O
Fantasma de John Lennon
Ou Yoko Ono, a Bruxa
Não é lançamento,
não – até porque eu não fico
preso a lançamentos nessa coluna (meu editor
me poupou dessa). Mas eu recomendo, pra quem ainda não
viu, o dvd “Lennon Legend – The Very Best
of John Lennon”. É uma compilação
de clips montada e produzida em 2003 (portanto recentemente),
a partir de filmagens “oficiais” do cantor
(como as extraídas do filme “Imagine”,
e, outras, dos arquivos da EMI, inéditas) e de
imagens do arquivo pessoal da viúva Yoko Ono
e de colaboradores. Não pense em ver videoclips
como os atuais. O que se vê não é
um exercício de estilo, e sim a alternativa de
registrar digitalmente gravações extremamente
simples e belas do casal Lennon, com as canções
remasterizadas. São imagens de um dos mais influentes
casais do mundo pop, em meio a sua arte, seu cotidiano,
sua vontade de aparecer – claro – e a bela
música que os embalava. É reflexão
para os olhos e deleite para os ouvidos. Quem já
é fã e não conhece esta coletânea,
vai ter nela pequenas, sutis e gratas novidades.
Minha esposa não
agüentou assistir tudo, pois sempre chora muito
quando vê Lennon. Não consegue admirar
a arte dele sem pensar em sua morte trágica e
precoce. Ela, como a maioria das pessoas que conheço,
não gosta da Yoko. Acha que ela é uma
bruxa que arruinou a vida do pobre e inocente John.
Eu penso diferente.
Sempre admirei a face feminista dele – e nisso
seu respeito e “devoção” a
Yoko. Pop-star rico e amado, alvo das atenções,
poderia se casar com uma princesa ou com uma bela atriz
de cinema. No entanto, fechou os olhos para os padrões
estabelecidos e se enamorou de uma artista oriental
que ninguém acha bonita. Seis anos mais velha,
a artista plástica japonesa, entre uma ou outra
briga ou breve separação, esteve junto
a Lennon até o dia de sua morte, em dezembro
de 1980. E estiveram mesmo juntos – e juntos mesmo.
Minha filha, que assistiu ao dvd duas vezes comigo,
disse: “como eles dois gostavam de passear de
mãos dadas...(!)”. John amava Yoko.
E ponto.
A essa altura, algum
beatlemaníaco já deve estar me chamando
de idiota, dizendo que “todos sabem que a japonesa
foi uma oportunista”. A mim isso, em princípio,
não importa. Me importa mais o fato de
que um dos maiores homens do século vinte –
que obviamente não era um santo; como Che Guevara
e Gandhi também não eram – ao se
casar com uma japonesa feia, e junto com ela produzir
arte, mostrou ao mundo várias coisas: que
é possível o desapego a cruéis
padrões estéticos que escravizam mulheres
e homens; o fato de que marido e mulher podem
“trabalhar em equipe”; que um homem
caminhar com sua esposa por um parque espalha pelo chão
sementes de amor.
Tudo bem, fiquei
piegas. Vejamos então a algo negativo para
balancear. Há cenas de mau gosto em alguns clips
do dvd em questão. Como no clip de ‘Woman”,
onde, num momento, é mostrada a contracapa do
disco “Imagine”, em que há
o perfil de Lennon como que deitado no chão,
sendo essa imagem sucedida por uma foto dele morto,
na mesma posição. É de extremo
mau gosto. Mórbido pra caramba. Aliás
este não é o único momento em que
se faz referência à morte do beatle. Não
é à toa que Mary, minha patroa, chorou.
E tem umas
coisas meio estranhas na vida da Yoko. Essa coisa de
não se cansar de explorar a morte do marido é
muito chata. Já basta alguns cristãos
que preferem falar da morte de Jesus do que de seu exemplo
de vida. Guardando-se as devidas proporções,
é por aí. Certa vez – deve fazer
uma meia dúzia de anos – Yoko pôs
em leilão uma foto dos óculos quebrados
de John, sujos de sangue. Eu não sei, mas me
parece que o sangue era montagem. Fiquei perplexo na
ocasião e extremamente decepcionado com a viúva.
Eu, que sempre a defendera. Vou dizer uma coisa: aquilo
ali ficou muito próximo de um vodu. E pra quem
a considera uma bruxa...
Há ainda
as suspeitas de que Lennon, o pacificador, na sua posição
de milionário e – como eu – simpatizante
do comunismo, tenha financiado guerrilhas na década
de 70. Dizem que a CIA investiga isso até hoje.
Gilberto Gil e João Donato escreveram: “...que
contradição/ só a guerra faz nosso
amor em paz”. Pois é. De volta a
Che. Até este – que é um símbolo
para os neo-comunistas como eu – matou ou comandou
a morte de, pelo menos, duas mil pessoas. Gente: não
há santos. Nem nunca houve. Há fantasmas.
E o de John Lennon não pára de assombrar,
acredito e espero que de forma positiva, o mundo de
hoje.
Ouvindo uma das
melhores bandas do momento, o Arctic Monkeys – que eu estou adorando ouvir –, vejo como
o fantasma de Lennon age no rock atual. O vocalista
tem a voz muito parecida com a de John. Eu achei. Alíás,
o som deles é bem Beatles. E são muito
melhores que o Oasis – cujo vocalista
imita e cultua o falescido.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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