A TROCA DE VALORES (parte 4)
O menor e o crime - Noção de valores em uma criança - Os adultos ensinam aos jovens
O amor a pátria, primeira prerrogativa do jovem - O cidadão, a cidadania
A jovem pára seu carro no sinal. Aproxima-se um menino de seus onze a doze anos. Ela pensa que é um desses garotos malabaristas com bolinhas. Ele encosta na janela e ela desce o vidro da porta. Aí, surge na mão do menino um revólver.
- É um assalto - diz ele -, passe a grana!
Suas mãos estão trêmulas. O dedo no gatilho. Sua voz soa ameaçadoramente.
- Vai morrer...
A
jovem pega a bolsa, com calma, enquanto diz.
- Calma, menino... Vou te dar meu dinheiro numa boa, tá legal? Não fique nervoso que eu vou fazer como você quer, tá? - E lança um sorriso, meio carinhoso meio medroso.
Antes que a moça possa abrir a bolsa o menor toma-lhe da mão e ruge.
- Se manda!
Sem pestanejar, a jovem arranca, quase avançando o sinal. O garoto atravessa a rua olhando para ambos os lados, enquanto sua mão penetra na bolsa a procura de valores.
E assim é quase todo dia nas grandes cidades. O império do crime já não é mais restrito aos famosos bandidos, formados por grandes marginais adultos.
Os menores, sem prática do crime, empunham armas sem o mínimo conhecimento, sem o menor senso de valor à vida ou seja lá o que for. Para eles matar ou morrer não tem significado nenhum. O fato de uma família chorar um ente querido morto com um tiro em um assalto não tem o mínimo valor emocional para um delinqüente menor. Se ele tiver que matar alguém, o fará, sem o menor remorso. Não está preparado para sentir ou ter remorso. O alvo é apenas um estranho. Apenas um obstáculo aos seus anseios. Mata por matar. É só uma questão de momento. E como não há neles o menor sentido, o menor sentimento, o menor conhecimento de suas ações perante a sociedade, atiram ao menor movimento suspeito.
Quantos inocentes já morreram assim nas mãos deles? Então, não há lugar capaz de recuperar esses pequenos marginais forjados à margem da sociedade, com sofrimento, desilusão, desconhecimento de causa, desajuste financeiro e social, pais geralmente de índole má, que já tiveram também uma infância ruim, uma juventude desequilibrada e árdua. Esses pequenos infratores da lei não irão se recuperar nessas “febens” da vida, pelo contrário, sairão piores ou já formados para o crime, além de uma revolta tamanha que não há como medir. O que os menores passam dentro dessas instituições não é coisa de Deus. Cabe as autoridades endireitar essas instituições de recuperação ao menor com mais espaço físico para que não se amontoem um em cima do outro com super lotação; dando mais assistência técnica, psicológica e financeira; gerando e formando empregos, educando e formando cidadãos; ensinando ao jovem infrator a diferença do certo e o errado, o bem e o mal. Não é punir, castigar, maltratar... É dar ao jovem infrator uma segunda chance de recuperação com respaldo e proteção. - Aí você diria: “Proteção?... Como se pode proteger alguém que mata, que rouba, que estrupa?... Quem precisa de proteção é o cidadão honesto que sofre o ataque deles...” É verdade. Nesse aspecto não há a menor dúvida. O que se trata é o fato de que esses pequenos infratores precisam ser protegidos da mão criminosa que poderá levá-los de volta ao crime e usá-los para matar e roubar. Essa mão é definida como aqueles que os corrompem mais ainda dentro de uma dessas prisões de recuperação, outra mão é aquela que expurga o jovem recuperado da sociedade, negando-lhe o direito ao trabalho; de conviver com os familiares sem estar expostos ao perigo de morte, rivalidade, vingança e acertos de contas. Se analisarmos bem uma criança de dez anos, se formos lhe perguntar sobre os valores da vida, ela não saberá responder com segurança e eficácia. Não sabem direito a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, o bom e o mau. Muitos criados em favelas têm o bandido como herói e o policial como vilão. Nós, adultos, já não temos muito esses valores, estamos de vez em quando tropeçando em nossos próprios preconceitos e desrespeitos. Às vezes trocamos os valores de nossos conhecimentos.
Cometemos erros que não desejamos, deixamos de cumprir certos deveres por omissão. E até cometemos pequenos delitos por prazer. Infelizmente, nós adultos, nem sempre temos o controle da situação, nem sempre fazemos o que é direito e erramos - imagine uma criança. Se falarmos de uma criança nascida em uma favela, criada no meio de tantas outras pessoas, por si só já sofridas, gente super-pobre, muitos desempregados ou com vida incerta. Essa criança cresce vendo cenas de morte em brigas por conta de drogas. Acostumada a ver pessoas caídas em valas, crivadas de balas. Ver pessoas correndo em fuga e perseguição. Ouve tiros todo dia. Isso sem falar de sua própria vida sofrida, passando fome e necessidade. Sem direito a uma escola, a educação. Mais tarde, quando menino, oito, dez, doze anos, empunha uma arma e atira numa pessoa qualquer por um motivo qualquer e, aí, é preso, ele olha ao redor e com a cara mais simples pergunta: “Ué?... Por que estou sendo preso? Não fiz nada de mais... Isso é tão normal... Todos fazem...” Pode ter um pouco de exagerado. Mas, é possível que nas mentes dessas crianças esses valores estejam trocados e eles pensem assim mesmo. Matar é comum.
Há também casos de menores que são induzidos ou levados ao roubo e a outros delitos por influência de terceiros. Um dos fatores que levam crianças à violência são muitos programas de televisão inadequados para menores e exibidos em horários nobres e de forma irregular: filmes, novelas, casos policiais e programa de auditórios que apresentam um teor altíssimo de violência. Até desenhos animados que deveriam ser próprios aos olhos de inocentes crianças, são feitos com enredos fortes e cenas de morte. É lógico que não são todos. Há muita coisa boa no mundo da arte cênica. Cabe aos pais “policiar” seus filhos, evitando assim que eles tenham acesso a programas proibidos ou violentos.
O aliciamento à menores, o envolvimento e participação no tóxico em escolas públicas e particulares é outro meio de violência. A cada dia se ouve falar de casos violentos em escolas e o noticiário em jornais, rádios e canais de televisão estão cheio de casos de morte, vício e outros absurdos. Os pontos de venda de entorpecentes estão cada dia mais incrustados nas portas de escolas e ginásios de nossos adolescentes e, as vezes, até dentro da própria escola. É necessário que as autoridades competentes, juntamente com as diretorias dessas escolas, revejam o processo de segurança, ampliando e melhorando a forma de se proteger pontos estratégicos na redondeza. Quantos alunos são levados ao submundo do tóxico desde pequenos e quando se descobre, eles já estão afundados na lama e sua saída é quase impossível, e as vezes até penoso para a família. Quantas destas famílias vêem seus filhos levados à loucura, chegando até ao absurdo de roubar seus lares, seqüestrando bens da família para alimentar seus vícios, chegando até ao cume do ilógico e matam pai, mãe, avó, irmão - como já vimos muitos casos por aí -, e qualquer um que se torne um obstáculo aos seus intentos. É preciso que os pais conversem mais com seus filhos e os orientem profundamente sobre esse inferno que é a droga. Se possível, até, com ajuda de instituições peritas no assunto.
Se juntarmos uma dúzia de homens de meia idade e perguntarmos a eles como foram suas vidas aos dezoito anos, precisamente sobre o serviço militar, seja em qualquer arma, a maioria falarão orgulhosos de sua passagem por lá. Pois servir à Pátria é para a maioria um orgulho e não uma obrigação de cidadão. Todos deverão lembrar com saudades de algum acontecimento importante em sua época ao servir.
Acredita-se que hoje seja diferente. A maioria de jovens na idade de se apresentar ao serviço militar, desejam a dispensa, seja lá qual for a desculpa, eles preferem não “sentar praça”. É um pouco compreensível, apesar de muitos querer a carreira militar, pelas dificuldades encontradas aqui fora. Há cursos de sargento e de oficial para as três armas. Todos aqueles que procuram esses cursos têm em mente um lugar assegurado, um emprego garantido. Se diria: mas os jovens não têm orgulho da Pátria? Não serviriam única e exclusivamente por amor? Não seria justo pensar que essa é a primeira prerrogativa de todo cidadão jovem em idade de servir?
Se diria que não. Não nos dias de hoje.
Muitos jovens, reservistas ou não, procuram o Corpo de Bombeiros ou a Polícia Militar e se inscrevem, submetendo-se a seguir à prova. Quando chamados, cursam, se preparam e se formam soldados. Muitos por não acharem um meio melhor de ganhar a vida, entram assim no verdadeiro risco de vida para o sustento próprio ou de seus familiares. Isso veremos mais adiante.
O cidadão, o verdadeiro cidadão, aquele que se dedica de corpo e alma por sua cidadania, aquele que luta diariamente no seu trabalho, seu emprego, levando para casa a troca de seus valores pessoais, profissionais, intelectuais e artísticos, para alimentar, vestir e cuidar do bem pessoal de seus entes queridos, sejam: esposa, filhos, enteados, pais, irmãos ou netos. Tudo que possa fazer para seu bem-estar.
Paga seus deveres com o Estado através do serviço militar, os impostos descontados de seu, na maioria, pequeno salário. Caminha com orgulho, sabendo que cumpre seus deveres com seus princípios morais, com a sociedade. E esse cidadão nem sempre tem o respaldo, a proteção ou a segurança que lhe são devidas pela sociedade.
Não tem mais a liberdade de ir ou vir tranqüilamente nem mesmo em seu bairro, onde mora há quase toda sua vida.
É, quando precisa, repudiado por autoridades, instituições, hospitais e serviços públicos mau administrados.
Vítima de uma sociedade falida e um governo inoperante, onde seus titulares e seus subordinados ficam a trocar farpas e espinhos, deixando de lado seus verdadeiros ofícios que é cuidar do bem-estar do povo. Sem que para isso tenham que cumprir seus tão pré-falados compromissos de campanha com o eleitor, pois suas promessas não é nada mais ou nada menos que sua obrigação nata de governantes que são.
A verdadeira cidadania deve começar de cima e deveria ser de lá o exemplo, a eficácia de seus atos de cidadão teria que ser cobrada pela sociedade em forma de fiscalização de uma junta popular com poderes dados pelo próprio governo, a fim de comprovar seus atos e sua idoneidade nos casos de fraude ou corrupção.
A verdadeira cidadania não é prerrogativa de uns e sim de todos os homens de bem.
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*Continua
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