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Luciano Fortunato
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Tropicália vive
Nossos hippies são melhores que os deles?

Foto: Reprodução tela à óleo de Luciano Fortunato
Foto: Reprodução tela à óleo de Luciano Fortunato

Faz “mais ou menos” 40 anos do movimento tropicalista. Não sou exatamente o que se pode chamar de uma enciclopédia musical, e também não vivi os dias “tropicais” de Caetano, mas, ainda assim, o que vai aqui, por sugestão de Daniel Rodrigues, não chegará a ser desinformativo. Não tenho o poder de desconstruir algo tão emblemático. E nem quero. Acho até que se me perguntarem qual meu cantor preferido eu responderei: Caetano Veloso. Mas não me perguntem isso.

A cultura anda em círculos – como tudo. Assim são os movimentos culturais de maior ou menor relevância. Visto isso, penso: será que agora, nessas voltas que o mundo dá, é a vez de o primeiro mundo chupar da nossa fruta, da mesma forma que fizemos com eles no passado?

É que todos sabemos que os beatniks, as jaquetas de couro, o jeans, e, por fim, os hippies e os Beatles (todo esse caldeirão da Contracultura) influenciaram profundamente a música, a literatura, as artes e o comportamento de todo o mundo. Não se pode negar que toda a Tropicália foi fortemente influenciada pelos gringos. É simples: no âmbito musical, existiriam os Mutantes sem os Beatles? Não creio. Alguém crê?

Os anos 60 foram realmente os mais marcantes dos quais se tem notícia no tocante à cultura jovem. É muita coisa ao mesmo tempo: popularização da guitarra elétrica, da maconha, da pílula anticoncepcional, a revolta contra o super-poder dos pais – e essa revolta convertida em protestos contra tudo e todos. Como, por exemplo máximo, contra a Guerra do Vietnã. Esses protestos foram o grande laboratório para todo e qualquer movimento de protesto envolvendo a juventude até hoje. A Guerra do Vietnã gerou o embrião, que cresceu, se multiplicou e transmutou.

Nesta onda nasce o Tropicalismo. Mas reduzir o movimento ao nível de um protesto seria tolice. O Tropicalismo retomou o conceito de “antropofagismo cultural” da Semana de Arte Moderna de 1922, e acabou por preencher, dessa forma, uma grande lacuna de décadas praticamente sem vanguardas brasileiras – exceto o “Cinema Novo”.

No que diz respeito ao “hippismo”, podemos ressaltar algumas diferenças entre os nossos hippies e os de “lá” (primeiro precisamos concordar que, relativamente falando, o Tropicalismo está para o Brasil, assim como o movimento hippie está para Estados Unidos, Inglaterra e França nos anos 60). Enquanto a contracultura estrangeira ocupava-se bastante com coisas como misticismo oriental e astrologia – a expectativa para a vindoura “era de aquário”... – , os “nossos hippies tropicais” tinham uma postura mais irreverente. Aliás, ultra-irreverente. E essa irreverência apontava inclusive para o próprio umbigo nacional – é claro que a “coisa” com as “bananeiras” foi um grande deboche. Um “respeitoso deboche”.

Sobre a música que se fazia, enquanto os norte-americanos e ingleses insistiam com seu rock e folk-music locais, por aqui o buraco era mais embaixo: o Tropicalismo nutriu-se, sem preconceito, da música vinda de fora e, despudoradamente, vestiu nosso cancioneiro mais tradicional e ritmos regionais com esses tecidos importados. Mistura de ritmos, sons, imagem...  A “globalização cultural” chegara ao Brasil, mas vestida por nossos próprios alfaiates: Hélio Oiticica, Caetano Veloso, Rogério Duprat, Mutantes, Gilberto Gil, Tom Zé, Walter Franco, Torquato Neto...

Hoje, meio que timidamente, parece haver um movimento contrário. “Eles” começam a fazer seu próprio “tropicalismo”, nutrindo-se do nosso – e, importante, reverenciando-o. O que fizemos há 40 anos, importando tendências e as processando em nossos liquidificadores G.E. brasileiros, vários artistas estrangeiros começam a fazer agora. David Byrne, ex-lider da banda Talking Heads deu o pontapé inicial nos anos 80, em seu namoro com a música brasileira e a Tropicália, via Tom Zé. Depois foi a vez do surpreendente Beck. Depois o “filho pródigo” Sean Lennon foi também um simpatizante. E, por fim, o artista mais brasileiro da atualidade, Devendra Banhart – o tropicalista da vez.

Resumindo. O que Caetano e sua trupe já sabiam no fim dos anos 60 e início dos 70, os gringos parecem estar descobrindo hoje – que é bom ter uma refeição com alimentos multicoloridos. Incluindo banana nanica, obviamente.

Que façam bom proveito.

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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.

 

 
 
 
     
       
         
 
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