O
dia em que uma cidade sorriu diante da morte
Foi no município
de Mendes, mas poderia ter sido em qualquer
pacata cidade do nosso sul-fluminense.
Mendes sorriu. Três
rapazes mortos eletrocutados. Seus corpos carbonizados,
e, diante do quadro, uma platéia a comemorar
a morte deles. Fotos espalhadas por toda a cidade. A
tragédia transformada em espetáculo. Parece
que nossos pacatos moradores não são muito
diferentes dos de qualquer metrópole: são
também insensíveis e cruéis.
Vivemos em um país
dito cristão. Todo cristão deve conhecer
a passagem bíblica em que Jesus proclama “...aquele
que não tiver pecado que atire então a
primeira pedra”. No entanto, a multidão
de “santos” sentiu-se no direito de rir
da desgraça alheia. Como se todos nós
vivêssemos rigorosamente dentro da lei. Eu pergunto:
quem nunca comprou um CD pirata ou outro produto ilegal?
Quem nunca se apropriou de absolutamente nada que não
era seu? Quem nunca praticou sonegação
fiscal? Quem de nós exige nota fiscal por um
cafezinho ou um drops? E é bom que se
saiba que quando deixamos de pedir uma simples nota
fiscal – e nossos estudantes nem sabem o que é
isto –, estamos desviando dinheiro que poderia
estar indo para a saúde e para a educação,
por exemplo.
Pois bem. Num sistema
falho e corrompido – do qual somos coadjuvantes
– ainda temos que conviver com a hipocrisia de
parte da população que se considera gente
100% honesta, e que acha mesmo que a morte dos rapazes
foi justa e oportuna. Alguns chegaram a lamentar o fato
de um deles ter sobrevivido. Foram cabos elétricos.
Mas se eles tivessem sido assassinados por uma milícia
paramilitar – como essas que há nas favelas
do Rio – o povo mendense não estaria menos
satisfeito. Não me refiro a todo cidadão
mendense, obviamente.
Aqueles jovens não
nasceram ladrões. Não nasceram delinqüentes.
E não tiveram tempo de se redimir. E, minha gente,
isso não é engraçado. Não
é satisfatório. Nenhuma morte pode ser
considerada satisfatória. Se nossos adultos e
anciãos fossem mais eficientes e justos (e não
me refiro aos pais deles, e sim a toda nossa sociedade),
casos como este poderiam ser evitados. Países
com alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
– como Canadá e Finlândia –
possuem baixíssimo índice de criminalidade.
Praticamente não há roubos e furtos nas
cidades finlandesas. Quanto a nós? Não
temos educação de qualidade, não
temos capacitação profissional, não
temos empregos disponíveis, não temos
distribuição de terra e renda: somos uma
sociedade falida em todos os sentidos. Então
resolvemos nossa angústia diante desta impotência
como cidadãos, comemorando a morte de três
rapazes pobres que tentavam furtar cabos. Estamos de
parabéns.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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