A
MULHER QUE DIZ SIM
Vanessa da Mata canta
e escreve femininamente
Fotos: divulgação
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“Sim” é o título do novo disco de Vanessa da
Mata, cantora que cantou como ninguém a visão
do romantismo feminino na música “Ai, ai,
ai”, do seu trabalho anterior. Agora, com este “Sim”, ela nos apresenta
um álbum 100% autoral – coisa rara entre
cantoras brasileiras. Todas as canções
são de autoria dela. A moça está
com tudo: parte do Cd foi gravada na Jamaica; há
a participação especialíssima de
Ben Harper, que surpreendeu e encantou a todos (um paralelo
para tal feito seria a participação de
Stevie Wonder no álbum “Luz” de Djavan,
em 1982); tem ainda as participações de
João Donato, Wilson das Neves – o baterista
preferido de Chico Buarque –, Davi Moraes, Kassin,
e uma turma de gringos que sabem o que estão
fazendo.
O regae se sobressai em “Sim”.
Não seria descabido colocá-lo na sessão
de regae de uma loja de discos. Tudo nele é muito
rítmico, mas Vanessa vai muito além disso.
Ela vai no samba, vai na balada-pop, vai no eletrônico,
mas tudo sem que seu trabalho – que é MPB,
obviamente – perca a unidade estética sonora
e conceitual: a linha romântica que permeia todas
as gravações. O ritmo jamaicano é
central no disco, é verdade – apesar da
salada de estilos. Mas a tal unidade é reforçada
pelas letras da compositora. Vanessa faz aqui uma crônica
de relacionamentos amorosos: das 13 canções,
apenas a faixa “Absurdo” não
fala de amor. No mais, todas as músicas abordam
a experiência homem-mulher. Hora com um tom de
paixão, hora desilusão. Suas letras simples
e poderosas podem se encaixar facilmente no cotidiano,
pois são muito diretas e objetivas – sem
deixar de lado uma refinada poesia. Elas me fazem lembrar
as melhores canções do Roberto nos anos
70, pela facilidade em se poder encaixá-las no
dia-a-dia de qualquer mulher ou casal, como retratos
da vida real. Isso se dá, milagrosamente,
sem soar brega. Bom lembrar que tudo o que ela escreveu
para “Sim” é essencialmente
feminino, com o que há de mais bacana
em uma ótica feminina para abordar com arte temas
do cotidiano de uma mulher: com delicadeza.

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Se Vanessa da Mata
continuar compondo e cantando desse jeito – é
uma das mais belas vozes dos últimos dez anos
–, ela vai acabar se tornando a grande cantora-compositora
pela qual a música brasileira tanto vem clamando
há um bom tempo. Potencial para agradar de montão,
ela tem. Agora só falta o mercado retribuir o
sim.
“Sim”,
faixa por faixa:
1. “Vermelho” é um “regão” rasgado, extraordinariamente
bem registrado.
2. “Fugiu
com a novela” – samba com
características tropicalistas, salientadas pela
letra bem humorada e pela guitarra à la Mutantes
de Fernando Catatau.
3. “Baú” tem um ritmo estonteante e a letra é
uma das mais primorosas do disco.
4. “Boa
sorte” – é um hit por
excelência. Ben Harper dá brilho à
canção que já seria ótima.
Melodia e harmonia ultra-simples, dentro de um suingue
extraordinário, num arranjo impecável.
5. “Amado” vem como a primeira balada do Cd. Sons
delicados de vibrafone e teclados acompanham com leveza
a singela letra: “peço tanto a Deus
para esquecer/ mas só de pedir me lembro/ minha
linda flor/ meu jasmim será/ meus melhores beijos
serão seus...”.
6. O ritmo
de “Pirraça” é algo entre o regae, o ska e o forró.
Empolgante.
7. “Você
vai me destruir” lembra os melhores
momentos da disco music. Arranjo
impecável, com toques eletrônicos, e uma
letra que é um achado. Palavras de uma mulher
revoltada e angustiada diante de uma situação
amorosa difícil, que parece estar chegando ao
fim. O desempenho vocal de Vanessa é arrepiante
e ela mostra aqui sua grande voz.
8. “Absurdo” – regae com letra ecológica.
Destoa do resto do disco. Apesar de ecologicamente correta,
acaba cortando o clima romântico de todo o trabalho.
Mas não deixa de ser coerente, além de
bem gravada.
9. “Quem
vai nos proteger” é mais
uma balada interessante que me remete a Roberto Carlos.
10. “Ilegais” é outro regae. A letra é
deliciosamente sensual e fala de um amor proibido: “desse
jeito vão saber de nós dois/ e será
uma maldade veloz (...) eu só sei que eu quero
você pertinho de mim, dentro de mim, em cima de
mim...”.
11. Em “Quando um homem tem uma mangueira
no quintal”, Vanessa experimenta
o samba de breque, e com muito
sucesso.
12. “Meu
Deus” é sobre uma mulher
apaixonada a referir-se ao homem amado, que é
idealizado de forma desconcertante: “Meu Deus,
Ave Maria!/ se ele não é um dos Seus/
ninguém mais seria...”. Tudo em ritmo
de um bem cadenciado bolero. No arranjo, destaque para
a bateria de Wilson das Neves.
13. “Minha
herança: uma flor” fecha
a tampa do relicário da cantora. Apenas voz e
violão – que é delicadamente tocado
por ela –, terminam um dos melhores discos “femininos”
de música popular já gravados por uma
artista brasileira.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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