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jproriz@hotmail.com

» RIO DE JANEIRO, 15 DE MARÇO DE 2007

A espera da morte

Escrevo para passar o tempo, mas em menos de 24 horas estarei morto. Pode parecer estranho, mas sinto-me dotado de tal poder mediúnico, poder esse que antecipa as coisas. Hoje acordei estranho. O mundo me pareceu levemente inclinado para a direita. O quarto estava com os móveis trocados. Aquele banco estava ali ontem? Acho que não. A luz no rosto e a mão da minha noiva acariciando os meus cabelos. Era muito cedo para um boêmio. Eram 10:30 da manhã. Está na hora de irmos, disse ela com aquela confiança inabalável de viver o dia a dia sem senão.

Apesar de levantar sem delongas e tomar um banho breve, o que me libertou das sensações do dia anterior, ainda senti o mundo levemente diferente. Fiquei mudo. Esse cara ainda ta dormindo, disse o meu futuro sogro com um sorriso maroto nos lábios. Sempre achei o seu sorriso avassalador, mas naquele dia, não me surtiu nenhum efeito. Continuei em meu estado de contemplação, sem saber o que pensar e o que dizer. Fiquei confuso, a cabeça pesava, os olhos doíam.

Deixaram-me de carro na rodoviária para eu pegar um ônibus para a minha casa. Tive a sensação de que algo aconteceria ali. Seria possível que um acidente pudesse me vitimar sem dores ou sofrimentos? Na janela pensei em meus entes queridos. Fiz força para chorar, mas nem isso eu consegui.

Pensei automaticamente em minha noiva, que vive atormentada com as minhas histórias noturnas sobre fantasmas e assombrações. Não sei do que você tem medo, eu já lhe disse envolto por suas gargalhadas nervosas; todos nós morreremos! E eu fatalmente morrerei primeiro do que você. Não me vejo vivo aos quarenta anos de idade. Cala essa boca e não fale besteira, ela sempre me diz séria, interrompendo o fluxo das risadas. Você não vai morrer nunca!

Ao lembrar dessa história, dei uma gargalhada chamando a atenção de todos os outros passageiros dentro do ônibus. Apesar dela ignorar esse fato, eu praticamente tenho certeza de que não passarei dos quarenta. Dentro do ônibus, pensei que talvez nem mesmo dos trinta; afinal, já vivi muita coisa boa e ruim nesses meus 23 anos. Continuei lembrando da conversa com a minha noiva. Resolvi lhe provocar: E se eu morrer amanhã e voltar como um fantasma para falar com você? Ela nem pensou ao responder: eu sairia correndo. Mas eu não sou o grande amor da sua vida? Sim, ela respondeu, mas depois de morto passa a ser assombração. Teu mundo não seria esse e eu só poderia me encontrar com você lá no céu.

O céu me parece ser um lugar bem chato. Acho que eu daria uma passadinha no umbral para tomar umas cervejinhas, comer um espetinho de gato e jogar conversa fora. A viagem de ônibus era longa e deu para refletir bastante. A morte nunca me assustou. Na verdade, as palavras de minha noiva se tornaram retumbantes em meus ouvidos: “teu mundo não seria esse”. Acho que meu mundo realmente não é esse, acho que o meu mundo está a alguns anos-luz daqui. Talvez em uma estrela longínqua, talvez em algum cometa. Talvez, dentro de mim mesmo, ou apenas num prato de macarrão. Sim! Afinal, muitas vezes, basta um pouco de comida para se recuperar o bom humor – e eu ainda nem tomei o café da manhã!

A vida seguiu em frente com a intensidade de um último dia de vida. Beijei todos que eu queria e troquei algumas confidências. Escrevi uma carta de amor, escrevi o meu testamento e agora me vejo sentado em minha cadeira predileta escrevendo essa crônica. A morte poderá chegar a qualquer momento através de uma situação inevitável. Talvez nem precisarei ver o sol nascer: bastará que uma das minhas milhares de micro veias estoure na minha cabeça. É certo que nada farei com as próprias mãos. É muito cruel ser um mero títere nas mãos do destino. Caso nada aconteça, viverei normalmente os dezessete anos que provavelmente me restam, sempre na eminência de que um dia a morte me visite com a mesma naturalidade e alegria com que cheguei a esse mundo estranho.

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*João Pedro Roriz é escritor é coordenador da Castelo Cultural (UCB) e editor de Cultura do Crôncias Cariocas

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