ENCONTROS NA MADRUGADA
Todas as noites, ela saía de casa escondida dos pais, descia correndo as escadas do prédio onde morava em direção à rua. Na esquina, um carro a aguardava. O vidro escuro se abria e, de dentro, uma mistura de sensações: o frio do ar-condicionado com o cheiro de cigarro. Ela tinha 14 anos e ele, 35. Ele tinha bigode, era musculoso e gostava de praticar esportes. Ela cursava a oitava série do Ensino Fundamental, tinha um quarto cor-de-rosa e muitos sonhos para realizar.
Aquele ritual era sagrado desde que se conheceram na academia de ginástica. Ele fazia musculação no mesmo horário em que ela praticava aeróbica na companhia de sua mãe. Na fila do bebedouro, às vezes, seus corpos se encontravam de modo insinuante. Ele, em silêncio. Ela, uma locomotiva prestes a descarrilar.
Ao cair da madrugada, mil borboletas volitavam no ventre da menina. O barulho do carro chegando na esquina a deixava mortificada, aterrorizada e excitada. Ele era o homem de sua vida, o cavaleiro andante a invadir os domínios de seu reino para contemplá-la com algumas carícias. Ele, provavelmente, enfrentaria qualquer soldado armado, fugiria com ela se fosse preciso, mas não deixaria de amá-la.
Sem pedir licença ele alijava suas dores, dava colo e lhe chamava de mulher. O beijo era delicioso, com sabor de perigo. Os músculos de seus braços eram rijos e ela adorava-os, apalpava-os com força. Como ele era bruto! Como ele era gostoso! Abria a porta do carro e sentava-a, como uma boneca, em seu colo; agarrava-a pelo rabo-de-cavalo e a beijava na boca, chupando sua língua. Nunca experimentara algo tão intenso. Ela, de minissaia, sentia-se sexy e adulta. De vez em quando, permitia seu amado percorrer as mãos quentes por suas pernas. Um tapinha em sua mão resolvia a insolência. Não queria, de modo algum, acabar com o clima de mistério que lhe cercava o corpo juvenil.
Certa noite, ao partir, ele deixou um pedido solene no ar:
– Venha de pijama amanhã.
Ela não entendeu:
– “De pijama”, por que isso?
– Quero te ver dormir.
Ela consentiu, mesmo desconfiada. Na madrugada seguinte, o ritual recomeçou: O carro esperando na esquina, o frio do ar-condicionado e o cheiro de cigarro. Ele abriu a porta e, pela primeira vez, deixou ela entrar no veículo. Os dois deitaram-se no banco de trás do carro e ele a beijou no pescoço, deixando-a tensa de tanto desejo. O pijama foi arrancado à força e seu corpo prensado contra o dele. O sangue lhe subiu à cabeça. A dor e a excitação ganharam perspectivas diferentes. Os dois corpos se contraíram e ela gritou de prazer. O orgasmo foi intenso a ponto dela ouvir seus pensamentos:
– Minha menina, minha menina...
Desfalecida, ainda ouviu seu amado dizer:
– Amanhã, te trarei café na cama.
Ela se aconchegou em seu peito e adormeceu. No dia seguinte, bem cedo, foi encontrada na praça, deitada em um banco, ao relento. Seus pais foram chamados pela polícia e levaram a menina ainda entorpecida para casa.
Uma vez recuperada, ela contou, aos prantos, suas aventuras com o homem que conhecera na academia de ginástica. Foi levada ao ginecologista e um mandato de prisão por pedofilia foi emitido pela justiça. A polícia nunca encontrou tal homem e o exame ginecológico revelou que a menina permanecia virgem. Em um depoimento crucial para o caso, um mendigo diria à polícia que, todos os dias, de madrugada, via a adolescente conversar sozinha na esquina perto do prédio onde morava.
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*João Pedro Roriz é escritor é coordenador da Castelo Cultural (UCB) e editor de Cultura do Crôncias Cariocas
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