O PARADOXO DA DISCOTECA ÚNICA
Que cantor você levaria para uma ilha deserta?
Propus a uns amigos que eles hipotetisassem algo absurdo. Pedi a cada um deles que se imaginasse como náufrago solitário numa ilha deserta. Com apenas a roupa do corpo e um aparelho de Mp3 de 8 gigabytes – acompanhado ainda de um carregador manual – contendo toda a coleção de discos de um único artista. E fiz a seguinte pergunta: qual cantor (cantora, banda etc, enfim...) você gostaria que estivesse no Mp3 de 8 gigabytes acompanhado de um carregador manual? E eu sei que há carregadores à manivela para celular, devendo haver também para outros aparelhos de pequeno porte. É que na ilha deserta, como todos sabemos, não há energia elétrica. Não em tomadas.
O primeiro a se manifestar tinha em torno de 22 anos e disse, pra minha surpresa, Engenheiros do Hawaii. Bem. Hawaai... ilha deserta... há mesmo alguma relação. Eu ouvia muito essa banda nos idos de 1987, e até hoje amo algumas coisas deles. Eu perguntei a ele quantos discos os Engenheiros têm. Ele respondeu: 13. Pensei: são poucos discos pra ouvir por uma vida inteira cercado de coqueiros, mar, e, numa melhor hipótese, esquilos e sagüis. Um outro amigo respondeu Legião. Fãs de Legião Urbana normalmente falam apenas “Legião”. Embora eu, que sou fã, diga Legião Urbana. E eu até que poderia levar os discos do (ou da) Legião Urbana, contudo esbarraria no mesmo problema: não são muitos discos. A possibilidade de enjoar de ouvir é maior quando a coleção é pequena. Outro amigo respondeu Djavan. Uma moça linda disse também Djavan. Uma outra amiga, também bem bonita, respondeu, igualmente, Djavan. Então o placar era Djavan, disparado na frente, com 3, versus Engenheiros e Legião empatados com 1. A conversa tomou maiores proporções e eu ainda não tinha falado o meu. Eu estava em dúvida entre Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano. Não demorei a optar por Caetano: uma obra bastante diversificada em estilos e um bom número de discos lançados – pelo menos o triplo do Legião Urbana. Logo o papo saiu da música e enveredou para pessoas. A pergunta passara a ser: quem você levaria contigo para uma ilha deserta. Mais clichê impossível.
Em relação às escolhas, uma coisa pareceu clara ao observar um aspecto delas. Ninguém escolheu um nome da música internacional. Nem Beatles, nem Iron Maiden, nem Madonna. Isso, obviamente, se dá pelo fato de que alguém cantando em português seria uma melhor companhia, alguém com quem se pudesse, de certa forma, dialogar. Pois embora a música seja uma “linguagem universal”, abrir mão de uma companhia que fale a nossa língua em prol de alguém que não compreendemos, não é mesmo algo natural. Então, meu ímpeto de filosofia barata me compele a criar um aforismo: “pra tocar na festa do céu o sapo tem que cantar na língua de Deus”. Mas que bobagem.
Pensei em algo. E se, em vez de Mp3, fosse um violão?
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*Luciano Fortunato é músico e web-escritor.
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