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» RIO DE JANEIRO, 5 DE ABRIL DE 2007

Que saudade da capa grande de papelão
Internet reduz música a “apenas” música

Foto: Capa do LP Sgt. Peppers, dos Beatles

É um contra-senso: usar a Internet – que tanto tem ajudado na difusão musical de novos e velhos artistas – para tecer críticas negativas. O título deste artigo poderia ser também “A capa sumiu”. Explico. Após a era de ouro dos singles surgiu o LP, e não tardou para este se transformar em arte, mais do que apenas um disco grande de vinil com uma capa mostrando o rosto do cantor. O álbum – esta palavra começou a ser usada, em inglês, obviamente sem acento, em meados dos anos 60 – “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, é tido como um divisor de águas para uma nova fase da música pop, onde um disco não seria mais apenas um disco. Ele deveria ter uma capa instigante envolvendo arte visual. Deveria conter um encarte com as letras. Deveria ser algo bom de pegar, bom de olhar, bom de guardar, bom de mostrar com orgulho aos amigos aquele objeto enorme que não cabia nas mãos.

Aí então veio o CD. Legal. Bonitinho. Bom de pegar. Bom de olhar. Bom de guardar. Bom de mostrar aos amigos. E o melhor: som límpido – na maioria das vezes, mas nem sempre – e praticidade na hora de selecionar as faixas que se quer ouvir. Mas com o advento do CD a música pop, como arte pop, sofreu seu primeiro golpe. Adeus capa do “Sargent Peppers...” (e há inúmeras outras capas “intransponíveis” para o formato pequeno, como “Phisical Graffiti”, do Led Zeppelin). Como apreciar aquele belo mosaico, que já causava confusão visual no tamanho original, agora numa capinha de 12 centímetros?

É claro que vários artistas da era digital fizeram de tudo para trazer arte para as capas dos CDs – às vezes com bastante sucesso. Mas nunca se conseguiu reproduzir o impacto de se pegar pela primeira vez numa loja a enorme capa de papelão.

Entretanto, o golpe derradeiro na arte visual da música viria com a Internet. Aí fudeu: adeus capa; adeus arte visual. É ligar o E-mule – ou outro site/programa de compartilhamento de arquivos –, baixar o que você quiser e gravar num CD-R de um real. Pra mim é uma pena – apesar de eu também me beneficiar disso. Mas como fica aquela relação afetiva com as capas? Alguns artistas da era do CD usaram bastante o papelão ao invés do acrílico, como o Pearl Jam – que fez capas que são pura arte. A capa das primeiras edições do “Equilíbrio Distante” do Renato Russo (papelão amarelo, com desenhos de Giuliano, filho do cantor): como essa capa foi tocante pra mim...  Renato estava prestes a se despedir. E, depois, tocar naquela capa, logo após a ida dele, fez-me sentir como se tocasse, de certa forma, nele, o maior ídolo da minha adolescência. E àquela altura eu nem era mais adolescente. Aquele disco – com sua capa – ainda está, é claro, na minha estante. E aqueles desenhos infantis ainda impressionam. Juliette – minha filha, de quem já falei aqui no Crônicas Cariocas, que ama música e capas de discos – tem a capa em questão como a sua predileta. Mas, e agora, com essa mania de baixar música da Internet, que capas eu vou mostrar pra ela?

Algumas capas “intransponíveis” que (infelizmente) diminuíram, e, agora (hiper-infelizmente) sumiram:

“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” (Beatles)
“Physical Graffiti” (Led Zeppelin)
“Houses of the Holly” (Led Zeppelin)
“Õ Blesq Blom” (Titãs)
“Litle Creatures” (Talking Heads)
“Encontros e Despedidas” (Milton Nascimento)
“White Album” (Beatles). Por quê? Não é só uma capa branca – o álbum tem fotos excelentes e um encarte bem elaborado.
“Led Zeppelin III” (Led Zeppelin)
“Dangerous” (Michael Jackson). Este, um vinil já da era do CD.

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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