13. MERCADOR
16|09|06 • Sentado à imponente mesa de vidro e aço, Sandoval contemplava a sala dispendiosa decorada com modernidade e bom gosto. Um sorriso presunçoso devaneava em seus lábios – sentia-se particularmente satisfeito consigo mesmo naquela manhã e era-lhe impossível não se congratular em silêncio. Afinal, os negócios prosperavam, a procura pelos serviços da agência tinha se intensificado de tal forma que planejava adquirir novas peças em breve, o que para ele significava um prazer a mais.
Orgulhava-se da qualidade da mercadoria que fornecia a seus clientes e todos confiavam que ele sempre lhes mandaria o melhor. De fato. Experimentava cada item pessoalmente, submetia cada uma ao próprio crivo, o mais exigente. O olho treinado era implacável pra detectar detalhes que passavam despercebidos a homens comuns, porque não procurava apenas plástica ou lascívia. Não, para ele era indispensável a distinção, ainda que latente.
Tudo à sua volta ostentava inconfundível aura de refinamento, um reflexo de si mesmo. Era categórico: não havia pecado maior que a vulgaridade e apenas a perdoava em clientes que pudessem supri-la de algum modo rentável, fosse dinheiro, informações ou favores. Quanto aos demais, que correspondessem aos padrões mínimos, principalmente se fossem uma de suas peças de luxo. O acervo de Sandoval era composto dos exemplares mais espantosos, de cores, formas e tamanhos diversos, que tinham em comum as linhas precisas e o acabamento impecável. Brilhantes, sedosos à vista e ao toque, de corte primoroso. Eram intensamente cobiçados pelos clientes famintos e licenciosos, mas constituíam regalo acessível a poucos.
Sandoval sentia quase tanto prazer ao negociar seus artefatos quanto os próprios clientes ao desfrutá-los. Era-lhe inestimável ser detentor de todos aqueles segredos inconfessáveis, tão habilmente disfarçados sob os insuspeitos vernizes de respeitabilidade. Um poder tão excitante que se sobrepunha ao que ele experimentava ao conferir o “estoque”, capaz de produzir-lhe ereção, como naquele momento.
Uma batida na porta interrompeu-lhe os pensamentos. A mulher de fartos e longos cabelos louros entrou pisando confiante nos altos altíssimos e sorrindo amistosamente.
- Bom dia... Vamos repassar as suas agendas?
-
Bom dia, Glória. Você está linda esta manhã.
-
Obrigada, mas não faço mais que a minha obrigação, não? – ela riu.
-É verdade. Mas gosto particularmente quando você usa esta roupa.
-
Eu sei – ela piscou, brejeira e parou defronte a mesa dele, segurando a agenda encadernada em couro nas mãos bem feitas.
-
O que temos para hoje? – arqueou a sobrancelha, insinuante.
-
Material novo chegando, marquei uma averiguação para as dez horas.
-
Quem? – ele cofia o queixo bem escanhoado, pensativo.
Ela consulta o livro.
- Maria Inês e Lisandra.
-
Hum, não são bons nomes.
-
Bom, então você troca, não é? – entrega-lhe dois envelopes – Aqui estão as fichas.
Ele retira o conteúdo dos envelopes e examina as fotos.
- É, talvez. Veremos se estão à altura. – consulta o relógio – Dez horas?
-
Sim.
-
Então temos tempo prum café. – ele sorri.
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Agora mesmo, vou buscar. – ela encaminha-se para a porta.
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Ah, Glória? – ele a detém – Deixe a calcinha por lá, não precisaremos mais dela.
-
Sim, senhor.
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Lívia Santana é editora do www.livinrooom.com.br
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