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» RIO DE JANEIRO, 22 de agosto DE 2007

Adultério à americana
Show de Kate Winslet em filme médio que merece ser visto

Foto: Reprodução

Meu editor está esperando até hoje um texto meu sobre um Dvd nacional. Sei que a safra de nacionais nas locadoras é muito boa, mas – não sei por que motivo – só vem filme americano na minha cabeça. Mas eu chego lá, e ele há de ter paciência com este ser colonizado culturalmente.

O que posso dizer sobre o filme Pecados Íntimos (Little Children) estrelado pela, cada vez melhor, atriz Kate Winslet, lançado há pouco? Numa palavra, o filme é regular. Sabem como é: umas três estrelinhas, no máximo, ou o bonequinho do mais popular jornal carioca sentado, assistindo sem aplaudir. Mas não seria melhor eu usar este espaço só para fazer crônicas sobre ótimos filmes? Não sei. Só sei que Pecados Íntimos, apesar de um tanto novelesco, não é desinteressante. O que tem nele? Tem uma das melhores – se não a melhor – atuação de Kate Winslet. Tem boas soluções estéticas. Tem tórridas, e ao mesmo tempo sutis e lindas, cenas de sexo. E tem – aí vai o xis da questão – o final mais desconcertantemente moralista do cinema americano desde Atração Fatal, de Adrian Line. O adultério, que é o tema de Pecados..., é um dos temas preferidos do cinema, como sabemos todos. Este assunto delicado e tão presente na vida humana – e até animal – foi magistralmente mostrado no recente Closer – Perto Demais, baseado em peça homônima de sucesso. Este sim um grande filme. A trama de Pecados... é até verossímil. Ainda que não empolgante, prende o expectador, mas me parece grossamente arrematada – não pela forma, mas pelo conteúdo.

A vida é doce. E doce é o sexo. E doce é a aventura da paixão. E sofrível é o conjunto de desejos não realizados de cada indivíduo desta nossa western civilization. Os cinco personagens que estão no centro do roteiro de Pecados Íntimos são, essencialmente, pessoas excepcionalmente frustradas. Mas nada que fuja do real – e disso não podemos reclamar do filme. São eles: o marido, advogado desempregado que não consegue ser aprovado no “exame de ordem”; sua esposa, a executiva aparentemente viciada em trabalho – e quase todo vício é escape para uma frustração; o outro marido bem sucedido profissionalmente, que se masturba diante do computador, apesar de ter uma bela esposa em casa (a qual só ele e ela própria não conseguem achar maravilhosa, já que estamos falando de Kate Winslet); a esposa em questão agora, entediada com a confortável vida de dona de casa e mãe relapsa, e com o pouco caso do marido; e, por fim, o homem que é posto em liberdade, após ter sido detido por atentado ao pudor – um homem com sérios problemas psíquicos, mas sem as características de um estuprador, apesar do estereótipo que o estigmatiza perante a sociedade local. Os cinco personagens mencionados têm algo mais em comum além de serem pessoas frustradas. Eles são um tanto inocentes. Um tanto quanto infantis, ingênuos. Há crianças no filme. Elas sempre aparecem. Mas é nos adultos pueris (alguns naturalmente sonhadores) que está o foco – daí o ótimo e adequado título original Little Children. Entretanto há algo incômodo na abordagem dada: o moralismo do final da trama – no que Iza Calbo disse que eu não devo jamais contar – , onde casamentos extremamente infelizes são mantidos (droga! contei o final). Há eventos que levam a esse desfecho, mas isso se dá também por conta dos filhos, como reza a tradição ocidental-judaico-cristã. E aqui não estou falando de casamentos mornos não – são casamentos verdadeiramente infelizes aqueles ali. Até um pastor protestante desaprovaria a manutenção daqueles casamentos. Mas o roteirista (ou escritor – não sei se o roteiro é original ou adaptado) preferiu assim. Fazer o que?

Mas, calma. Isso que fiz de falar sobre como tudo termina não é como contar o final do filme Sexto Sentido, ou de Os Outros. Eu disse pouco sobre a trama, e o que eu contei não vai comprometer sua apreciação.

Os psicólogos, sobretudo sexólogos, podem gostar muito do filme – gosto mesmo de indicar filmes pra psicólogos. Este Pecados Ìntimos pode ser um grande instrumento para estudo da sexualidade pós-moderna, incluindo aí a instituição família. E ver miss Winslet na telinha faz valer o aluguel do Dvd. Isso eu garanto.

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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