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*Esta autora escreve neste espaço aos domingos
 

14. SONHE, MENINA

27|10|06 • Ela passou a noite toda caminhando pelo pequeno apartamento. Febril, insone, eufórica, desorientada. Os cabelos estavam arrepiados depois de terem sido alisados e repuxados por dedos tensos, vezes infinitas, durante horas. Tinha aberto a geladeira dezenas de vezes sem, no entanto, procurar nada em especial ou sequer enxergar realmente nada do que tinha lá dentro.

Pelas janelas empoeiradas viu as luzes das ruas e das janelas vizinhas se acenderem e se apagarem, assim como viu a luz do sol chegar. Púrpura, rósea, alaranjada e, finalmente, amarelo intenso. Os pés descalços estavam frios, os nós dos dedos das mãos estavam avermelhados. E o dinheiro descoberto por acaso continuava espalhado sobre a cama, intocado, porém quase vivo, incandescente, pulsante. A boca estava seca, a cabeça dolorida, as unhas e cutículas roídas. E agora?

A maioria das pessoas ficaria felicíssima em encontrar uma grande quantia de dinheiro, livre de impostos e de dramas conscienciais. Porque a maioria das pessoas tem sonhos a realizar e desejos a serem satisfeitos diretamente ligados à riqueza. Ficarão felizes comprando coisas, mudando de casa, abrindo negócios. Mas Rebeca não tinha sonhos, nunca tinha podido se dar ao luxo de fazer planos. E a única coisa a que aspirava não dependia de dinheiro: amor. Só desejava ser amada, protegida, ter com quem contar. Alguém que a visse como pessoa e não apenas como carne. Que dormisse e acordasse a seu lado, sem deixar o pagamento no criado mundo. Alguém que fosse sua família.

Mas este era um sonho sequer acalentado por ela. Com sua realidade, jamais pensava nisso, pois não precisava de motivos que a fizessem sofrer ou que suscitassem frustração com que não podia lidar. E vivia conformada, sem grandes lutas ou ambições, nem sofrimento que fosse além de um gosto amargo na boca, vez ou outra.

Mas e agora? Vivera daquela forma tanto tempo que não sabia mais como ser diferente. Dizia a si mesma: “certo, agora não trabalho mais na rua”. Mas entrava em pânico logo em seguida, porque não sabia como preencher a lacuna que restaria se abrisse mão da sua rotina. Ao mesmo tempo, sabia que se continuasse, talvez ficasse sozinha sempre. E seria uma pena.

Tinha pensado em tudo isso durante a noite febril e agora o dia havia chegado sem trazer com ele nenhuma resposta. Nada de novo. Precisava de ajuda com aquilo, alguém que conseguisse ver a situação por outro ângulo. Mas quem? Beto? Guido? Ah, que saudade de Princesa, era sempre tão prática!

Exausta, encolheu-se no sofá e recostou a cabeça no braço coberto pela manta florida. Ainda era muito cedo, o barulho da rua era apenas um murmúrio. E, embalada pelo ruído incipiente, ela deixou cair as pálpebras lentamente e entregou-se à inconsciência, ressonando mansamente que nem criança.

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Lívia Santana é editora do www.livinrooom.com.br

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