Outro dia, no supermercado
Essa semana, fui a um grande supermercado no Largo do Machado e havia dois músicos, um tecladista e um saxofonista tocando jazz. O som era bom e todos pareciam felizes com novidade de se fazer compras com fundo musical.
Os artistas possuem um imã que, impreterivelmente, atraem mais artistas. É um mistério de Baco! Percebi que as pessoas estavam incomodadas com algo. Todos olhavam com um certo nojo para uma mulher esguia, de cabelos longos e brancos, com sobrancelhas pintadas e extremamente magra, que dançava no saguão. Seu pescoço ia e vinha e as mãos esqueléticas repousavam na cintura como quem segura o corpo para não cair.
Os músicos riram e continuaram o seu show. A bailarina, visivelmente constrangida pela abdução artística que seu espírito lhe empunha, tentava não dar atenção aos olhares alheios e continuava a remexer o seu corpo com uma dinâmica nada tradicional. As pessoas, que antes trabalhavam ou faziam compras sem se importar com a música, agora execravam a falta de modéstia da dançarina. Confesso que participei desse mesmo sentimento, mas depois me arrependi.
A bailarina, não agüentando mais os olhares de reprovação por tamanha indecência, finalmente cedeu: sem perder a pose, caminhou até os músicos e agradeceu-os. Disse que gostava muito de música, que fora bailarina de diversos musicais e que agora não exercia mais a profissão. Os músicos não lhe responderam com palavras, apenas gesticularam com a cabeça, constrangidos. A mulher insistiu em conversar e ressaltou que as pessoas não estavam aprovando a sua atitude de dançar no saguão do supermercado e que, por isso, pararia de dançar e voltaria a fazer as suas compras. Os músicos novamente gesticularam com a cabeça, loucos para se livrar da mulher, que foi embora.
Os músicos voltaram a tocar - aliviados por se verem livres da responsabilidade social de serem educados. Teceram comentários maliciosos a respeito da bailarina e tudo voltou ao “normal”. Os funcionários do supermercado voltaram a trabalhar e as pessoas, a comprar. A vida seguiu em frente após a breve interrupção da bailarina e ninguém mais ousou tocar naquele assunto.
Sai do supermercado frustrado. Sabia que tudo estava errado. Supermercado não é um lugar para músicos, mas se há músicos num supermercado, por que não haver bailarinos também? Ninguém reclamou do estímulo auditivo impetrado pelos músicos, mas todos se incomodaram com a pujança corporal de uma senhorita feia no meio do saguão.
Pensei: é mais fácil gostar de música e preterir a dança, pois a música está ligada diretamente ao nosso senso comum. Todos cantam, assobiam e isso é ótimo para acabar com o tédio. Mas dançar é algo que pouquíssimos podem compreender. E a dança contemporânea aguça sentidos que mexem diretamente com o paradigma humano. Certos movimentos corporais não são aceitáveis pela sociedade, pois não são confortáveis de se executar. Talvez por isso, Nijinsk fora tão criticado logo em suas primeiras performances, antes de ser reconhecido como um deus do Ballet mundial.
Todos dentro do supermercado indagamos com o mesmo pensamento mesquinho: “por que essa mulher está fazendo isso no meio do saguão? Para chamar atenção? Ela não pode estar sentindo prazer em mexer o pescoço daquela maneira”.
Com calma, pensei que a arte é uma ciência social inefável (não se pode sentir), somente executar. Todos os espectadores sensíveis purgam sentimentos através da arte. Isso se chama Catarse, que Aristóteles tão bem descreveu em sua brilhante obra “Arte Poética”.
Os músicos foram meros coadjuvantes naquele supermercado. A estrela principal daquele dia foi a bailarina, que hoje habita o inconsciente de todas as pessoas que assistiram àquela cena inusitada.
Doravante, todas aquelas pessoas buscarão varrer as intempéries do tédio mexendo o pescoço, pois isso não será mais vergonhoso... será uma moda experimentada. Mesmo que isso aconteça em um saguão de supermercado, ninguém mais prestará tanta atenção.
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*João Pedro Roriz é escritor é coordenador da Castelo Cultural (UCB) e editor de Cultura do Crôncias Cariocas
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