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» RIO DE JANEIRO, 20 DE ABRIL DE 2007

O concreto titã
A necessária influência de Arnaldo Antunes

Eu poderia falar de umas coisas que eu tenho ouvido e gostado, como Arctic Monkeys, Kings of Leon, o simpático Keane, Wilco, Air. Em português só me vem à cabeça agora a cantora Céu, que eu recomendo. Mas como eu não sou daquelas pessoas que ouvem de tudo – pelo menos não assim que é lançado. Fui ouvir só agora o álbum Qualquer, do Arnaldo Antunes. E o disco é bom.

O mestre da poesia concreta Haroldo de Campos disse certa vez que “uma letra do Arnaldo Antunes vale mais que vários livros de poesia”.  Mas, é claro, era o mestre elogiando o discípulo. Não que Arnaldo tenha sido um discípulo formal, obviamente. Contudo me parece que Campos estava certo. Também...   logo eu dizer isso – eu que ouvi mais músicas dos Titãs e do Arnaldo do que li livros de poesia...

Esse negócio começou com a canção “O Que”, do álbum Cabeça Dinossauro, que dispensa apresentações e pede sempre mil comentários, merecidamente positivos. Ali ele já demonstrava suas intenções. A influência concretista viria se manifestar em toda a obra do titã – embora a poesia e a música dele sejam muito mais que isso. É claro que “O Que” não estava sozinha. Todas as faixas do Cabaça Dinossauro são boas. E todos os compositores dos Titãs estavam, provavelmente, no seu melhor momento.

O próximo grande marco na história dos Titãs e na história do rock brasileiro, e – eu me arrisco, sem medo, a dizer – na história das letras, seria a canção “Comida” (uma das faixas do álbum conseguinte: Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas). Vamos combinar: poucos versos na história da música brasileira foram tão felizes quanto “você tem fome de que?”.  Mas, por motivos a serem estudados, Arnaldo distanciou-se do grande público ao abandonar o anárquico octeto. É engraçado, pois os Titãs eram ultra populares e ainda são. Entretanto, na carreira solo de Arnaldo não há sequer um grande sucesso radiofônico ou (muito menos) televisivo. Porque, veja bem, sofisticada a música dele sempre foi – já era ainda dentro do grupo. Então o que houve? Não sei bem. Mas sabemos que hoje a música dele é ouvida, quase que exclusivamente, pelas classes mais intelectualizadas da população.

E há os paradoxos acerca do cara.

Arnaldo é um sujeito muito bacana e muito esquisito.  Compõe músicas lindas, que lembram canções de roda, e, no entanto, as crianças não conhecem tais canções (estou me referindo à maioria das crianças) – quem ouvir a canção “Num Dia”, do seu último disco Qualquer, que começa assim: “sujar o pé de areia pra depois lavar na água / lavar o pé na água pra depois sujar na areia...” vai se pegar cantando e com vontade de brincar de roda. A gente vira criança ouvindo isso. Uma batidinha delicada no violão meio suingado, uma guitarrinha não menos delicada com efeito “wah-wah”, a ausência de percussão – que é uma característica de todo esse álbum – , e aquele cantar de gente boa que ele tem. Digo uma coisa: comprem esse disco. É um investimento. Mas se não tiver grana, fazer o que? Baixe, pô.

Ainda sobre crianças. Quem ouvir o primeiro trabalho solo do Arnaldo – o belíssimo Nome – vai ter na canção “Cultura” uma primorosa peça infantil. Trata-se de um reggae minimalista que começa com o singelo verso: “o girino é o peixinho do sapo...” e vai por aí, falando de vários bichos e utilizando-se de uma didática da fantasia, quase que como um Monteiro Lobato, uma Sylvia Orthof, ou algumas coisas infantis da Clarisse Lispector.  A maioria das crianças não conhece o Arnaldo. A única exceção nisso é “Velha Infância”, com os Tribalistas. Por conta de uma inclusão desta canção em uma novela das oito, o público infantil ouviu e cantou nos coros em festinhas escolares: “você é assim, um sonho pra mim...”. Mesmo assim, o trio formado com Marisa Monte e Carlinhos Brown, apesar de muito ouvido, não foi tão visto. Mas as crianças conhecem muito bem o Calipso, cujas letras não são nem um pouco infantis.  Por outro lado, Arnaldo Antunes já foi muito fundo no erotismo como o fez, por exemplo, no álbum Paradeiro , com a música “Essa Mulher”, onde canta: “ela goza com o sabonete, não precisa de você / ela goza com a mão, não precisa do seu pau...”. Só que tem o seguinte: nem cantando sacanagem ele soa sensual. Está dizendo palavrões, mas parece um sociólogo, um analista ou quase um padre, quando faz isso. E acaba também não mexendo com a libido feminina – o que é quase um pré-requisito para um pop star. Ele não tem fama de mulherengo como o público feminino adora. Arnaldo não atiça o tesão da maioria das mulheres.  Isso é coisa de gente boa. Puxa vida, Arnaldo Antunes só pode ser gente boa. E gente boa geralmente não soa sensual. E, logo, não vende. Se soa filosófico não vende. Se soa intelectual ou erudito, não vende. Pra juntar a isso, ele não é um grande cantor, e sim um intérprete pras suas próprias composições. E não é um intérprete versátil, e tem uma voz esquisita. Bem. Acho que depois de tantos anos de carreira, o pessoal já deveria ter se acostumado com a voz dele. Não foi difícil se acostumar com as vozes nasais de Chico Buarque e Belchior. E, na minha opinião, tem gente com voz muito desagradável fazendo sucesso comercial por aí. E a dele, sinceramente, eu acho muito interessante e agradável, apesar de esquisita. Mas ele vende pouco – não tem jeito. Ele vende pras classes A e  (olhe lá) B.  Isso pode ser positivo, no fim das contas. Se as pessoas formadoras de opinião são as que ouvem o Arnaldo, o bom gosto e a sabedoria (isso mesmo) dele pode influenciá-las, a ponto de tal influência ser “repassada” às classes “receptoras de opinião”.  Puta merda, que idéia estranha essa minha agora. Tomara que faça sentido, e, fazendo sentido, aconteça de fato, pois a música popular desse país necessita da influência de Arnaldo Antunes.

Eis o “filé” de Arnaldo Antunes:
“Saiba” (do álbum Saiba);
“Num Dia” (de Qualquer);
“Nossa Bagdá” (do álbum Qualquer, e autoria de Péricles Cavalcanti );
“As Árvores” (de Um Som);
“Dinheiro” (de Um Som);
“O Seu Olhar” (de Ninguém, e da trilha de Bicho de Sete Cabeças);
“Cultura” (do álbum de estréia solo, Nome);
“Alta Noite” (também de Nome);
“Alegria” (de Ninguém);
“E Estamos Conversados” (de O Silêncio);
“Essa Mulher” (de Paradeiro)

Cantado por outros:
“Volte Para o Seu lar” e “Eu Não sou da Sua Rua” (por Marisa Monte, no álbum Mais);
“As Coisas” (por Gilberto Gil, em Tropicália 2, o álbum comemorativo dos 25 anos de Tropicália)

Com os Titãs:
“O Que” (Cabeça Dinossauro);
“Comida” (Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas);
“Miséria” (Õ Blesq Blom);
“Medo” (Õ Blesq Blom);
"Saia de Mim" (Tudo ao mesmo tempo agora).

Uma letra:

Saiba

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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