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» RIO DE JANEIRO, 22 DE MARÇO DE 2007

O Fantasma de John Lennon
Ou Yoko Ono, a Bruxa

Não é lançamento, não – até porque eu não fico preso a lançamentos nessa coluna (meu editor me poupou dessa). Mas eu recomendo, pra quem ainda não viu, o dvd “Lennon Legend – The Very Best of John Lennon”.  É uma compilação de clips montada e produzida em 2003 (portanto recentemente), a partir de filmagens “oficiais” do cantor (como as extraídas do filme “Imagine”, e, outras, dos arquivos da EMI, inéditas) e de imagens do arquivo pessoal da viúva Yoko Ono e de colaboradores.  Não pense em ver videoclips como os atuais. O que se vê não é um exercício de estilo, e sim a alternativa de registrar digitalmente gravações extremamente simples e belas do casal Lennon, com as canções remasterizadas. São imagens de um dos mais influentes casais do mundo pop, em meio a sua arte, seu cotidiano, sua vontade de aparecer – claro – e a bela música que os embalava. É reflexão para os olhos e deleite para os ouvidos. Quem já é fã e não conhece esta coletânea, vai ter nela pequenas, sutis e gratas novidades.

Minha esposa não agüentou assistir tudo, pois sempre chora muito quando vê Lennon. Não consegue admirar a arte dele sem pensar em sua morte trágica e precoce.  Ela, como a maioria das pessoas que conheço, não gosta da Yoko. Acha que ela é uma bruxa que arruinou a vida do pobre e inocente John.

Eu penso diferente. Sempre admirei a face feminista dele – e nisso seu respeito e “devoção” a Yoko. Pop-star rico e amado, alvo das atenções, poderia se casar com uma princesa ou com uma bela atriz de cinema. No entanto, fechou os olhos para os padrões estabelecidos e se enamorou de uma artista oriental que ninguém acha bonita. Seis anos mais velha, a artista plástica japonesa, entre uma ou outra briga ou breve separação, esteve junto a Lennon até o dia de sua morte, em dezembro de 1980. E estiveram mesmo juntos – e juntos mesmo.  Minha filha, que assistiu ao dvd duas vezes comigo, disse: “como eles dois gostavam de passear de mãos dadas...(!)”.  John amava Yoko. E ponto.

A essa altura, algum beatlemaníaco já deve estar me chamando de idiota, dizendo que “todos sabem que a japonesa foi uma oportunista”.  A mim isso, em princípio, não importa.  Me importa mais o fato de que um dos maiores homens do século vinte – que obviamente não era um santo; como Che Guevara e Gandhi também não eram – ao se casar com uma japonesa feia, e junto com ela produzir arte, mostrou ao mundo várias coisas:  que é possível o desapego a cruéis padrões estéticos que escravizam mulheres e homens;  o fato de que marido e mulher podem “trabalhar em equipe”;  que um homem caminhar com sua esposa por um parque espalha pelo chão sementes de amor.

Tudo bem, fiquei piegas.  Vejamos então a algo negativo para balancear. Há cenas de mau gosto em alguns clips do dvd em questão. Como no clip de ‘Woman”, onde, num momento, é mostrada a contracapa do disco “Imagine”,  em que há o perfil de Lennon como que deitado no chão, sendo essa imagem sucedida por uma foto dele morto, na mesma posição. É de extremo mau gosto. Mórbido pra caramba. Aliás este não é o único momento em que se faz referência à morte do beatle. Não é à toa que Mary, minha patroa, chorou.

 E tem umas coisas meio estranhas na vida da Yoko. Essa coisa de não se cansar de explorar a morte do marido é muito chata. Já basta alguns cristãos que preferem falar da morte de Jesus do que de seu exemplo de vida. Guardando-se as devidas proporções, é por aí. Certa vez – deve fazer uma meia dúzia de anos – Yoko pôs em leilão uma foto dos óculos quebrados de John, sujos de sangue. Eu não sei, mas me parece que o sangue era montagem. Fiquei perplexo na ocasião e extremamente decepcionado com a viúva. Eu, que sempre a defendera. Vou dizer uma coisa: aquilo ali ficou muito próximo de um vodu. E pra quem a considera uma bruxa...

Há ainda as suspeitas de que Lennon, o pacificador, na sua posição de milionário e – como eu – simpatizante do comunismo, tenha financiado guerrilhas na década de 70. Dizem que a CIA investiga isso até hoje. Gilberto Gil e João Donato escreveram: “...que contradição/ só a guerra faz nosso amor em paz”. Pois é.  De volta a Che. Até este – que é um símbolo para os neo-comunistas como eu – matou ou comandou a morte de, pelo menos, duas mil pessoas. Gente: não há santos. Nem nunca houve. Há fantasmas. E o de John Lennon não pára de assombrar, acredito e espero que de forma positiva, o mundo de hoje.

Ouvindo uma das melhores bandas do momento, o Arctic Monkeys – que eu estou adorando ouvir –, vejo como o fantasma de Lennon age no rock atual. O vocalista tem a voz muito parecida com a de John. Eu achei. Alíás, o som deles é bem Beatles. E são muito melhores que o Oasis – cujo vocalista imita e cultua o falescido.

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    *Luciano Fortunato é músico e web-escritor.


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