Sobre
a mentira como método pra se dizer a verdade
Rio
de Janeiro, 07.04.09 | Em certa pesquisa
internacional, dessas publicadas pela influente, respeitada
e odiada revista Veja, resultados apontavam para um
suposto fato, de que uma pessoa comum fala, em média,
30 mentiras por dia. O número assusta qualquer
um, é claro. Aí o que a gente faz? A gente
pega e relativiza a coisa: quem sabe digamos apenas
umas 15 mentiras por dia, ou, quem sabe, 10, ou 5. Ou
então não levamos em consideração
tal pesquisa. Mas... Como não considerar essas
pesquisas? Informações como esta nos levam,
em maior ou menor grau, a uma reflexão. Não
tem como fugir disso. Eu mesmo, penso agora em minha
relação com a mentira. Sei que menti muito
durante toda a minha infância. Menti bastante
também durante a adolescência. Talvez eu
possa mesmo ser um bom mentiroso. Ou um mentiroso com
um talento médio, pelo menos. Também andei
mentindo um pouco já adulto – e a palavra
adulto pra mim quase sempre traz aspas implícitas.
De uns tempos pra cá, entretanto, resolvi falar
só a verdade – o que para os pesquisadores
em questão deve ser algo, dirão, impossível.
No entanto, garanto que fui muito verdadeiro nos últimos
anos. Tentei, ao menos. E, comparando-me com outras
épocas, eu tenho certeza de que menti bem pouco
(segundo os pesquisadores, poucas vezes a cada dia).
E nisso eu não sei se fiz a melhor opção.
Minhas verdades machucaram pessoas. Atraíram
a antipatia de pessoas que antes eram simpáticas
a mim. Falar a verdade é uma barra bem pesada.
Em alguns aspectos chego a me arrepender de ter sido
tão transparente. E de que adianta sermos transparentes
se dentro de nós o que há é merda?
Sim, isso mesmo. Refiro-me a todas as merdas que nossa
cultura nos enfia pelos olhos, ouvidos e boca durante
toda a nossa vida, desde que nascemos. Resultado: hoje
procuro usar filtros mais dinâmicos para as minhas
falas. Não tô a fim de sair por
aí ofendendo pessoas com verdades, até
mesmo porque são “apenas” as minhas
verdades. Nossos pontos de vista são meros pontos
de vista. Nossa visão é desgraçadamente
rasteira. No entanto também não podemos
– e nem devemos – abandonar de vez toda
e qualquer verdade pessoal construída. Se assim
o fizéssemos, seríamos sinceros como bichos.
E, nada contra os bichos – pois sei que são
mais sábios que nós –, mas não
podemos mais, a essa altura do campeonato, ter a sinceridade
de um animal, num mundo tão impregnado de símbolos
como este que criamos. Temos nossas verdades, sim. E
estamos presos a elas e precisamos delas pra viver e
elas são nossas âncoras... Âncoras:
não flechas.
Sejamos cuidadosos
com nossas verdades, passando-as aos outros com certo
cuidado. É uma tarefa bem difícil, claro
que é. E eu bem sei.
Um bom filtro para
verdades é a mentira da arte. Quantas vezes os
artistas disseram as verdades que queriam dizer usando
de artifícios enganosos, que são os diversos
tipos de signos artísticos? Um quadro que não
revela abertamente a intenção do pintor;
uma canção que não diz diretamente
o que quer dizer; um romance; um conto; um poema; tudo
isso pode estar ocultando verdades. Ou melhor, filtrando-as.
As leis da física são o que de mais próximo
se tem da “verdade”. E a arte, por sua vez,
é o que mais se assemelha à mentira. É
o artifício, é o jeitinho dos homens e
mulheres para enganar seus próprios sentidos
em prol de uma coisa que só nós, humanos,
almejamos: o bem estar estético. Procuramos a
boa música, a boa literatura, enfim, a boa arte,
pelo simples motivo de que nos falta a boa vida. Falta-nos
a verdade suprema. Falta-nos a plenitude tão
querida pelos antigos gregos. Não somos plenos
em alegria e nem em verdade. Somos frustrados nestes
quesitos. Talvez os próprios gregos tenham pretendido
tapar esses buracos com a grandiosa arte que empreenderam.
Talvez eles soubessem, já, muito bem que nos
falta essa tão ausente boa vida.
Quando escrevo um
poema eu sou o homem mais verdadeiro do mundo, e também
o mais mentiroso. Talvez a maior parte da literatura
universal gire em torno de uma abstração:
o amor. A frase “eu te amo” é um
signo. Ela que dizer um monte de coisa. Ela pode estar
dizendo um monte de coisas ao mesmo tempo. Ela pode
estar escondendo outras. Ela pode estar dizendo nada.
É uma das frases mais belas criadas pela cultura
humana e está presente em todos os idiomas. E
não é uma frase plena de verdade ou, ao
menos, de significado claro, como por exemplo “eu
estou com fome” ou “eu estou com tesão”.
Contudo é, sim, bela. Ela pode ser doce ou amarga
– tudo vai depender da ocasião, do falante
e do ouvinte. “Eu te amo” é uma frase
impressionante. Como alguém poderia estar sendo
absolutamente sincero ao dizer algo tão poderosamente
carregado de simbologia? Parafraseando um grande letrista
do rock brasileiro, Cazuza: “amor é uma
mentira que a nossa vaidade quer”. Ou ainda: “mentiras
sinceras nos interessam”.
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*LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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