O
anti-elogio da marginalidade
A polêmica
“volta” de Lobão
Foto: Reprodução
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Será que Sérgio
Sampaio queria morrer como marginal? E o poeta Torquato
Neto? Um escolheu a rua. Outro, aos 28 anos, a morte.
Mas será que foram escolhas cuidadosamente planejadas?
Caetano Veloso fez seu inteligente trânsito entre
a marginalidade e o “status-quo artístico”
– onde fixou residência. Porém, este
o fez sem abandonar a inquietação e a
transgressão estilística, próprias
dos genuínos marginais.
Não vamos
tapar sol com peneira: Cartola e Robert Johnson foram
(são) geniais, mas suas clandestinidades marginais
lhes conferem o tom poético que alguns amantes
da pura arte mais prezam. A idéia do artista
excepcional, mas pobre e pouco valorizado por sua geração
estimula a imaginação. E esse fato lhes
deu acréscimo de valor. Não tenho dúvidas
quanto a isso.
Gilberto Gil passou
de marginal a ministro em pouco mais de trinta anos.
Será que isso desqualificou sua obra? Será
que isso fará do próximo disco de Gil
um trabalho medíocre?
Assim como o mundo
gira, é quase impossível ser eternamente
marginal – a menos que uma morte prematura cristalize
essa imagem. E até há artistas que buscaram
(e buscam) este congelamento maldito, que lhes confeririam
áurea de notáveis, revolucionários,
herméticos, profundos, cabeça, esses negócios.
Mas muitos artistas têm uma família pra
sustentar. E muitos – o que, inclusive, é
o mais natural – querem atrair a atenção
do maior número possível de admiradores.
O elogio e o aplauso são os motores da arte.
Às vezes o dinheiro também é. Os
grandes gênios da arte renascentista, por exemplo,
ganharam muito dinheiro da igreja pintando suas madonas.
Ninguém desqualifica sua arte por causa disso.
O meu assunto é
o Lobão. Ta legal? De novo. É. Eu estava
esperando sair o disco novo pra poder comentar. Ele,
o lobo, atendeu ao meu pedido: lendo o Crônicas
Cariocas, resolveu se apresentar no Faustão (leiam
a crônica “Lobão e Faustão”,
disponível na minha página deste site,
do dia 12 de fevereiro de 2007, onde eu o peço
para ir cantar no programa de auditório).
Eu e minha esposa
choramos – e nós somos assim: choramos
um bocado – quando ele cantou, naquele domingo,
antes que eu assistisse a decisão entre Flamengo
e Botafogo, “Vou te levar”, que está
registrada, originalmente, no excepcional álbum A Vida é Doce. “Vou te
levar”, me parece, é a música de
trabalho deste Lobão Acústico
MTV.
Vou assistir ao
DVD agora. Depois, nas próximas linhas, eu falo
mais.
(...)
Pronto. Terminei.
Vi e ouvi tudo. Vi making of. Ouvi algumas
canções duas vezes. Agora cigarro ao meu
lado. Computador na minha frente. E... Puta-que-pariu!
Que trabalho bom esse DVD! Eu deveria falar que teve
algo errado. Não posso me deixar levar pela emoção
de fã. Aliás, eu nem deveria dizer aqui
– e isso aqui é imprensa – que sou
um fã. Pega mal. Mas não vi pecado nesse acústico. Em primeiro lugar, é
acústico mesmo – sem aquelas esquisitices
eletrônicas que andaram colocando nos pseudo-acústicos
que têm por aí, como o do O Rappa (mas o do Rappa, apesar de ser
pseudo-acústico, eu achei muito bom). Em segundo
lugar, está muito bem gravado. No palco, um Lobão
sério (nem tão sério: haja vista
suas brincadeiras e histórias, que são
contadas nos intervalos entre algumas músicas
- aparece um ícone no canto da tela que
possibilita acessar essas falas) e consciente de que
está gravando sua primeira grande coletânea
ao vivo com possibilidades (ou a certeza) de uma grande
distribuição nacional. Não é
o primeiro disco ao vivo dele. Mas é especial.
É um acústico, e com o tratamento padrão
da MTV – que vem melhorando seu padrão
a cada lançamento. É um disco com os hits que fizeram Lobão conhecido do grande público
nos anos oitenta: “Me chama”, “Corações
Psicodélicos”, a bela e filosófica
“Revanche”, “Décadance avec
élégance”, “Canos silenciosos”,
“Rádio Blá” – está
tudo lá. E mais. Um disco com arranjos especialíssimos
para canções que quem não é
fã não deve conhecer: como a hipnótica
faixa de abertura “El desdichado II”; a
extraordinariamente sensível balada “Vou
te levar”; e a pesadíssima “A vida
é doce” – estas do disco homônimo A Vida é Doce, que pra muitos,
e para o próprio Lobão, é o seu
melhor trabalho. Trata-se de um CD independente em todos
os sentidos, que foi vendido apenas em bancas de jornal.
Paradoxalmente, seu grande disco não pertence
à década que o consagrou – foi gravado
no final da década de noventa. Não sei
se por capricho do cantor, estas três faixas,
mais a primorosa “A queda” (destaque do
disco Nostalgia da Modernidade), foram
as que receberam aqui os melhores arranjos acústicos
– ainda que densos – , além das interpretações
mais intensas e emocionadas do cantor.
Lobão até
já flertou com o samba e o choro. Mas este acústico
é um disco exclusivamente rock’n’roll.
É a essência de Lobão. É
o que ele vivenciou. É o jovem fã dos Beatles, músico de rock
progressivo, leitor de poesia beatnik,
agora com seus 49 anos, mais uma vez se manifestando,
vomitando com lirismo e poder suas origens. É
um dos fundadores do, talvez, mais consistente e agitado
movimento musical brasileiro: o rock dos anos oitenta.
Ou, como chamou Arthur Dapieve, BRock – expressão que Lobão despreza.
Neguinho às vezes torce o nariz pra esse rock
dos oitenta. O movimento não atraiu a atenção
internacional, nem da maioria dos intelectuais brasileiros,
como a Bossa Nova, mas teve mais representantes que
esta. Não foi breve como a Tropicália.
E foi algo não menos revolucionário no
contexto musical e comportamental que o movimento neo-hippie
comandado por Caetano. O Rock Brasil processou influências
diversas (exatamente como a Bossa Nova fez com o samba
e o jazz americano, e a Tropicália com
sua mistura de Beatles e raízes brasileiras).
Lobão e Lulu Santos, pelo pioneirismo, estão
para a música dos anos oitenta, assim como Gil
e Caetano estão para o Tropicalismo, e Tom Jobim
e João Gilberto para a Bossa Nova. E a música
que melhor representa a década de oitenta no
país é o nosso rock. Portanto não
haveria de se esperar que Lobão incorporasse
João Gilberto, só pelo fato de ter “banquinho
e violão” no lance. Eu diria, sem dúvida,
que Lobão Acústico MTV é um disco de rock. E pode até ser considerado,
se pensar bem, quase um disco de rock pesado. É
chumbo grosso na mediocridade que desfila por aí.
“Ah! Mas o
Lobão se vendeu!”, dizem. Que bom. Queria-se
o que? Que ele desse de graça. Lobão é
uma prostituta “prendada”, educada nas melhores
escolas de gueixa, portanto cara. Não achavam
que, com seu talento e sua história, ia fazer
ponto numa zona barata.
Quanto ao Faustão,
apesar de certo mau gosto que permeia seu programa,
posso dizer que o cara foi muito gentil e educado, agradecendo
a Lobão por sua presença em diversos momentos.
O lobo não foi tratado como bicho de circo. Bom
o programa não é, com aquele esqueminha
de dançarinas e tudo o mais. Mas é a TV.
E lugar de gente grande, de grandes artistas, é
na televisão, no rádio e nas gravadoras
com poder de distribuição – para
que, assim, entrem em evidência. Sinceramente,
acho que é motivo de alegria a sua saída
do underground por onde andava. Não
se decepcionem com sua pele de cordeiro: é um
maldito na mídia. Sei que o que vou dizer pode
soar contraditório: precisamos de mais malditos
com talento na grande mídia (maldito não
tem mídia, não é?). Mas gente com
talento e bom gosto, claro. Gente que prefira, sim,
o aplauso e o dinheiro, ao suicídio – este
que sempre teve muitos elogios no meio musical.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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