SOB A LUZ DO POSTE

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Tínhamos por aí nossos doze, treze anos, e era sob a luz do poste que tudo acontecia. Meninos querendo virar adolescentes, era sob aquele halo de luz de um poste de subúrbio que construíamos nosso mundo de relações, conspirando contra o mundo dos adultos, mas doidinhos para entrar nele.
Todos tiveram seus lugares de reunião, sobretudo nessa fase da vida: esquinas, cantos de praça, portões de vila, lugares assim, onde os grupos se reuniam para confabular, tramar ou simplesmente para contar lorotas, seja sobre o desempenho na última pelada, ou para inventar histórias sobre as meninas, igualmente peladas, mas no sentido literal da palavra.
Nós tínhamos nosso poste, com sua luz. Não era dessas luzes halogênicas de hoje, que parecem clarear até a alma. Era aquela luz amarelada, a tal “luz da Light”, parte de um mundo ainda bem menos iluminado artificialmente que o de hoje.
Nesse tempo, a TV, apenas chegando, ainda não roubara – sobretudo nos subúrbios – o papo com cadeiras na calçada. O rádio, ainda maioral, até podia ser ouvido lá de fora, do portão. Era um grande eco, reverberando o som de vários rádios da vizinhança, o que se ouvia, por exemplo, nas tardes de domingo na hora dos gols. As novelas radiofônicas não exigiam que a gente se refestelasse nas poltronas: era suficiente apenas ouvir as vozes inconfundíveis dos heróis, das mocinhas, dos vilões, das heroínas. Bastava apenas o milagre da imaginação, escutando-se muitas vezes de longe.
A luz do poste nos iluminava os corpos e as incipientes idéias sobre as pessoas, as coisas, o mundo. Iluminava nossas olheiras indicativas de masturbação; lançava luz sobre os primeiros fios de barba, ainda uma penugem mas já exibida com orgulho perante os companheiros.
Debaixo da luz daquele poste, sofremos a dor do primeiro amor não correspondido, ou comemoramos a vitória na conquista da primeira namorada.
Sob a luz mortiça, nos reuníamos para exercer aquela maledicência muito mais barulhenta do que realmente maldosa. Também para contar as piadas pesadas, só toleradas nesse território livre sob o poste.
Era ali, nesse cadinho formado por tantos pensamentos confusos, conversas estapafúrdias, opiniões insustentáveis e planos temerários porém irrealizáveis, que começavam a se formar nossas primeiras convicções políticas, as quais, para alguns de nós se tornariam motivo de cruel repressão alguns anos mais tarde.
Debaixo da luz de nosso poste, combinávamos muito e cumpríamos pouco. Rememorando, agora, creio que alguns, mais tarde profissionais de sucesso, já demonstravam que conseguiriam realizar, pelo menos uma ínfima parte dos projetos grandiosos que defendiam, quase sempre diante das manifestações de ceticismo ou, às vezes, frente ao deboche aberto, o que não raro levava a brigas, que não tinham grandes conseqüências, senão a criação ou o aprofundamento de divergências, e a formação de grupos rivais, mas tudo isso sempre passageiro, com as reaproximações acontecendo numa partida de futebol ou num encontro nos clubes, e em seus bailes, que também logo depois começaram a acontecer.
Evidentemente, não falo de tempos idílicos. Já nessa altura as dificuldades que se mostrariam daí a pouco no horizonte – como a preocupação de nossos pais com nossa carreira ou profissão, o primeiro emprego – começavam a se introduzir em nossas conversas sob a luz do poste. Porém, pelo menos ali, entre nós, e creio que quase em todos os lugares, o fantasma aterrorizante das drogas, que traria pelo braço a violência generalizada de hoje, ainda não assombrava e desgraçava a vida das pessoas, das comunidades, das cidades.
O poste ainda está lá, ereto, sustentando seu emaranhado de fios, com uma luz que, hoje, ilumina mais a rua, que já tem, de há muito o benefício do asfalto. Porém, para mim, o melhor é que ele está fincado fundo no terreno da memória, iluminando lembranças tão marcantes, tão queridas.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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