O Mistério da Música
24|04|07 • Quando surgiu a música? Talvez junto com a humanidade. Se fizermos uma anamnese da infância do ser humano, podemos imaginar nossos antepassados transformando sons honomatopéicos em musicalidade, descobrindo que era possível extrair sonoridades e ritmos de objetos sólidos e ocos, como o bambu, pauzinhos, ossos furados, peles de couro, pedrinhas, chocalhos, recipientes com água etc. Mais um pouquinho e estariam criando instrumentos musicais.. Talvez tivessem percebido que o próprio corpo repercutia nos gestos que faziam com as mãos, batendo palmas, dançando. Entre os povos antigos, a música sempre foi considerada como uma expressão coletiva de religiosidade, celebração, comunicação com divindades e seres ancestrais. Naqueles tempos ainda não se pensava em fazer música como expressão artística e sim, como uma oração. Todos eram músicos, cantores e dançarinos. Todos eram artistas. Quando foi que esquecemos isto?
Outro ponto interessante a considerar é que a mitologia de todos os povos da terra falam da música como um presente, uma dádiva dos deuses aos seres humanos. Os indianos atribuíam a origem da música a Brahman e Sarasvati, seu aspecto feminino e criativo; na China, acreditavam ter sido Fu-Hsi e sua filha, irmã e esposa que ensinaram os fundamentos da música aos mortais; os egípcios diziam que teria sido Isis e Osíris quem trouxera a dádiva da música para a terra; os hebreus atribuíam a Jubal, os gregos a Apolo ou Hermes, e os celtas a Odin ou Wotan. Mas, é interessante notar que todos eles intuíam que a música não era uma invenção humana e sim, um presente divino para a humanidade. É como se atribuíssem a um Outro a dimensão transpessoal que nos é inerente.
Especialmente a mitologia grega nos conta a história de como teriam sido os humanos presenteados com as dádivas da arte em geral. Através de alegorias belas e fecundas, as respostas às mais complexas perguntas do espírito humano vão sendo sugeridas. Na origem cosmogônica do mundo sempre há um Pai-céu que teme que sua descendência o prive do poder absoluto. Por isso devora todos os filhos que nascem da Mãe-terra.. Até que, numa rebelião que demonstra maturidade e independência da vontade, um dos filhos castra o pai (vejam o simbolismo do ato), colocando limites ao seu poder absoluto e inicia uma nova era. Esse mito evoca o processo de amadurecimento da consciência.
Para os gregos, Zeus representou esse filho que venceu as forças brutas da natureza paterna indomável de Cronos (Saturno). Seu irmão Poseidon (Netuno) passou a governar os mares; Hades (Plutão) se tornou o deus do mundo subterrâneo e dos mortos, e Zeus foi glorificado no monte Olimpo, com a missão de governar a vida sobre a terra. Mas, para registrar tamanha façanha histórica, era preciso cantá-la para sempre e por todas as partes. Quem o faria?
Zeus, então, pensou que deveria engendrar os seres que iriam celebrar a nova era através dos tempos. Compreendeu que para tão importante missão deveria invocar a titânia Memória (Mnemósime), que vivia solitária nos montes da Piéria. Ele sabia que o que fosse gerado no seio da Memória jamais seria esquecido.
Por nove dias e noites Zeus e a imortal Memória permaneceram unidos no mais ardoroso abraço. E ao cabo de alguns meses, nasceram nove irmãs idênticas na beleza, na harmonia e na missão que as aguardava: nasceram as Musas.
Existem muitas divergências quanto ao nascimento das Musas, mas a mais aceita é a de Hesíodo (sec. VIII aC), que fala da existência das nove Musas e inclusive lhes cita os nomes. Considero que todas as alegorias míticas que contam a história das Musas são admiráveis na sua concepção de como surgiram os poderes criativos da mente. Numa versão mais primitiva, por exemplo, elas eram Ninfas que viviam nas montanhas, nas margens dos rios, nas fontes. Eram seres profundamente ligados à natureza e tinham a propriedade de conceder àqueles que se aproximavam delas os dons proféticos, a inspiração poética, o talento musical. Só numa elaboração mais tardia é que foram elevadas a divindades.
Quando Hesíodo as representa citando seus nomes, ele tenta individualizá-las, especificando seus dons. Assim, a Musa Clio, que significa “glória e reputação” seria a inspiradora dos heróis; Euterpe, que significa “deleite”, preside a música; Tália, “a que sempre floresce”, personifica o teatro cômico; Melpôneme, “a que diz e canta” coisas dignas de serem lembradas passou a personificar o teatro trágico; Terpsícore, simboliza o “prazer” e ensina a dança; Érato, “aquela que ama”, preside a poesia lírica e erótica; Polímnia, “a de muitos hinos”, inspira a oratória e o canto; Urânia, a “celeste”, preside o estudo dos astros e as ciências em geral; e Calíope, “a de voz mais bela”, é a mais sábia dentre as Musas e é representada com um diadema de ouro sobre a cabeça.
O mais importante para nós é que as Musas nasceram com a missão de inspirar os mortais a produzir suas obras artísticas e fatos heróicos que os destacavam de seu meio e de seu tempo. Homero, Hesíodo, a poetisa Safo, Píndaro, Platão, muitos foram os que as veneraram e buscaram sua inspiração para criar as obras que os tornariam famosos. É interessante perceber que os antigos consideravam todas as artes derivadas da música.
Etimologicamente, a palavra música deriva do grego “mousike’ e é formado por “mousa”, que significa Musa. Em estudo feito sobre esse tema, Fabre D´Olivet observa que essa palavra traz ressonâncias etimológicas do egípcio e do celta e em ambas as fontes o significado é a transformação do estado letárgico para ativo de algo que está latente. Ele aponta para um princípio feminino de geração, formação e fecundação que as Musas ativam.
E nisto consiste propriamente sua natureza: a de dar a luz, tornar manifesto, fazer vir à tona algo já latente no espírito humano. Por isso a música possui intrinsecamente essa função de inspirar todas as artes, na medida em que possibilita à consciência expressar uma percepção latente, porém ainda indizível. Isso não explica o que é a música; apenas relança a questão para uma dimensão mais vasta.
Sobretudo, para o sentido da música hoje. Com raras e honrosas exceções, a música produzida hoje não é mais aquela inspirada pelos deuses. Será que as musas emudeceram...?
Mani Alvarez é Doutora em Filosofia da Educação e Diretora do Instituto Humanitatis – Campinas. Autora do livro “Psicologia Transpessoal: a ponte entre espiritualidade e ciência”. Site Oficial da Autora.
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