O
Bertolucci que me faltava
Eu, cinéfilo
de meia-tigela, não conhecia La Luna
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Foi há
muito tempo – há muito tempo mesmo –
numa sessão das oito no extinto Cine Guanabara
que estava eu, acompanhado de um amigo e sua família
católica, num cinema completamente lotado para
assistir a Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli.
Contando há quem não acredite. Depois
de passarem o saudoso programa Canal 100, com os jogos
de futebol magistralmente registrados em película,
vieram os traillers, que, para espanto geral,
não eram, naquela noite em especial, muito ortodoxos,
ou seja, não eram muito católicos –
entre a meia dúzia de filmes anunciados antes
da atração da noite, havia pelo menos
3 deles com cenas de sexo. Uma cena com um casal fazendo
amor na praia com seus corpos na penumbra, outra com
um casal nu, agarrado, rolando na grama, outra com um
bacanal num saveiro e um rapaz se masturbando freneticamente.
Um dos filmes eu me lembro do nome: O Sol dos Amantes,
do qual nunca mais ouvi falar. Bem. O pai católico
à minha esquerda tapava os olhos da filha de
8 anos. Os adolescentes nas fileiras de trás
assoviavam de forma entusiasmada. Não é
sonho. Isso aconteceu mesmo. E estávamos ainda
na ditadura militar, saibam. Só que o Cine Guanabara
era um tipo de território livre, anacronicamente
às avessas. À beira da falência,
aceitava menores pagantes para assistir a pornochanchadas.
Eu mesmo fui um deles, sempre na esperança –
e quase sempre na certeza – de poder entrar pra
ver filmes proibidos para menores. Mas o caso dos traillers na sessão de Jesus de Nazaré foi mesmo
o cúmulo da falta de organização
e de vergonha.
Quanto às
famílias católicas, ao zeloso pai a tapar
os olhos da filha, eu fico imaginando o que sentiriam
se assistissem La Luna, de Bernardo
Bertolucci. Eu não sabia, La Luna foi
exibido nesta mesma época naquele cinema. Outro
dia uma amiga me falou sobre o filme, que assistiu naquela
sala e gostou muito. Me surpreendeu que ela tivesse
mesmo gostado do filme, já que, embora eu ainda
não o conhecesse, sabia se tratar de um filme
com uma trama que envolvia o assunto incesto. Um detalhe
importante é que minha amiga é evangélica.
Isso poderia fazer pensar que ela atiraria pedras no
filme. Mas, ao contrário, ela me descreveu o
filme como muito belo. Mas há um detalhe sobre
essa minha amiga. Ela é muito ligada a temas
psicológicos, leitora de Freud, Piaget e toda
sorte de livros de psicologia. Isso explica, em parte,
o fenômeno. Voltarei a falar sobre o filme com
ela, qualquer dia desses.
La Luna,
produção americana dirigida por Bernardo
Bertolucci, rodada em Roma, produzida em 1979, é
um filme que não poderia ter passado tão
despercebido como passou. Um moralismo da indústria
cinematográfica – ou do próprio
público, o que é mais provável
– pode explicar o fato dum filme brilhante como
este viver nesse ostracismo. Só no último
domingo tive a chance de assisti-lo em meu DVD. Era
o Bertolucci que faltava pra mim. O filme praticamente
não é citado em listas, por isso não
havia gerado meu interesse – eu, um pequeno fã
da obra do grande diretor italiano vivo. Como eu pude
não ter visto La Luna antes? É assim mesmo.
Há também filmes do Wood Allen os quais
ainda não vi. Até o emblemático Persona, de Ingmar Bergman, só
fui assistir há poucas semanas, veja só.
Não é
a primeira vez que escrevo sobre Bertolucci e sexo para
este site. Quando se pensa nesses temas associados,
logo nos vêm à mente Último
Tango em Paris, Beleza Roubada, e Os Sonhadores.
Assistindo a esses 3 filmes temos a nítida impressão
de que poucos cineastas falam de sexo com tanta contundência.
Mas é importante evidenciar que o sexo não
é tudo nesses filmes, e sim parte inseparável
de um todo, como é a vida. De qualquer forma,
para Bertolucci são preferíveis estórias
que envolvam famílias atípicas. E para
minha surpresa, o último limite da atipicidade
eu viria encontrar, tardiamente, no filme La Luna. Com
uma atuação hipnótica da, infelizmente,
quase desconhecida atriz Jill Clayburgh,
La Luna conta a estória de Caterina, uma mulher
que vive intensamente uma relação de afeto
(amor, ódio, busca de auto conhecimento) com
seu único filho. Joe, o belo rapazinho de dentes
irregulares, o menino de cidadania americana, não
sabe que é filho adotivo por parte de pai, assim
com não sabe que é italiano, e filho de
um italiano. Com a morte do infeliz pai americano –
é impressionante a cena do enterro –, mãe
e filho viajam para a Itália onde buscam reencontrar
o rumo das suas vidas. Respeitada cantora de ópera,
Caterina vê diante da nova vida um vigor esquecido.
Aprimora seu canto, intensificando-o, e sendo cada vez
mais reconhecida por seu talento. Tenta reaproximar-se
afetivamente do filho – algo que houvera negligenciado
em sua infeliz vida na América. Nesta busca pelo
entendimento do (e com o) filho, descobre que ele está
viciado em heroína. Então abandona a música
– ofício no qual depositara toda sua paixão
– para dedicar-se ao confuso e dependente rapaz.
No entanto, a não menos confusa e dependente
mãe, com essa intensa aproximação,
deixa aflorar em si sentimentos em relação
ao filho que personificam o mais rígido dos tabus
sexuais, numa montanha russa de sentimentos, que falam
de culpa e desejo, de interação entre
presente e passado. Talvez falem de um passado mal resolvido
à costa do Mediterrâneo.
Sim, perturbador
e cheio de humanidade, La Luna é, sem dúvida,
o mais chocante filme de Bertolucci. E certamente um
dos mais chocantes filmes já produzidos. Um prato
cheio, uma refeição completa para os freudianos,
e indigesta para os puritanos. O que diria o papai à
sua filhinha diante de algumas cenas do filme? O que
diriam aos seus filhinhos as cuidadosas mães
que jamais pararam para pensar no assunto. Que assunto?
O fio, tenso ou frouxo, porém irrompível,
que liga mães e filhos, do nascimento até
sempre. A frágil fronteira entre os sentimentos
que regem o nosso estar social e sexual, orientando
nosso comportamento regulado por mecanismos morais de
defesa. A proximidade entre libido e afeto. De fato.
Não sejamos radicais. Este não é
mesmo um filme para se assistir em família, depois
da novela. Ele não deve, na verdade, ser assistido
por qualquer pessoa. Seu público é específico.
A intensa viagem psicológica de La Luna, me faz
agora ver o eterno Último Tango em Paris como
um mero passeio sensual – e olha que estou falando
deste que é um clássico indiscutível
do cinema erótico.
E ainda há
tempo para outros temas em La Luna. A música,
por exemplo, é de uma força impressionante
no filme. Em alguns momentos ela é algo orgânico
para a trama, como a seqüência da chegada
do piano, ou como na emocionante cena final. Os bastidores
da ópera ocupam também lugar de destaque,
em cenas especialmente atraentes – poucos filmes
não-musicais tiveram sets de ópera tão
bem cuidados. Toda a relação da personagem
central com sua própria voz é de uma emocionante
musicalidade. Até mesmo quando grita, Clayburgh
é musical. O contraste de culturas também
é tocado pelo filme. O rapaz americano, com seus
tênis All Star, é mostrado como um corpo
estranho nas ruas de Roma. Sofre com a solidão.
E como se sentem solitários Caterina e Joe...
Com roteiro original
do próprio Bertolucci (toda e estrutura e construção
dos personagens pode fazer-nos pensar que se trate de
um roteiro adaptado), e a bela, e em muitos momentos
inventiva, fotografia de Vittorio Storaro, este é
o filme que salvou meu domingo de pré-verão.
Apesar do tema espinhoso e enfumaçado, o filme
é, na verdade, um domingo. Um domingo de sol
ao Mar Mediterrâneo.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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