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» NITERÓI, 19 de agosto DE 2008

MEU REINO POR...


É famosíssima a frase: “Meu reino por um cavalo!”. Referências históricas e literárias à parte, essa expressão me leva a imaginá-la adaptada a outras situações e contextos.

Perdido no deserto, quase cego pelo brilho do sol implacável refletido nas areias escaldantes, com a garganta ressequida perto de só poder emitir os sons dos estertores da morte, sussurra o viajante: “Meu reino por um copo d’água!”.

A mulher ou o homem, traídos por quem nutrem uma completa, irresistível, avassaladora, sofrida, incontrolável paixão, exclamam: “Meu reino por um amor verdadeiro!”.

O homem gordo, acostumado às refeições pantagruélicas, devorador de sanduíches, entupido de massas, carnes, doces e tudo o mais com que pode aplacar sua gulodice, mas, neste momento, atacado por uma alucinante dor de barriga, grita enquanto procura: “Meu reino por uma privada!”.

A mocinha ousada, de pai severo, angustiadíssima e desorientada frente à falseta que lhe faz a menstruação, fala, baixinho e chorando: “Meu reino por um resultado negativo!”.

O camarada que, para seu trabalho, depende inteiramente do computador, e já imagina ter perdido todos os arquivos importantes, antecipando até a possibilidade de demissão, e culpando-se por ser descuidado, geme batucando nervosamente no teclado: “Meu reino por um antivírus!”.

O garoto, gazeteiro contumaz, que a dedicar-se um pouco mais ao estudo prefere o cinema ou a pelada na esquina, voltando para casa com o boletim cheio de notas baixas, vai murmurando: “Meu reino por uma mãe e um pai compreensivos!”.

O motorista, com o carro enguiçado na estrada deserta e chuvosa, num lugar perigoso e envolvido pela noite escura, combina raiva com súplica, dizendo: “Meu reino por um socorro que chegue rápido!”.

Já percebeu o leitor o que têm em comum essas situações imaginadas: desejamos muito, mas dependemos de muito pouco.

Encastelados em nossa arrogância, sentados em montanhas de dinheiro, vaidosamente aboletados na fama, pensamos que nada será capaz de nos atingir; que é preciso grandes desgraças, imensas tragédias, furacões existenciais ou fúrias terríveis do destino para nos abalar ou derrotar.

Pois não é nada disso. Como vimos em tais situações, acabamos por depender de uma coisinha que, naquele momento de maior necessidade, não está disponível, não podemos ter à mão, conquistar ou comprar. Por mais que gritemos, queiramos, exijamos, não se oferecem à nossa necessidade, ao nosso desejo ou à nossa vontade.

Podemos imaginar um número imenso de situações semelhantes, nas quais coisas simples, muitas vezes pequenas, baratas e até normalmente fáceis de conseguir, parecem inatingíveis, a ponto de estarmos dispostos a trocar tudo o que temos para obtê-las.

Essas coisas podem ser materiais - e muitas vezes prosaicas - como um fósforo, um frasco de repelente, um alfinete, um casaco de frio, uma cama macia, uma cadeira confortável.

Podemos também necessitar de coisas intangíveis, que o dinheiro não compra, o poder não conquista, como um abraço, um beijo, um afago, uma palavra ou um gesto amigo. Ah, que desgraça quando temos tudo menos essas coisas tão humanas!

Confesso-lhe, caro leitor, que estou quase sempre tentando trocar meu reino por umas poucas, boas e essenciais coisinhas. E você?

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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