Que
saudade da capa grande de papelão
Internet reduz música
a “apenas” música
Foto: Capa do
LP Sgt. Peppers, dos Beatles
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É um contra-senso:
usar a Internet – que tanto tem ajudado na difusão
musical de novos e velhos artistas – para tecer
críticas negativas. O título deste artigo
poderia ser também “A capa sumiu”.
Explico. Após a era de ouro dos singles surgiu
o LP, e não tardou para este se transformar em
arte, mais do que apenas um disco grande de vinil com
uma capa mostrando o rosto do cantor. O álbum
– esta palavra começou a ser usada, em
inglês, obviamente sem acento, em meados dos anos
60 – “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club
Band”, dos Beatles, é tido como um
divisor de águas para uma nova fase da música
pop, onde um disco não seria mais apenas um disco.
Ele deveria ter uma capa instigante envolvendo arte
visual. Deveria conter um encarte com as letras. Deveria
ser algo bom de pegar, bom de olhar, bom de guardar,
bom de mostrar com orgulho aos amigos aquele objeto
enorme que não cabia nas mãos.
Aí então
veio o CD. Legal. Bonitinho. Bom de pegar. Bom de olhar.
Bom de guardar. Bom de mostrar aos amigos. E o melhor:
som límpido – na maioria das vezes, mas
nem sempre – e praticidade na hora de selecionar
as faixas que se quer ouvir. Mas com o advento do CD
a música pop, como arte pop, sofreu seu primeiro
golpe. Adeus capa do “Sargent Peppers...” (e há inúmeras outras capas “intransponíveis”
para o formato pequeno, como “Phisical Graffiti”,
do Led Zeppelin). Como apreciar aquele belo mosaico,
que já causava confusão visual no tamanho
original, agora numa capinha de 12 centímetros?
É claro que
vários artistas da era digital fizeram de tudo
para trazer arte para as capas dos CDs – às
vezes com bastante sucesso. Mas nunca se conseguiu reproduzir
o impacto de se pegar pela primeira vez numa loja a
enorme capa de papelão.
Entretanto, o golpe
derradeiro na arte visual da música viria com
a Internet. Aí fudeu: adeus capa; adeus arte
visual. É ligar o E-mule – ou outro site/programa
de compartilhamento de arquivos –, baixar o que
você quiser e gravar num CD-R de um real. Pra
mim é uma pena – apesar de eu também
me beneficiar disso. Mas como fica aquela relação
afetiva com as capas? Alguns artistas da era do CD usaram
bastante o papelão ao invés do acrílico,
como o Pearl Jam – que fez capas que são
pura arte. A capa das primeiras edições
do “Equilíbrio Distante” do Renato
Russo (papelão amarelo, com desenhos de Giuliano,
filho do cantor): como essa capa foi tocante pra mim...
Renato estava prestes a se despedir. E, depois, tocar
naquela capa, logo após a ida dele, fez-me sentir
como se tocasse, de certa forma, nele, o maior ídolo
da minha adolescência. E àquela altura
eu nem era mais adolescente. Aquele disco – com
sua capa – ainda está, é claro,
na minha estante. E aqueles desenhos infantis ainda
impressionam. Juliette – minha filha, de quem
já falei aqui no Crônicas Cariocas, que
ama música e capas de discos – tem a capa
em questão como a sua predileta. Mas, e agora,
com essa mania de baixar música da Internet,
que capas eu vou mostrar pra ela?
Algumas capas “intransponíveis”
que (infelizmente) diminuíram, e, agora (hiper-infelizmente)
sumiram:
“Sgt.
Peppers Lonely Hearts Club Band” (Beatles)
“Physical Graffiti” (Led
Zeppelin)
“Houses of the Holly” (Led
Zeppelin)
“Õ Blesq Blom” (Titãs)
“Litle Creatures” (Talking
Heads)
“Encontros e Despedidas” (Milton
Nascimento)
“White Album” (Beatles). Por quê? Não é só uma
capa branca – o álbum tem fotos excelentes
e um encarte bem elaborado.
“Led Zeppelin III” (Led
Zeppelin)
“Dangerous” (Michael Jackson). Este, um vinil já da era do CD.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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