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» RIO DE JANEIRO, 27 de agosto DE 2008

RECAPITULANDO OS BAIANOS
DVD Outros (doces) Bárbaros foi além do saudosismo

Certo dia, faz algumas décadas, Jorge Mautner disse a Caetano Veloso: “Jesus Cristo foi o verdadeiro bárbaro, pois com sua paz destruiu o império romano, como um doce bárbaro”. Caetano gostou da explanação e, inspirado nas palavras de Mautner, batizou o grupo reunido em 1976, com Gilberto Gil, Gal Costa, e Maria Bethânia – que foi quem havia feito o convite aos amigos – de Doces Bárbaros.

Na ocasião, boa parte da imprensa comparava a penetração de artistas baianos na capital carioca às invasões bárbaras ao império romano do ocidente. É por isso que há na canção “Os mais doces bárbaros”, composta por Caetano, o verso “doce bárbaro Jesus”. O motivo da presença de tal verso na letra só chegou ao conhecimento dos companheiros baianos 30 anos depois da sacada de Caetano e Mautner. Com esta revelação do compositor, foi unânime o coro dos amigos: “eu não sabia disso”, ao ouvirem Caetano a explicar como o nome Jesus foi parar naquela letra. E, como um mentor, que todos sabemos que, de fato, é, ele acrescentou, dizendo a eles: “as coisas são profundas”.

Haja licença poética. É claro que não foi Jesus quem destruiu o império romano. Assim como o termo “invasões bárbaras”, para se referir à entrada gradual dos povos germânicos nos domínios romanos já começa a ser substituída pela expressão “migrações germânicas”.

História universal à parte, é de se lamentar que o grande DVD Outros (doces) Bárbaros – na verdade um filme rodado em dezembro de 2002 com direção do cineasta Andrucha Waddington – tenha tido tão pequena repercussão. Ali está um dos mais belos reencontros já registrados na musicografia brasileira. O filme mescla ensaios, bastidores, entrevistas e apresentações ao vivo realizadas no Parque do Ibirapuera e na Praia de Copacabana.

Apesar do clima saudosista, os baianos (bárbaros) estavam durante as gravações, sem dúvida, vivendo um momento especialíssimo de suas carreiras naquele começo de século 21. Difícil destacar um momento especial de um filme tão grandioso. Gil encantou a todos com sua composição inédita “Outros bárbaros”, que fica mesmo sendo a canção central do projeto, pelo fato de ser ela uma síntese da celebração do encontro de 1976, época em que os quatro jovens artistas gravaram o disco em que fingiram ser um novo grupo – mais ou menos como fizeram os Tribalistas recentemente. “Outros bárbaros” é um dos mais belos sambas da carreira de Gil e é carregada de referências importantes para o quarteto. Uma pena não ter conseguido alcançar popularidade – nesses tempos as grandes canções não têm mesmo muita vez, ainda mais em se tratando de um “samba-marcha”.

Estão ainda no DVD “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; “Um índio” e “Eu te amo”, de Caetano; e a maravilhosa, porém pouco conhecida, “O seu amor”, de Gil.

Hoje, em 2008, o DVD vale, com certeza, muito mais do que custa, pois sei que se pode encontrá-lo em bancas de promoção de grandes lojas a preço de banana. Se ele passou despercebido por você, e se, como eu, gosta dos baianos, vá logo fazer essa reparação. Mas, por favor, não vá comprar, por engano, um dos “Novos Baianos” – que, claro, também é algo muito bom.

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Sugestão para um “test-drive” na Internet: baixe as canções “O seu amor” e “Outros bárbaros”.

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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