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» RIO DE JANEIRO, 4 DE MAIO DE 2007

Benito di Paula e A-ha
Talento e bom gosto não superaram o preconceito

Raramente – mas muito raramente mesmo – leio a revista Bizz. Mas li muito nos anos oitenta. Às vezes, hoje, leio os cadernos culturais dos melhores jornais, mas leio pouco. Nunca li a Rolling Stone ou a Billboard, pois meu inglês de ginasial não permite. A anunciada edição brasileira da primeira eu ainda não vi. Às vezes leio resenhas musicais na Internet. Meu negócio é mesmo pegar e ouvir. Vou dizer. Em todos esses anos vivi sempre uma sensação de estranheza pelo fato de nunca ninguém, nenhum crítico musical desses veículos, ter falado bem do grupo norueguês A-ha. Naquela época (me refiro aos anos oitenta) era Echo and The Bunnymen pra cá, The Smiths pra lá, New Order pra cá, The Cure pra lá, Jesus and Mary Chain pra cá, R.E.M. pra lá. Todos incensados pela crítica – esse pequeníssimo grupo de pessoas que lêem as publicações internacionais e ditam o que é bom e o que é ruim, a quem eu sempre respeitei, com desconfiança, mas respeitei . Depois, nos anos noventa era Rage Against the Machine, Nirvana, Belle and Sebastian, The Smashing Punpkins, Radiohead – todos muito bons, admito, cada um a seu estilo. Estes também muito elogiados Mas ninguém se dedicou a falar bem do A-ha, que gravou excelentes discos nas duas décadas em questão. Em 1986, irrepreensível álbum Scoundrel Days mostrava o potencial artístico do grupo. Em 1993, fez Memorial Beach, extraordinariamente bem gravado. E fechou a década, lançando em 2000 o magnífico Minor Earth Major Sky – sendo estes dois últimos trabalhos, inovadores, porém retumbantemente ignorados. São discos surpreendentes pra quem imagina que as músicas do grupo são todas iguais. E, apesar de uma separação e de uma volta, no que eu saiba – eu, que não participo de fã clube de ninguém – o grupo não acabou não, ta legal?

Vou então falar mais do A-ha. Nas minhas contas, o grupo gravou, de 1985 pra cá, oito “álbuns de carreira”. Seus grandes êxitos comerciais foram o álbum de estréia Hunting High And Low, de 1985, o já citado Scoundrel Days, de 1986, onde o grupo abandona a bateria eletrônica, e Stay on These Roads, de 1988. Sucessos radiofônicos e televisivos, uma penca. Com destaques para o primeiro sucesso “Take on Me” – onde a banda mostrou-se ao mundo, e ao que veio –  e para as belíssimas baladas “Hunting High and Low” e “Say on These Roads”. Mas há vários outros sucessos, que vira e mexe ouvimos nas salas de espera da vida. E, com certeza, ouvimos com prazer. E qualquer alma pura ouve com prazer. Só que o mainstream e sua a crítica especializada não são almas puras. E ai do crítico que elogiar o grupo nórdico! E ainda: qual crítico de caderno cultural, da alta classe média, vai admitir que gosta da mesma música que a sua empregada. Hoje eu já não tenho mais certeza, mas nos anos oitenta as empregadas domésticas adoravam as baladas do A-ha. Entretanto, quem pensa que eles só sabem fazer baladas melancólicas ou “tecnopop” está redondamente enganado – não parou pra ouvi-los.

E vou dizer: Morten Harket, vocalista do grupo, é a mais bela voz de toda a música pop, e fim de papo. E o engraçado é que compartilho dessa idéia com dois amigos meus. O caso é que os noruegueses foram tão massacrados que às vezes eu tenho que fazer uma auto-crítica pra ver se eu não estou maluco ou não sou o único a admitir isso – que Morten é o grande vocalista vivo. Sua voz é doce, seu agudo é incomparável, seus graves são sussurrados com cuidado, ninguém se compara a ele.

Outro dia vi que Chris Martin, vocalista do Coldplay disse ter o A-ha como sua principal influência. Aleluia. Viva Chris Martin! E viva o Coldplay!

Mudando radicalmente de estilo – mas não de assunto. Andei ouvindo Benito di Paula, que pra quem não sabe ou nunca ouviu falar, é um cara que fez muito sucesso nos anos setenta cantando sambas considerados bregas pela elite ditadora da MPB. A palavra brega não existia. Eu nem sei que palavra era usada. Só sei que era o cara que as empregadas domésticas ouviam – além do Robertão, é claro. Benito se apresentava – como ainda se apresenta – sempre ao piano, com seu fraque, normalmente colorido e com brilhos. Exímio pianista, grande compositor, grande cantor, grande sambista. Rompeu o estereótipo do sambista maltrapilho do morro. Criou um repertório de canções eternas e de indiscutível qualidade como, “Charlie Brown”, “Retalhos de Cetim”, “Ah! como eu amei”, “Sanfona Branca” – esta uma doce homenagem a Luiz Gonzaga – , dentre inúmeras outras de uma vasta lista de sucessos. Ouvia isso no toca discos Sonata portátil do meu irmão e ficava maravilhado. Vou contar um segredo. Choro quase toda vez em que canto “Ah! como eu amei”. É a beleza musical pura. Ou, se não pura, lapidada com maestria, ainda que o arranjo registrado soe datado. Certamente a canção não deve nada aos sambas-canção de Cartola ou Nelson Cavaquinho, que foram homens verdadeiramente inspirados e talentosos. Mas é triste ver que existe uma MPB e um samba que vive de passado – e isso não é ruim ou pecado – onde está incluído, por exemplo, Paulinho da Viola, que é merecidamente respeitado pelo que fez nos anos setenta, e um pouquinho nas décadas seguintes. Paulinho é gênio indiscutível, embora não seja um bom cantor – como todos sabem, mas têm vergonha de dizer. Paulinho nem precisa gravar muitos discos. Está decretato que ele é “o” grande sambista. O “triste” que menciono é a injusta indiferença para com alguns grandes sambistas do passado.

Chico Buarque, diferentemente de Paulinho da Viola, não cessou de criar uma variedade de legítimas obras-primas mesmo após os férteis anos setenta. Muito embora saibamos que ninguém cantarola pelas ruas as canções novas do Chico. Quando alguém pensa em Chico Buarque, pensa em suas canções antigas, não tem jeito. Canções como “Construção”, “Cotidiano” ou  “Apesar de você” – esta gravada também por Benito di Paula, que ajudou a popularizá-la.

Pôxa. Se Paulinho da Viola e Chico Buarque (perdão, meu inigualável e idolatrado Chico, o grande construtor da música brasileira contemporânea) podem viver de passado, por que Benito di Paula não pode? Qual o problema?  Mas é assim que está: Paulinho, com seu casamento de samba com choro, não pára de andar nas bocas. Os grupos de samba-choro espalhados por aí tocam todo o repertório dele.  Mas ele não passa no teste da empregada. Não tem voz pra isso. E antes que queiram me matar, já vou avisando: tenho dois CDs e dois vinis dele e ouço de vez em quando, com muito prazer.

Correndo por fora, no tocante a “status”, vêm grandes artistas como Alcione, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão – este de obra respeitável, embora não consiga cantar afinado nos shows – e o grande vendedor de discos Zeca Pagodinho, entre outros. Estou falando apenas de Samba. Como sou também preconceituoso, não vou falar aqui “daquele” tipo de samba. Não que falte talento a seus representantes. O meu desinteresse vem pela repetição incessante de uma fórmula. Se bem que o Raça Negra merece um parênteses (eles não mereciam o desprezo que tiveram por parte da crítica nos anos noventa, como se fossem culpados por vender muito. Vejo no Raça Negra não um pastiche empobrecido de samba com música romântica apelativa, mas sim uma perfeita transposição do tipo de letra simples, direta e compreensível que se fazia na Jovem Guarda para o ritmo de samba. Foram espertos, deslizaram no vácuo de outros artistas, mas foram inovadores. Só hoje percebo isso). E os críticos sempre às voltas com a “síndrome da empregada”.

Quem sou eu pra pedir que os cadernos culturais, detentores do mais puro bom gosto e senso estético, escrevam sobre Benito di Paula? Agora, o que não vale é colocá-lo em evidência como o “sambista brega”, que ele nunca foi. Benito foi uma figura ímpar no cenário musical setentista, trazendo inovações à nossa música.

Ser eclético é praticamente uma necessidade do ouvinte contemporâneo. Há muitas opções disponíveis no mercado musical. Muito que se ouvir. E eu, tenho essa dica. É para os ecléticos e saudosistas amantes de boa música pop e de samba: ouçam os discos do norueguês A-ha – não apenas os hits radiofônicos e os primeiros discos, que é normal que já tenham enjoado, assim como as deficientes coletâneas disponíveis no mercado: se bem que não pode existir coletânea ruim deles – e vão ver o que estavam perdendo. E, no caso do samba, em vez de seguir a atual ditadura e o culto em torno do batido e suspeito – ainda que bonito e respeitável – “samba de raiz”, dêem uma chance ao enorme talento de Benito di Paula, cantor e compositor nascido em Nova Friburgo, longe dos morros e da periferia da capital, ambientes tidos como “berços do samba”. Um cantor e compositor “carioca”.

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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