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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 1 de JULHO DE 2008

PROMETO QUE...

Vivemos fazendo promessas, tanto aquelas que fazemos só para nós quanto as que revestimos com a cumplicidade dos outros, que se tornam depositários, parceiros e testemunhas de seu cumprimento ou de nosso fracasso em cumpri-las. E esses “outros” podem ser de carne e osso ou seres imateriais, como por exemplo os santos, que ficam aí de plantão para nos servir de arrimo nessas nossas decisões “definitivas”.

As promessas dos fumantes e dos beberrões são clássicas.

Os que bebem demais, atingidos pela vergonha e conscientes do mal que causam, sobretudo aos outros, prometem com freqüência dar adeus aos copos, muitas vezes entre lágrimas. Mergulhados no vício, tanto mais sutil e lento quanto severamente destruidor, porém endossado pela hipocrisia das sociedades, que com ele lucram absurdamente, prometem tentar libertar-se, quase sempre guiados apenas pela força de vontade, cujo poder infelizmente está reservado a uma minoria.

Para os fumantes, vale quase tudo o que se disse sobre os bebedores, com o acréscimo de que hoje em dia são muito mais confrontados com a censura e as proibições impostas pela sociedade, aliás, mais do que justificadas, diante do que a medicina vem demonstrando sobre os efeitos cruéis e devastadores do prazeroso ato de fumar.

Mas as promessas não cumpridas ligadas a esses e a outros vícios parecem perder de longe para outras, nas quais gastamos sem controle a moeda de troca de nossa credibilidade.

Quase todos os dias, prometemos que faremos isto ou aquilo de forma diferente – e me refiro a coisas comezinhas, porém poderosíssimas quando se trata de destruir o cumprimento de nossas promessas.

A jovem gorducha promete que vai fechar a boca; que trocará as delícias da mesa, corporificadas nas pizzas, nas macarronadas, nos refrigerantes, no chocolate, e noutras tentações assim, pelos pratos coloridos e saudáveis das saladas. Quase sempre faz isso cada vez que observa, com inveja não confessada, o corpinho bem torneado de alguma amiga.

O sujeito traidor por essência, que não pode ver um rabo-de-saia, promete emendar-se, e não ter olhos senão para sua fiel companheira. E geralmente faz essa promessa quando pilhado em traição.

Às vezes, o espelho matinal é testemunha de nossas promessas: não agir para prejudicar aquele colega de trabalho que se mostra uma potencial ameaça à nossa carreira; falar menos e ouvir mais, para que não nos enredemos na comprometedora rede do falar sem pensar; manter-se na trilha árdua porém moralmente compensadora da honestidade.

Mães prometem ser mais tolerantes; outras vezes, serem mais enérgicas. Pais prometem ser menos autoritários ou menos distantes do dia-a-dia dos filhos.

Estudantes prometem se aplicar mais, ao invés de lançar mão dos expedientes que, se levam à aprovação, quase sempre conduzem também ao fracasso na escola da vida real.

Religiosos, cujas vidas deveriam ser constitutivamente pautadas por promessas sinceras e sempre cumpridas, prometem crer no que pregam, e sobretudo praticar o que prometeram.

Casais prometem no altar; motoristas prometem mais cuidado, atenção, gentileza e empenho para melhorar a loucura cotidiana no trânsito; fregueses e balconistas, cada um de seu lado do balcão, prometem mais respeito e compreensão, tornando pelo menos palatáveis as freqüentemente tensas relações de compra e venda.

Nervosos prometem acalmar-se; lerdos, tornarem-se ágeis. Truculentos prometem converter-se em pessoas dóceis; raivosos em amorosos. Torcedores prometem respeitar a torcida adversária; até soldados prometem compaixão diante dos inimigos.

Vivemos inelutavelmente imersos em promessas – quase nunca cumpridas. Será que devemos prometer a nós mesmos mudar, prometendo e cumprindo?

Pensei em continuar a aumentar aqui a relação das promessas, e dos motivos de seu não cumprimento. Mas não posso: prometi que esta crônica se manteria nos limites impostos pelo editor e no tamanho adequado à paciência dos prezados leitores.

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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