Lobão
e Faustão
Aguardamos o dia em
que ouviremos (e veremos) os bons músicos tocarem
na TV
Num debate sobre os movimentos
de vanguarda na história do cinema, onde intelectuais
falavam sobre cinema novo e nouvelle vague, já
quase no fim, um rapaz da platéia questiona à
roda de debatedores: “Mas e quanto ao povo? (referindo-se
ao fato de que a maioria dos filmes comentados naquele
encontro, não eram acessíveis aos cidadãos
pobres e comuns)” Foi então que um dos
críticos respondeu com certo sarcasmo: “O
povo? O povo está no Maracanã”.
O que o intelectual queria dizer com isso? Provavelmente
estava querendo dizer o seguinte: “A boa arte
sempre existiu e sempre vai existir independendo do
gosto popular”. Bem. Ele não deixa
de estar certo – a despeito de seu comentário
pedante. Mas pode também que não tenha
sido pedante, e seu comentário tenha sido sim,
simplesmente, um resumo sincero de um estado de coisas.
Uma boa pergunta
é se nos últimos tempos a elite artística
e todas as pessoas que veiculam cultura têm se
esforçado para levar arte ao povo. Tomemos como
exemplo a MPB – que só tem o nome “popular”
em contraposição à música
erudita. MPB, como sabemos, é um “selo”
criado nos anos 70 para diferenciar um grupo de grandes
artistas daqueles de “importância menor”
e gosto duvidoso. A televisão se encarregou
de mostrar ao país esta plêiade de grandes
nomes da nossa música, os quais nem precisamos
citar. A TV Record nos anos 60, com seus áureos
festivais e programas, sacudiu o Brasil e mostrou
a todos a grande música feita por jovens oriundos
da classe média intelectual. A TV Bandeirantes
e, sobretudo, a Globo continuou o trabalho de divulgar
os melhores artistas de nossa música na década
de 1970. Portanto, ouvir música boa na
televisão tornara-se um hábito comum dos
brasileiros naquela época. E por que não
dizer o mesmo dos anos 80 – apesar do play-back
– com o BRock? Titãs, Legião Urbana,
Barão Vermelho...
É. Mas a
TV mudou. E enxotou de sua programação
nossos melhores artistas. Ao menos em relação
à TV aberta podemos afirmar isso. E é
ela a principal mídia do país; aquela
que chega em todos os lares. E destaco nesse aspecto
os, aparentemente imortais (e fatídicos), programas
de auditório, aos quais nem eu nem qualquer amante
de música suporta assistir, mas que têm
enorme influência no gosto popular.
Os bons músicos
(cantores, compositores, instrumentistas) ainda existem,
e existem em grande número. Mas um apreciador
de música pode chegar a pensar o contrário
ao ligar seu aparelho televisor num domingo à
tarde. O que há é o predomínio
do mau gosto, o romantismo-brega-pseudo-sertanejo,
o pula-pula baiano com seu “sai-do-chão”,
o funk safado – que é cultura popular sim,
mas, convenhamos, é música para pistas
de dança (no máximo) e não deveria
estar tomando o espaço que deveria ser ocupado
por músicos de verdade. Flávio Cavalcanti,
se vivo estivesse, quebraria um CD de funk por semana
em seu programa, como fez até com disco de Giberto
Gil; e olha que ele quebrou Refazenda diante das câmeras – o que também
já é uma insanidade.
Mas quem são
os culpados por essa esculhambação musical
televisiva de hoje? Os empresários de televisão,
que encontraram filões lucrativos que dão
ibope e não querem nem saber? Digamos que a busca
pela audiência rápida e fácil seja
mesmo algo pernicioso. Mas o que podemos esperar de
empresários? A comunicação de massas
no Brasil é comandada por menos de 10 grandes
empresas. E empresas têm um fim único:
o lucro. E, por outro lado, será que bons
artistas não estariam por sua vez se omitindo,
e, com isso, talvez sem querer, contribuindo para essa
invasão de música ruim em nossos lares?
Ocorreu também
nos últimos anos o que chamo de “efeito
Lobão”, com vários grandes nomes
se recusando a ir cantar na TV. E não podemos
recriminá-los, pois sabemos que play-back em
programa de auditório com dançarinas rebolando
no palco é mesmo o fim-da-picada. Quando
será que esse esqueminha vai ser erradicado?
É uma corrupção de qualquer bom
senso estético. Quando?? Talvez quando
os programadores entenderem a importância da diversidade
musical e do respeito aos nossos melhores artistas,
além, é claro, de um pouco de arte visual
mais variada e de bom gosto. Uma questão
interessante é: por que toca Tom Jobim nas novelas
das nove, enquanto no Faustão o povo tem que
aturar ver Leonardo duzentas vezes? O público
alvo não seria o mesmo? Por que também
a insistência com um apresentador que grita nos
nossos ouvidos, ao que parece, sempre as mesmas palavras?
Enfim. Por que o Domingão não acaba? E
pensar que o Faustão um dia foi tão interessante,
lançando um novo modelo com o saudoso Perdidos
na Noite.
Precisa-se, com
urgência, de um programa de auditório,
em canal aberto, que possa receber Lobão, Marisa
Monte, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Lenine, Adriana
Calcanhoto, etc, etc, etc, sem que nele estes se sintam
peixes fora d’água. Bem que Lobão
dá sinais de que fez as pazes com a televisão.
Faz seu programa (o talk-show Saca Rolha, no Canal 21
– que eu, assim como a maioria dos brasileiros,
não tive ainda a oportunidade de assistir –
onde é um dos apresentadores); vai lançar
seu Acústico MTV –
que antes de ser um CD e um DVD é um programa
de televisão – , e quem sabe também
não toque em programas mais populares. Quem sabe
não toque no Faustão. Não sei não.
Se bem que me disseram que no ano passado ele foi duas
vezes no Raul Gil. Então vem, Lobão! Vem
cantar na televisão. Vem e traz contigo essa
turma que eu mencionei. Dizem por aí que você
está se vendendo ao mainstream. Mas eu não
estou nem aí. Eu quero é boa música
para ouvir depois do carnaval.
Em suma: a música
brasileira não vai mal, mas a TV precisa melhorar
sua programação musical, e artistas de
boa reputação, bom gosto e talento criativo
podem ajudá-la nessa tarefa. Miremo-nos no
glorioso (como diria Fausto Silva) passado musical desta
mídia. O povo brasileiro merece boa música
na televisão. Se já foi assim, por que
não voltar a ser. E se servir o exemplo dos gringos,
é bom lembrar: Elvis, Beatles e até Nirvana
tocaram em programas de auditório.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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