Benito
di Paula e A-ha
Talento e bom gosto não
superaram o preconceito
Raramente –
mas muito raramente mesmo – leio a revista Bizz.
Mas li muito nos anos oitenta. Às vezes, hoje,
leio os cadernos culturais dos melhores jornais, mas
leio pouco. Nunca li a Rolling Stone ou a Billboard,
pois meu inglês de ginasial não permite.
A anunciada edição brasileira da primeira
eu ainda não vi. Às vezes leio resenhas
musicais na Internet. Meu negócio é mesmo
pegar e ouvir. Vou dizer. Em todos esses anos vivi sempre
uma sensação de estranheza pelo fato de
nunca ninguém, nenhum crítico musical
desses veículos, ter falado bem do grupo norueguês A-ha. Naquela época (me refiro
aos anos oitenta) era Echo and The Bunnymen pra cá, The Smiths pra lá, New Order pra cá, The Cure pra lá, Jesus
and Mary Chain pra cá, R.E.M. pra lá. Todos incensados
pela crítica – esse pequeníssimo
grupo de pessoas que lêem as publicações
internacionais e ditam o que é bom e o que é
ruim, a quem eu sempre respeitei, com desconfiança,
mas respeitei . Depois, nos anos noventa era Rage
Against the Machine, Nirvana, Belle and Sebastian, The Smashing Punpkins, Radiohead – todos muito bons, admito, cada um a seu estilo.
Estes também muito elogiados Mas ninguém
se dedicou a falar bem do A-ha, que
gravou excelentes discos nas duas décadas em
questão. Em 1986, irrepreensível álbum Scoundrel Days mostrava o
potencial artístico do grupo. Em 1993, fez Memorial
Beach, extraordinariamente bem gravado.
E fechou a década, lançando em 2000 o
magnífico Minor Earth Major
Sky – sendo estes dois últimos
trabalhos, inovadores, porém retumbantemente
ignorados. São discos surpreendentes pra quem
imagina que as músicas do grupo são todas
iguais. E, apesar de uma separação e de
uma volta, no que eu saiba – eu, que não
participo de fã clube de ninguém –
o grupo não acabou não, ta legal?
Vou então
falar mais do A-ha. Nas minhas contas, o grupo gravou,
de 1985 pra cá, oito “álbuns de
carreira”. Seus grandes êxitos comerciais
foram o álbum de estréia Hunting
High And Low, de 1985, o já citado Scoundrel Days, de 1986, onde
o grupo abandona a bateria eletrônica, e Stay
on These Roads,
de 1988. Sucessos radiofônicos e televisivos,
uma penca. Com destaques para o primeiro sucesso “Take
on Me” – onde a banda mostrou-se ao mundo,
e ao que veio – e para as belíssimas
baladas “Hunting High and Low” e “Say
on These Roads”. Mas há vários outros
sucessos, que vira e mexe ouvimos nas salas de espera
da vida. E, com certeza, ouvimos com prazer. E qualquer
alma pura ouve com prazer. Só que o mainstream
e sua a crítica especializada não são
almas puras. E ai do crítico que elogiar o grupo
nórdico! E ainda: qual crítico de caderno
cultural, da alta classe média, vai admitir que
gosta da mesma música que a sua empregada. Hoje
eu já não tenho mais certeza, mas nos
anos oitenta as empregadas domésticas adoravam
as baladas do A-ha. Entretanto, quem pensa que eles
só sabem fazer baladas melancólicas ou
“tecnopop” está redondamente enganado
– não parou pra ouvi-los.
E vou dizer: Morten
Harket, vocalista do grupo, é a mais
bela voz de toda a música pop, e fim de papo.
E o engraçado é que compartilho dessa
idéia com dois amigos meus. O caso é que
os noruegueses foram tão massacrados que às
vezes eu tenho que fazer uma auto-crítica pra
ver se eu não estou maluco ou não sou
o único a admitir isso – que Morten é
o grande vocalista vivo. Sua voz é doce, seu
agudo é incomparável, seus graves são
sussurrados com cuidado, ninguém se compara a
ele.
Outro dia vi que Chris Martin, vocalista do Coldplay disse ter o A-ha como sua principal influência.
Aleluia. Viva Chris Martin! E viva o Coldplay!
Mudando radicalmente
de estilo – mas não de assunto. Andei ouvindo Benito di Paula, que pra quem não
sabe ou nunca ouviu falar, é um cara que fez
muito sucesso nos anos setenta cantando sambas considerados
bregas pela elite ditadora da MPB. A palavra brega não
existia. Eu nem sei que palavra era usada. Só
sei que era o cara que as empregadas domésticas
ouviam – além do Robertão, é
claro. Benito se apresentava – como ainda se apresenta
– sempre ao piano, com seu fraque, normalmente
colorido e com brilhos. Exímio pianista, grande
compositor, grande cantor, grande sambista. Rompeu o
estereótipo do sambista maltrapilho do morro.
Criou um repertório de canções
eternas e de indiscutível qualidade como, “Charlie
Brown”, “Retalhos de Cetim”, “Ah!
como eu amei”, “Sanfona Branca” –
esta uma doce homenagem a Luiz Gonzaga – , dentre inúmeras outras de uma vasta
lista de sucessos. Ouvia isso no toca discos Sonata portátil do meu irmão e ficava maravilhado.
Vou contar um segredo. Choro quase toda vez em que canto
“Ah! como eu amei”. É a beleza musical
pura. Ou, se não pura, lapidada com maestria,
ainda que o arranjo registrado soe datado. Certamente
a canção não deve nada aos sambas-canção
de Cartola ou Nelson Cavaquinho,
que foram homens verdadeiramente inspirados e talentosos.
Mas é triste ver que existe uma MPB e um samba
que vive de passado – e isso não é
ruim ou pecado – onde está incluído,
por exemplo, Paulinho da Viola, que
é merecidamente respeitado pelo que fez nos anos
setenta, e um pouquinho nas décadas seguintes.
Paulinho é gênio indiscutível, embora
não seja um bom cantor – como todos sabem,
mas têm vergonha de dizer. Paulinho nem precisa
gravar muitos discos. Está decretato que ele
é “o” grande sambista. O “triste”
que menciono é a injusta indiferença para
com alguns grandes sambistas do passado.
Chico Buarque,
diferentemente de Paulinho da Viola, não cessou
de criar uma variedade de legítimas obras-primas
mesmo após os férteis anos setenta. Muito
embora saibamos que ninguém cantarola pelas ruas
as canções novas do Chico. Quando alguém
pensa em Chico Buarque, pensa em suas canções
antigas, não tem jeito. Canções
como “Construção”, “Cotidiano”
ou “Apesar de você” –
esta gravada também por Benito di Paula, que
ajudou a popularizá-la.
Pôxa. Se Paulinho
da Viola e Chico Buarque (perdão, meu inigualável
e idolatrado Chico, o grande construtor da música
brasileira contemporânea) podem viver de passado,
por que Benito di Paula não pode? Qual o problema?
Mas é assim que está: Paulinho, com seu
casamento de samba com choro, não pára
de andar nas bocas. Os grupos de samba-choro espalhados
por aí tocam todo o repertório dele. Mas
ele não passa no teste da empregada. Não
tem voz pra isso. E antes que queiram me matar, já
vou avisando: tenho dois CDs e dois vinis dele e ouço
de vez em quando, com muito prazer.
Correndo por fora,
no tocante a “status”, vêm grandes
artistas como Alcione, Beth
Carvalho, Arlindo Cruz, Jorge
Aragão – este de obra respeitável,
embora não consiga cantar afinado nos shows –
e o grande vendedor de discos Zeca Pagodinho,
entre outros. Estou falando apenas de Samba. Como sou
também preconceituoso, não vou falar aqui
“daquele” tipo de samba. Não que
falte talento a seus representantes. O meu desinteresse
vem pela repetição incessante de uma fórmula.
Se bem que o Raça Negra merece
um parênteses (eles não mereciam o desprezo
que tiveram por parte da crítica nos anos noventa,
como se fossem culpados por vender muito. Vejo no Raça
Negra não um pastiche empobrecido de samba com
música romântica apelativa, mas sim uma
perfeita transposição do tipo de letra
simples, direta e compreensível que se fazia
na Jovem Guarda para o ritmo de samba. Foram
espertos, deslizaram no vácuo de outros artistas,
mas foram inovadores. Só hoje percebo isso).
E os críticos sempre às voltas com a “síndrome
da empregada”.
Quem sou eu pra
pedir que os cadernos culturais, detentores do mais
puro bom gosto e senso estético, escrevam sobre
Benito di Paula? Agora, o que não vale é
colocá-lo em evidência como o “sambista
brega”, que ele nunca foi. Benito foi uma figura
ímpar no cenário musical setentista, trazendo
inovações à nossa música.
Ser eclético
é praticamente uma necessidade do ouvinte contemporâneo.
Há muitas opções disponíveis
no mercado musical. Muito que se ouvir. E eu, tenho
essa dica. É para os ecléticos e saudosistas
amantes de boa música pop e de samba: ouçam
os discos do norueguês A-ha – não
apenas os hits radiofônicos e os primeiros
discos, que é normal que já tenham enjoado,
assim como as deficientes coletâneas disponíveis
no mercado: se bem que não pode existir coletânea
ruim deles – e vão ver o que estavam perdendo.
E, no caso do samba, em vez de seguir a atual ditadura
e o culto em torno do batido e suspeito – ainda
que bonito e respeitável – “samba
de raiz”, dêem uma chance ao enorme talento
de Benito di Paula, cantor e compositor nascido em Nova
Friburgo, longe dos morros e da periferia da capital,
ambientes tidos como “berços do samba”.
Um cantor e compositor “carioca”.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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