O
concreto titã
A necessária influência
de Arnaldo Antunes
Eu poderia falar de umas
coisas que eu tenho ouvido e gostado, como Arctic Monkeys, Kings
of Leon, o simpático Keane, Wilco, Air.
Em português só me vem à cabeça
agora a cantora Céu, que
eu recomendo. Mas como eu não sou daquelas pessoas
que ouvem de tudo – pelo menos não assim
que é lançado. Fui ouvir só agora
o álbum Qualquer, do Arnaldo Antunes. E o disco
é bom.
O mestre da poesia
concreta Haroldo de Campos disse certa vez que “uma letra do Arnaldo Antunes
vale mais que vários livros de poesia”.
Mas, é claro, era o mestre elogiando o discípulo.
Não que Arnaldo tenha sido um discípulo
formal, obviamente. Contudo me parece que Campos estava
certo. Também... logo eu dizer isso
– eu que ouvi mais músicas dos Titãs
e do Arnaldo do que li livros de poesia...
Esse negócio
começou com a canção “O Que”,
do álbum Cabeça Dinossauro,
que dispensa apresentações e pede sempre
mil comentários, merecidamente positivos. Ali
ele já demonstrava suas intenções.
A influência concretista viria se manifestar em
toda a obra do titã – embora a poesia e
a música dele sejam muito mais que isso. É
claro que “O Que” não estava sozinha.
Todas as faixas do Cabaça Dinossauro são
boas. E todos os compositores dos Titãs estavam,
provavelmente, no seu melhor momento.
O próximo
grande marco na história dos Titãs e na
história do rock brasileiro, e – eu me
arrisco, sem medo, a dizer – na história
das letras, seria a canção “Comida”
(uma das faixas do álbum conseguinte: Jesus
Não Tem Dentes no País dos Banguelas). Vamos combinar:
poucos versos na história da música brasileira
foram tão felizes quanto “você tem
fome de que?”. Mas, por motivos a serem
estudados, Arnaldo distanciou-se do grande público
ao abandonar o anárquico octeto. É engraçado,
pois os Titãs eram ultra populares e ainda são.
Entretanto, na carreira solo de Arnaldo não há
sequer um grande sucesso radiofônico ou (muito
menos) televisivo. Porque, veja bem, sofisticada a música
dele sempre foi – já era ainda dentro do
grupo. Então o que houve? Não sei bem.
Mas sabemos que hoje a música dele é ouvida,
quase que exclusivamente, pelas classes mais intelectualizadas
da população.
E há os paradoxos
acerca do cara.
Arnaldo é
um sujeito muito bacana e muito esquisito. Compõe
músicas lindas, que lembram canções
de roda, e, no entanto, as crianças não
conhecem tais canções (estou me referindo
à maioria das crianças) – quem ouvir
a canção “Num Dia”, do seu
último disco Qualquer,
que começa assim: “sujar o pé de
areia pra depois lavar na água / lavar o pé
na água pra depois sujar na areia...” vai
se pegar cantando e com vontade de brincar de roda.
A gente vira criança ouvindo isso. Uma batidinha
delicada no violão meio suingado, uma guitarrinha
não menos delicada com efeito “wah-wah”,
a ausência de percussão – que é
uma característica de todo esse álbum
– , e aquele cantar de gente boa que ele tem.
Digo uma coisa: comprem esse disco. É um investimento.
Mas se não tiver grana, fazer o que? Baixe, pô.
Ainda sobre crianças.
Quem ouvir o primeiro trabalho solo do Arnaldo –
o belíssimo Nome –
vai ter na canção “Cultura”
uma primorosa peça infantil. Trata-se de um reggae minimalista que começa com o singelo verso: “o
girino é o peixinho do sapo...” e vai por
aí, falando de vários bichos e utilizando-se
de uma didática da fantasia, quase que como um
Monteiro Lobato, uma Sylvia Orthof, ou algumas coisas
infantis da Clarisse Lispector. A maioria das
crianças não conhece o Arnaldo. A única
exceção nisso é “Velha Infância”,
com os Tribalistas. Por conta
de uma inclusão desta canção em
uma novela das oito, o público infantil ouviu
e cantou nos coros em festinhas escolares: “você
é assim, um sonho pra mim...”. Mesmo assim,
o trio formado com Marisa Monte e Carlinhos Brown, apesar
de muito ouvido, não foi tão visto. Mas
as crianças conhecem muito bem o Calipso,
cujas letras não são nem um pouco infantis.
Por outro lado, Arnaldo Antunes já foi muito
fundo no erotismo como o fez, por exemplo, no álbum Paradeiro , com a música
“Essa Mulher”, onde canta: “ela goza
com o sabonete, não precisa de você / ela
goza com a mão, não precisa do seu pau...”.
Só que tem o seguinte: nem cantando sacanagem
ele soa sensual. Está dizendo palavrões,
mas parece um sociólogo, um analista ou quase
um padre, quando faz isso. E acaba também não
mexendo com a libido feminina – o que é
quase um pré-requisito para um pop star. Ele
não tem fama de mulherengo como o público
feminino adora. Arnaldo não atiça o tesão
da maioria das mulheres. Isso é coisa de
gente boa. Puxa vida, Arnaldo Antunes só pode
ser gente boa. E gente boa geralmente não soa
sensual. E, logo, não vende. Se soa filosófico
não vende. Se soa intelectual ou erudito, não
vende. Pra juntar a isso, ele não é um
grande cantor, e sim um intérprete pras suas
próprias composições. E não
é um intérprete versátil, e tem
uma voz esquisita. Bem. Acho que depois de tantos anos
de carreira, o pessoal já deveria ter se acostumado
com a voz dele. Não foi difícil se acostumar
com as vozes nasais de Chico Buarque e Belchior. E,
na minha opinião, tem gente com voz muito desagradável
fazendo sucesso comercial por aí. E a dele, sinceramente,
eu acho muito interessante e agradável, apesar
de esquisita. Mas ele vende pouco – não
tem jeito. Ele vende pras classes A e (olhe lá)
B. Isso pode ser positivo, no fim das contas.
Se as pessoas formadoras de opinião são
as que ouvem o Arnaldo, o bom gosto e a sabedoria (isso
mesmo) dele pode influenciá-las, a ponto de tal
influência ser “repassada” às
classes “receptoras de opinião”.
Puta merda, que idéia estranha essa minha agora.
Tomara que faça sentido, e, fazendo sentido,
aconteça de fato, pois a música popular
desse país necessita da influência de Arnaldo
Antunes.
Eis o “filé”
de Arnaldo Antunes:
“Saiba” (do álbum Saiba);
“Num Dia” (de Qualquer);
“Nossa Bagdá” (do álbum Qualquer, e autoria de Péricles Cavalcanti
);
“As Árvores” (de Um Som);
“Dinheiro” (de Um Som);
“O Seu Olhar” (de Ninguém,
e da trilha de Bicho de Sete Cabeças);
“Cultura” (do álbum de estréia
solo, Nome);
“Alta Noite” (também de Nome);
“Alegria” (de Ninguém);
“E Estamos Conversados” (de O
Silêncio);
“Essa Mulher” (de Paradeiro)
Cantado
por outros:
“Volte Para o Seu lar” e “Eu Não
sou da Sua Rua” (por Marisa Monte, no álbum Mais);
“As Coisas” (por Gilberto Gil, em Tropicália
2, o álbum comemorativo dos 25
anos de Tropicália)
Com os Titãs:
“O Que” (Cabeça Dinossauro);
“Comida” (Jesus Não Tem
Dentes No País dos Banguelas);
“Miséria” (Õ Blesq
Blom);
“Medo” (Õ Blesq Blom);
"Saia de Mim" (Tudo ao mesmo tempo
agora).
Uma letra:
Saiba
Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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