» ARQUIVOS |
» Ir para Crônica atual »
» Crônicas anteriores »
» Contato: carino10@yahoo.com » Outros textos: Contos | Poesias |

*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 29 de JULHO DE 2008

SEJAMOS GENTIS COM AS COISAS


É comum e ideal sermos gentis com as pessoas e com os animais. Por que não estender essa gentileza às coisas?

Por “coisas”, quero me referir aqui aos objetos, utensílios, instrumentos, tudo, enfim, que está no mundo, e possibilitando nossa vida nele. Mais especificamente falo das coisas que denominamos “inanimadas”, talvez apenas a partir de uma certa arrogância dos humanos.

Por que bater portas, fazendo delas um objeto de nossa indignação? Elas é que nos permitem chegar e sair de lugares, oferecendo docilmente sua abertura. E mesmo quando nos impedem a passagem, cumprem seu papel com dedicação.

As roupas nos cobrem, agasalham, bem como satisfazem nossa vaidade. Por que amarfanhá-las, rasgá-las, usá-las com desleixo, deixá-las sujas? Precisamos retribuir a carícia de uma roupa macia e a gostosura de uma vestimenta cheirosa.

Nossos sapatos passeiam nossos pés pelos caminhos da vida, protegendo-os à custa da pobre sola e de um castigo no couro, que já foi, não nos esqueçamos, a pele de um animal dócil, pacífico, curvado com generosidade às exigências humanas.

As canetas são mediadoras da maravilha da escrita, este passaporte para o contato com os outros. Então, por que atirá-las e mordê-las, quando desejam apenas deslizar pela superfície onde escrevemos, no bendito sacrifício de esvaírem sua tinta sobre o papel quando grafamos palavras geniais ou simplesmente baboseiras?

Telefone: outra conquista genial na saga humana pela comunicação. Mas, como sofrem, os fixos e os celulares, quando batidos ou jogados, como inocentes vítimas de nossa raiva ou falta de paciência!

Mesmo as mesas, generosos suportes sobre os quais apoiamos os sacrossantos presentes da comida e da bebida, sofrem quando as socamos ou riscamos. E as próprias toalhas, que forram, protegem e garantem a higiene, muitas vezes sofrem a ingratidão da sujeira e dos rasgados.

O sal, essa dádiva que se dissolve nos mares e, na simbiose com o sol, acaba servindo para temperar nossos alimentos e, portanto, nossa vida, vai parar em saleiros, como aqueles de restaurantes, onde já os vi sendo sacudidos desnecessariamente, ou batidos nos balcões e mesas, como dóceis instrumentos de tola falta de calma, sobretudo quando a ação inexorável da umidade dificulta a saída do conteúdo.

E o automóvel, essa máquina espetacular, que tanto serve ao nosso conforto e às nossas necessidades de transporte ou vontade de passear, quanto ao piloto de corrida que habita dentro de nós? Sofre também, coitado. Portas batidas com força; pedais não adequadamente pisados, mas pisoteados em descontrole; latarias feridas com os amassados causados pela distração; falta de limpeza; manutenção inadequada.

Pouco nos custa sermos gentis com as coisas. Dobrar com espero; limpar com cuidado; manipular com atenção; evitar transformá-las em meios ou instrumentos de ações para as quais não foram planejadas e construídas. Agindo assim, teremos, diante de nós, a alegria das coisas. Elas brilharão, ficarão mais macias, de mais fácil utilização, mais cheirosas, talvez mais leves até. E nos oferecerão sua melhor utilidade, além de nos recompensar com maior durabilidade.

Dizer que todas as coisas têm sua importância é sem dúvida lugar comum. Mas será que lidamos, de fato, com elas tendo isso na devida conta?

Pense, prezado leitor, se você age assim, sendo gentil com as coisas. Sugiro que comece fazendo seu próprio inventário de coisas, e observando o tipo de atenção e gentileza que cada uma merece.

Lembre-se de que o mundo em que vivemos só é humano porque está povoado de artefatos que os humanos idealizaram e construíram. E saiba que esse mundo será tanto mais humano quanto soubermos ser gentis com as coisas.

  • .................................................................................................................................................................................
    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


Capa | Topo

 
 
+ Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Luz & Sombras | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Festival do Rio 2008 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Moda | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's & Fanzine | Infantil | Infantil| Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise - Joaquim Palmeira | Oise - Wilmar Silva | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais | TvCB.
2006/2008 © SCB - Sistema Crônicas Brasileiras de Radiodifusão Ltda -. Todos os direitos reservados.