A
pós-modernidade chega às telas
Blade Runner –
Caçador de Andróides inaugura,
nos anos oitenta, o cinema pós-moderno americano

Em 1982, ano
em que Blade Runner foi lançado
em nossos cinemas, eu estava tão envolvido com
o estudo do sexo oposto que nem tomei conhecimento do
filme. Com 12 anos de idade, Sessão da Tarde,
filmes de terror e revistas de sacanagem me interessavam
muito mais que qualquer estética cinematográfica
revolucionária. Então, só muitos
anos depois, numa reapresentação, é
que fui, já na condição de cinéfilo,
assistir a Caçador de Andróides na telona. E o que senti naquela poltrona do velho cinema
é indescritível.
A primeira cena
do filme já é acachapante: uma torre cuspindo
fogo no céu escuro de uma cidade fria, caótica
e futurista, com a bela, forte e perturbadora música
de Vangelis ao fundo. Ao fundo nada:
a música do grego Vangelis, que está em
todo o filme, aparece muitas vezes em “primeiro
plano”, transcendendo à cena em si. A cidade
de Los Angeles do futuro, com seus prédios piramidais,
seus veículos voadores, feita em maquetes, soa
mais real que estas animações feitas com
uso de computação gráfica de hoje
em dia – uma maquete é tridimensional naturalmente
e sua presença física é um fato,
diferentemente de alguns efeitos cansativos de computador,
que quase nunca conseguem um realismo convincente.
Falar da estética
de Blade Runner – Caçador de Andróides é pôr lenha em um tema que serve a várias
teses, dado o tamanho da riqueza visual e sonora exposta
naquele trabalho. Contudo, som e imagem é pouco.
Tudo em Blade Runner serve como material de estudo.
O filme propõe um estudo sobre a contraluz na
fotografia de cinema. Se quisermos uma síntese
do cinema noir, ali está. Se quisermos
um estudo sobre a presença do anti-herói
no cinema; se o caso for estudar a possibilidade do
estabelecimento do caos nas sociedades do futuro; ou
a revolução das máquinas –
como só no primeiro Matrix se fez algo de bom
nível – ; se o assunto for a própria pós-modernidade; se pretende-se fazer
um estudo sobre a morte e a imortalidade, o que, pra
mim, são os temas centrais do filme...
Enfim, Blade Runner é um “filme-estudo”.
O autor da estória
de Caçador de Andróides é o falecido
escritor Phillip K. Dick, criador também
das narrativas filmadas em Total Recall, de
Paul Verhoeven, e em Minority Report, de Steven
Spielberg. Mas o pioneiro em filmar Phillip Dick foi
mesmo o irregular cineasta Ridley Scott,
que tem em seu currículo um outro marco da ficção-científica,
que é Alien, o Oitavo Passageiro, além
do mega-sucesso Gladiador. Contudo, é
indiscutível que o ponto alto de Ridley Scott
foi mesmo Blade Runner. Foi naquele momento que o criativo,
produtivo e injustiçado autor de ficção-científica,
Dick, foi revelado ao mundo em sua primeira e mais contundente
adaptação para o cinema, através
da lente caótica de Scott.
A trama de Blade
Runner não é complexa, ao contrário
do que alguns pensaram. Um “caçador de
andróides” é contratado para encontrar
e exterminar um grupo de replicantes (como são
chamados os andróides do filme) que fugiram de
uma colônia, numa rebelião. Em sua caçada,
ele, o detetive Deckard – vivido por Harison Ford
–, faz uma imersão na L.A. abandonada,
úmida e marginal do futuro. Num futuro em que
só as classes menos favorecidas habitam a Terra.
As pessoas com poder aquisitivo iriam morar em marte.
No percurso, apaixona-se pela replicante Rachel (Sean
Young). O tema composto para o casal é uma das
mais lindas e inebriantes músicas de amor compostas
para cinema, com uma delicada melodia feita no saxofone
– hoje o tema é tocado em propagandas de
motel. O sax da canção faz um bom contraponto
com o resto de toda a trilha do filme, que tem bases
predominantemente eletrônicas. Aliás, o
contraste é a tônica de toda a obra. O
contraste relativizando bem e mal é um exemplo
disso: os vilões do filme – no caso os
andróides – parecem mais humanos que as
pessoas de verdade.
Estava em Blade
Runner a materialização da chegada da
pós-modernidade ao cinema americano, onde –
ao contrário do que se propunha com aquela “Era
Reagan”, com os seus “Rambos” –
o maniqueísmo foi descartado sem receios, primando-se
o questionamento.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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