Bandinhas:
ouçam “Cê”. Tá
ligado?
Caetano nos faz voltar ao tempo
em que um novo disco de rock era sinônimo de frescor
musical.
Dizem que a aldeia global
preconizada pr McLuhan é hoje um fato.
Uma aldeia ou tribo tem seu líder. Hoje parecemos
carecer disso no campo artístico. E isso é
muito bom – já basta a besta protestante
lá de Washington com seu pretenso poder político.
Em termos culturais e artísticos, e, sobretudo
em se tratando de música, me parece que os caciques
da música cantada em língua inglesa começam
a perder sua hegemonia, e aldeões de diversos
cantos dessa imensa babel cantam o que bem entendem
em suas diversas línguas. Muitas vezes eles cantam
rock. E o rock não mais pertence, mesmo, aos
fodões do norte – embora eles o saibam
ainda fazer, em alguns casos, muito bem.
Mas com a perda
dessa exclusividade estilística deles, os reis
vão ficando cada vez mais pelados, e já
é possível vê-los com raio-X. Todo
mundo já sabe também que a música
norte-americana – que já foi a mais rica
do planeta – e a inglesa há muito tempo
não são exatamente uma referência
de qualidade.
Quanto à
música que se produz no Brasil, já teve
períodos mais férteis, com certeza, mas
não está estagnada, e se mostra (não
nas rádios e na TV aberta) muito criativa e atraente
e se propaga cada vez mais ao resto do mundo –
vide hoje Seu Jorge e Lenine. A música de regiões
fora do eixo Rio-São Paulo também ganhou
gás há pouco mais de uma década
com Chico Science, que abriu as portas ao regionalismo
e sua miscelânea, fazendo uma mini reedição
da Tropicália. Chico Buarque – que
não pensa mais em música em termos de
inovação - nos brindou recentemente com
o lindo, lindo, lindo cd Carioca,
e provou que vai bem das pernas e da língua.
Mas e quanto aos
novos? Cadê aquele novo cantor e compositor
que poderá salvar a música brasileira
da mesmice comercial em que se encontra. Aquele messias
capaz de vencer as barreiras da Globo e se mostrar aos
pobres e carentes ouvintes brasileiros sem ser considerado
brega e sem ser brega? Os “undergrounds”,
os “alternativos” estão vivos, e
sempre estiveram, bem sabemos. E como seria legal se
a boa música, a boa, elegante e inovadora música
pudesse chegar a um número maior de ouvidos...
E o nosso “propriamente
dito” rock? Fique claro: não vou falar
de bandas do nosso vasto e rico (e impenetrável)
underground. Bem. Tem Los Hermanos com o seu 4,
que é belo e inovador, embora melancólico
demais – o que não é um defeito.
Skank mostra “frescor” – o citado
no subtítulo deste texto – em seu Carrossel, que está
extremamente bem gravado. Um tanto retrô,
na linha do anterior Cosmotrom,
mas, como este, bem bonito. Minha mãe adorou.
Outros nomes do nosso rock ostentam considerável
qualidade técnica, mas, infelizmente não
parecem ter muita novidade a mostrar. Pelo menos
novidades que nos encantem.
E eis que nos chega
ele. O consagrado músico brasileiro, senhor de
cabelos grisalhos, chamado Caetano Veloso e lança Cê. Não há
dúvidas: Cê é
um disco de rock. Com direção musical
de Pedro Sá e Moreno Veloso, o disco surpreende
do início ao fim. Já se usou a palavra
“minimalista” para defini-lo, e pode ser
um pouco por aí, mas dizer-se isso é muito
pouco. Cê é praticamente
um modelo para quem quer fazer rock de qualidade, fora
da prisão do virtuosismo técnico que tem
parecido ser um tipo de dogma para os jovens músicos
que compram as pedaleiras mais caras para extrair delas,
com suas guitarras não menos caras solos mirabolantes
“satrianescos” ou efeitos à la Korn
– a banda rap-metal (ou algo do tipo) de rapazes
tatuados até a alma, que os meninos adoram.
Caetano é
o compositor surpreendente de sempre. Só que
agora rodeado de garotos que querem e buscam, em consonância
com o seu mestre, o diferente, o atípico.
Mas não se pense que Cê é só estranheza, ou que seja um disco
difícil. Os arranjos são “sofisticadamente
simples” e há músicas, de certa
forma, previsíveis também. A música
“Rocks”, por exemplo, é um rock comum
e despretensioso. “Não me arrependo”
é uma lindíssima canção
de amor que agrada a qualquer ouvinte e cabe em qualquer
coletânea ou rádio FM. Em “Porquê”
Caetano canta com sotaque português – coisa
que já fez em, pelo menos, duas outras ocasiões.
Se bem que aqui o buraco é mais embaixo: a frase
“estou a vir’’ é repedida,
inúmeras vezes, como em um poema concretista,
com o cantar lusitano – isso sobre uma base jazística
de extrema elegância.
O tratamento instrumental,
com basicamente guitarra, baixo e bateria é uma
dos aspectos que mais nos surpreende e chamam a atenção.
E como isso é feito lindamente...
Não é som de garagem – está
muito longe disso –, apesar de cru. Mas digo que
as bandas de garagem precisam ouvir urgentemente este
disco, e, assim, terem uma aula sobre o que se pode
fazer com poucos instrumentos. “Tá ligado”?
E, quem sabe, entendamos todos que não precisamos
mais nos considerar órfãos dos nossos
grandes roqueiros. Órfãos de Raul,
de Cazuza, de Renato Russo. Ou melhor, que não
precisamos de roqueiros, mas sim de músicos versáteis
que saibam, inclusive, fazer um bom rock.
Caetano carrega
ainda o peso de ser ético e inovador –
coisas que ele é e sabe ser. Talvez isso
até lhe doa, como a dor cantada por ele no rap
“O herói” (última faixa do
CD, e talvez a mais pungente) onde canta: “eu
sou herói, só Deus e eu sabemos como dói”.
Essa é a dor do personagem mulato pobre da letra,
mas ali pode estar subliminarmente exposta a dor desse
compositor que sempre conseguiu transformar o seu sofrimento
na mais instigante arte. Que é exatamente o que
os grandes artistas fazem. No final de um disco repleto
de erotismo, como é Cê,
novamente pra nossa surpresa, fechando a tampa desta
caixa de jóias, podemos ouvir o músico
preocupado em questões sociais se manifestando
poética e plenamente.
Mr. Veloso agora
bem que poderia, se quisesse, ser um “godfather”
do rock tupiniquim. O rock é nosso (desculpem
a paráfrase de “o petróleo é
nosso”).
Ah. Dizem que Caetano
anda ouvindo muito algumas novas bandas de rock.
E, a propósito: ainda não li nenhuma declaração
dele dizendo claramente que seu disco é de rock.
Pra mim é. E dos bons.
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Sobre o autor: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
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