transgredia.

O  filme nos provoca justamente naquilo que temos de mais verdadeiro: a confiança em nossos sinais sensoriais para perceber o que é real do que não é. Ele quebra com essas certezas, exatamente como hoje faz a neurociência. Nosso cérebro capta apenas vibrações emitidas por nossos sentidos – ver, cheirar, tocar, sentir, provar – são apenas as captações de sinais vibracionais do mundo externo. E o neo-cortéx traduz: isso é uma rosa; ou, isso é um livro. Para termos essa percepção de realidade, são necessários uma rede de complexos processos neurológicos em ação.

E o mais fantástico de tudo isso é que nem é necessária essa captação de estímulos externos para produzir reações bioquímicos em nosso organismo. Basta imaginar que ‘isto é uma rosa’ ou que ‘isto é um livro’, e o nosso cérebro vai reagir da mesma forma como se estivéssemos de fato diante de uma rosa ou de um livro.

Bem, o que o filme vai mostrar (e que a ciência está tentando mostrar também) é que, se real é aquilo que eu penso que é real, então eu posso criar a realidade que eu quiser. Posso voar, posso anular a matéria, o tempo e o espaço, posso me transformar em outra pessoa, etc. Isto não é ficção. A neurociência e a física quântica falam a mesma coisa.

Se é assim, eu pergunto: porque os sobreviventes da Matrix não utilizam desse poder da mente para criar um mundo novo e humano? Porque ainda parecem presos ao antigo padrão de lançar mão de recursos tão antigos, como dar tiros sem parar, armas moderníssimas, requintes de alta tecnologia, para derrotar os agentes da Matrix?

Porque, ao meu ver, o que está em jogo é outra coisa. É a busca é pela origem. Não é um mundo novo o que buscam, é o passado, é uma ponte que vai reuni-los novamente com a origem: e essa ponte é Sião, uma cidade dos humanos à moda antiga. A única que restou. Nela, sim, são geradas as crianças do futuro, que sabem usar os poderes da mente. Lá nos surpreendemos com crianças que passam o tempo a entortar colheres e a fazer objetos flutuarem só com a força mental.

Sião pode ser associada à mãe boa, à mãe que cuida e ama, que sustenta a evolução da humanidade dos seus filhos. A Matrix é a mãe má, artificial, devoradora, equivalente moderna da Grande Mãe primitiva, que dava a luz e engolia os filhos novamente para se auto-alimentar.

O filme Matrix nos coloca diante de um arquétipo que permanece nos recônditos do inconsciente coletivo: o medo da Grande Mãe. Na origem da humanidade, antes que o patriarcalismo se instalasse como um pacto social, havia o culto a uma força poderosa, instintiva e primitiva, que nossos ancestrais pressentiam na natureza, e à qual reverenciavam como uma deusa.

Essa deusa, tal qual a natureza, alimentava, nutria, mas também destruía tudo com seus ataques de fúria, provocando cataclismos, enchentes, secas, terremotos, raios e trovões. O poder da Grande Mãe era tamanho que a consciência humana, em sua história, só muito lentamente, conseguiu adquirir autonomia e independência, se individualizando. Ao se individualizar, criou o patriarcalismo, e com ele teve origem o grande pacto social que prioriza as relações sociais e os valores masculinos da guerra e da competitividade, e que construiu a sociedade onde vivemos hoje. Porque para fazer face e enfrentar os poderes da Grande Mãe, era preciso uma coragem masculina, ativa e guerreira.

Mas, para onde foi a Grande Mãe? Para os porões do inconsciente. Ela está presente ainda, hoje, em pleno século XXI, como uma ameaça interiorizada que ainda assusta, imobiliza e impede o mergulho nesse outro lado do espelho, a única que responderia a pergunta crucial: de onde viemos?

Porque o feminino assusta tanto? Porque ele ainda reacende a lembrança desse temor ancestral à uma figura dupla, que nutre e cuida, mata e engole.

O filme Matrix é um mergulho no útero dessa Grande Mãe assustadora. Através do atravessamento para o outro lado do espelho, o personagem enfrenta sua própria dissolução no vazio, o despedaçamento de sua imagem, e foi a sua coragem heróica – ele escolheu a pílula vermelha! – que fez dele um Escolhido.

Só poucos se tornam heróis. Uma frase de Morfeu que me chamou a atenção: ”a maior parte das pessoas não está pronta para acordar. São dependentes do sistema e vão lutar para preservá-lo" Neo é o Escolhido porque ele tem a coragem de descer até o fundo do poço, depois salva o pai (Morfeu) e recebe a recompensa do amor da donzela (Trinity). Ou seja, é um herói.
           
Como em todas as sagas de heróis, depois de sua iniciação ele precisa voltar à vida comum, à Matrix, e colocar-se a serviço. A serviço de que? Do despertar dos outros. O herói é aquele que descobre o caminho, que vai na frente, para que os outros o sigam. O filme termina com a volta de Neo às ruas de sua cidade na Matrix, só que agora, olhando todas aquelas coisas conhecidas com outros olhos, os olhos de um iniciado, de um ser desperto, de alguém que ousou atravessar para o outro lado do espelho.

Mani Alvarez é Doutora em Filosofia da Educação e Diretora do Instituto Humanitatis – Campinas. Autora do livro “Psicologia Transpessoal: a ponte entre espiritualidade e ciência”. Site Oficial da Autora.

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