RECAPITULANDO
OS BAIANOS
DVD Outros (doces)
Bárbaros foi além do saudosismo
Certo dia, faz
algumas décadas, Jorge Mautner disse a Caetano
Veloso: “Jesus Cristo foi o verdadeiro bárbaro,
pois com sua paz destruiu o império romano, como
um doce bárbaro”. Caetano gostou da explanação
e, inspirado nas palavras de Mautner, batizou o grupo
reunido em 1976, com Gilberto Gil, Gal Costa, e Maria
Bethânia – que foi quem havia feito o convite
aos amigos – de Doces Bárbaros.
Na ocasião,
boa parte da imprensa comparava a penetração
de artistas baianos na capital carioca às invasões
bárbaras ao império romano do ocidente.
É por isso que há na canção “Os mais doces bárbaros”,
composta por Caetano, o verso “doce bárbaro
Jesus”. O motivo da presença de tal verso
na letra só chegou ao conhecimento dos companheiros
baianos 30 anos depois da sacada de Caetano e Mautner.
Com esta revelação do compositor, foi
unânime o coro dos amigos: “eu não
sabia disso”, ao ouvirem Caetano a explicar como
o nome Jesus foi parar naquela letra. E, como um mentor,
que todos sabemos que, de fato, é, ele acrescentou,
dizendo a eles: “as coisas são profundas”.
Haja licença
poética. É claro que não foi Jesus
quem destruiu o império romano. Assim como o
termo “invasões bárbaras”,
para se referir à entrada gradual dos povos germânicos
nos domínios romanos já começa
a ser substituída pela expressão “migrações
germânicas”.
História
universal à parte, é de se lamentar que
o grande DVD Outros (doces) Bárbaros – na verdade um filme rodado em dezembro
de 2002 com direção do cineasta Andrucha
Waddington – tenha tido tão pequena repercussão.
Ali está um dos mais belos reencontros já
registrados na musicografia brasileira. O filme mescla
ensaios, bastidores, entrevistas e apresentações
ao vivo realizadas no Parque do Ibirapuera e na Praia
de Copacabana.
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Apesar do clima
saudosista, os baianos (bárbaros) estavam durante
as gravações, sem dúvida, vivendo
um momento especialíssimo de suas carreiras naquele
começo de século 21. Difícil destacar
um momento especial de um filme tão grandioso.
Gil encantou a todos com sua composição
inédita “Outros bárbaros”,
que fica mesmo sendo a canção central
do projeto, pelo fato de ser ela uma síntese
da celebração do encontro de 1976, época
em que os quatro jovens artistas gravaram o disco em
que fingiram ser um novo grupo – mais ou menos
como fizeram os Tribalistas recentemente.
“Outros bárbaros” é um dos
mais belos sambas da carreira de Gil e é carregada
de referências importantes para o quarteto. Uma
pena não ter conseguido alcançar popularidade
– nesses tempos as grandes canções
não têm mesmo muita vez, ainda mais em
se tratando de um “samba-marcha”.
Estão ainda
no DVD “Fé cega, faca amolada”, de
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; “Um índio”
e “Eu te amo”, de Caetano; e a maravilhosa,
porém pouco conhecida, “O seu amor”,
de Gil.
Hoje, em 2008, o
DVD vale, com certeza, muito mais do que custa, pois
sei que se pode encontrá-lo em bancas de promoção
de grandes lojas a preço de banana. Se ele passou
despercebido por você, e se, como eu, gosta dos
baianos, vá logo fazer essa reparação.
Mas, por favor, não vá comprar, por engano,
um dos “Novos Baianos” – que, claro, também é algo muito
bom.
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Sugestão para um “test-drive”
na Internet: baixe as canções “O
seu amor” e “Outros bárbaros”.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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