A Sedução da Literatura
Tristão tinha que morrer?! Não gostei... Isolda amava aquele homem e levando em consideração os atores que sempre interpretaram o seu amante – sempre muito bonitos, de corpos esculturais, – ouso dizer que qualquer paixão adolescente se fundamenta. E a Julieta, o que dizer dessa mocinha de família? Conheço várias Julietas que vivem em busca do amor perigoso, aquele que arde quando inflamado e depois purga lentamente em direção à morte. Acho que o meu primeiro amor foi assim. Eu era um Romeu desavisado de minha ingenuidade e passei a amar a Juju que morava em frente a nossa casa. Mal sabia que a mãe da garota tinha uma tia cuja vizinha odiava o primo em segundo grau do cunhado da minha mãe. Bastou isso para me impedirem de namorar a pobre princesa tebana, que como Sêmeles ardeu em profundo desespero.
Por falar em Sêmeles, essa daí me deu até desgosto. Que mulherzinha burra! Amou Zeus com todo o fervor, mal sabendo ela que o rei dos deuses do Olimpo tinha amantes a dar com o pau. Não ligando para isso, a jovem princesa comeu o coração de Zagreu para engravidar de Iago, o futuro Dioniso. Hera, mulher de Zeus estava de olho e tramou de acabar com a brincadeira do marido: transformou-se na ama da princesa e a convenceu de que seu amado tinha que se apresentar para ela em forma de raios e trovões. Não deu outra, a princesa morreu carbonizada.
A mitologia se apresenta como uma espécie de mãe da literatura ocidental. Quem gosta de ler o velho testamento, lá vai uma bomba: algumas histórias não passam de meras repetições dos mitos gregos. Quer ver? Adão amava Eva, quando uma cobra ofereceu a maça que os expulsou do paraíso... Muito parecido com o mito de Deucalião e Ipiza, dois únicos sobreviventes de um maremoto que afetou o mundo antigo segundo a mitologia helênica. No caso desse último casal, não rolou maçãzinha do pecado, mas em compensação eles precisaram dar origem a todos os seres humanos da Terra (nós!) jogando pedras por trás dos ombros. Fico imaginando a cena: “ui amor, sua pedra é tão grande... joga mais devagarzinho, senão machuca”.
Carmen, a mulher que nunca amou ninguém traiu o pobre Don José com o toureiro Escamillo e quem se deu mal nessa história foi a pobrezinha da Micaela, que amargou a solidão. Don José mata Carmen e o último ato se encerra numa grande tragédia. Por que sedução, paixão animalesca muitas vezes é confundida com o sangue trágico das grandes veredas literárias? Não sei... a única coisa que sinto é uma saudade perturbadora da minha garota que agora está longe de mim e parece que utiliza a distância para machucar... ou seduzir! Talvez porque ela saiba que quando a vir, serei o melhor de todos os homens, sem perdas de tempo.
É, amigos... essa crônica não tem fim, vou pegar um bom livro e continuar revivendo antigas histórias de amor.
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*João Pedro Roriz é escritor é coordenador da Castelo Cultural (UCB) e editor de Cultura do Crôncias Cariocas
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