» ARQUIVOS |
» Ir para Crônica atual »
» Crônicas anteriores »
» Contato: carino10@yahoo.com » Outros textos: Contos | Poesias |

*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 8 de JULHO DE 2008

O RELÓGIO DE PÊNDULO


Eu era menino, naquele tempo da vida em que a realidade se chamava sonho. Aguardava, ansioso, o período das férias escolares, que me traziam a indescritível felicidade de ir passar esse mês na roça.

A viagem, de trem, durava um dia inteiro. Depois de sacolejar pelo frio da serra quilômetros e quilômetros, chegávamos à entrada da cidadezinha, que parecia esconder-se de propósito no nevoeiro para aumentar o mistério e o tom de aventura em minha cabeça de garoto da cidade.

Lembro de tudo, com detalhes. Porém, a lembrança mais nítida talvez seja a do relógio de pêndulo no fundo do corredor da casa de meu tio-avô Miguel.

Saltando do trem, e depois da pequena caminhada pelo frio cortante da noite, era gostoso entrar na casa modesta, acolhedora, com aquele quentinho que só pode ser dado pela temperatura do afeto.

Depois dos abraços, beijos, comentários da Vó Ana – Como está crescido esse menino, meu Deus! -, e do afago na cabeça feito com o jeitão bem menos expansivo do meu tio-avô, com seu chapéu de feltro preto, que fazia ressaltar mais ainda o bigodão branco, sempre me parecendo igualzinho ao dos pais das mocinhas de filmes de Hollywood, eu ia ver de perto o relógio de pêndulo.

Chegava, devagar, ao fundo do corredor, que as táboas corridas davam-me a impressão de ser mais longo do que era. E ficava ali, reverente, vendo a imperturbabilidade daquele pêndulo, que fazia a vida reduzir-se a um para-lá, para-cá.

Ralph Louis Stevenson, autor do genial “O Médico e o Monstro” tem uma frase, lida muito mais tarde, que me marcou para sempre: “Os espíritos serenos não ficam perplexos nem assustados. Ao contrário, prosseguem na sua marcha, na ventura como no infortúnio, como o tique-taque de um relógio durante uma tempestade”.

Naqueles meus encontros anuais com o velho relógio de pêndulo, eu ainda não tinha, claro, nenhuma noção dessa serenidade tão maravilhosamente expressada na frase de Stevenson. Apenas ficava ali, absorto, quieto e fascinado pelo relógio, com sua caixa de madeira escura, seu vidro bisotado através do qual via o pêndulo, e os arabescos no alto da caixa e em volta do mostrador.

Chegávamos de viagem sempre bem tarde. Por isso, eu ouvia as batidas, num ano das dez horas, noutros a pancada isolada das dez e meia. Houve um ano, lembro-me bem, em que a chuva atrasou tanto a viagem que, quando chegamos, corri para ouvir aquele som inconfundível, associado literariamente aos medos, angústias e desesperos, das badaladas da meia-noite.

Foram-se todos: minha avó Ana, sempre sorridente, ágil, magrinha, providenciando tudo, e ainda encontrando tempo para me desafiar com adivinhações; meu avô Miguel, com seu bigode e chapéu de feltro preto; a casa, demolida pelas picaretas do progresso; minha meninice, que já foi acompanhada de há muito por minha juventude... E aquele relógio, aonde terá ido parar? Eu nunca soube.

Mas hoje, quando essa confusão cotidiana, esse nervosismo entranhado em todo mundo, essa loucura operativa do progresso me assaltam, paro, fecho os olhos e contemplo com o olhar da alma o velho relógio que tenho, em lembrança, diante de mim. Ouço suas badaladas lentas, profundamente sonoras. E, sobretudo, acompanho os movimentos vagarosos, precisos, elegantes, do pêndulo.

Então, as tempestades da vida podem rugir à vontade. Esse eterno, inigualável e amoroso relógio interno prossegue na sua marcha, ajudando-me a buscar e manter a serenidade.

Saibam, prezados leitores, que não preciso de Freud para me explicar porque, hoje, depois de tantas badaladas e movimentos de pêndulo de minha vida, tenho, nas paredes de minha sala dezenove relógios de pêndulo. Todos antigos, todos funcionando. Nenhum igual àquele da minha infância, mas cada um deles me trazendo, a seu modo, uma gostosa mensagem do passado, quando, no fundo de um corredor pouco iluminado, meu corpo e meu coração de menino, tinham um encontro marcado com o mistério do tempo.

  • .................................................................................................................................................................................
    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


Capa | Topo

 
 
+ Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Luz & Sombras | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Festival do Rio 2008 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Moda | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's & Fanzine | Infantil | Infantil| Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise - Joaquim Palmeira | Oise - Wilmar Silva | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais | TvCB.
2006/2008 © SCB - Sistema Crônicas Brasileiras de Radiodifusão Ltda -. Todos os direitos reservados.