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» NITERÓI, 17 DE JUNHO DE 2008

A NOVA CARA DA SOLIDÃO


Antigamente, a solidão tinha a cara das grandes pradarias, em que uma figura humana solitária aparecia apequenada comparada com a imensidão à sua volta. Ou era vinculada a alguém isolado no fundo de uma floresta escura. Ou ainda a um velho largado num abrigo à sua própria sorte.

Hoje, há uma nova, e talvez mais terrível ainda, cara da solidão.

A nova solidão está nas ruas, onde se vêem os que têm nos ouvidos os fones de iPodes. A música, embora os vincule ao mundo dos sons, os isola do mundo real das pessoas à sua volta.

Essa nova solidão também se pode ver na forma dos que falam aos celulares. Os pequenos aparelhos telefônicos são agora onipresentes.  São o novo milagre da comunicação individual carregado por quase todo mundo. Não obstante liguem todos a todos, representam uma solidão conectada, em que uma voz anasalada pelo aparelho substitui o olho no olho, a presença do outro, as nuanças reais das vozes. Mesmo estando cercados de gente, os falantes ao celular ignoram os circunstantes, e quase sempre ainda os agridem, jogando sobre eles trechos de conversas que não lhes interessam.

A nova cara da solidão está nas casas, vinculada aos computadores pessoais, e também cada vez mais nos laptops carregados para lá e para cá.

A cara nova da solidão é esse paradoxo da comunicabilidade: u’a máquina, aos nossos simples toques no teclado, nos abre todo um mundo de informação, de entretenimento, de cultura ou de lixo cultural. Mas essa mesma maravilha eletrônica nos isola do mundo real, ao mesmo tempo em que nos mergulha no mundo virtual.

A mentira da virtualidade impera. E o célere avanço da informática, o incrível aperfeiçoamento dos softwares, torna o universo virtual cada vez mais parecido com o mundo real, este em que gozamos, rimos, choramos, sangramos, sorrindo ou soluçando, porém na insubstituível condição da realidade da vida, que é muito diferente da enganosa dimensão virtual, onde estamos supostamente ao abrigo do sofrer.

A nova cara da solidão está ligada aos avanços da ciência, que prolonga a vida humana, povoando o mundo com uma quantidade cada vez maior de idosos. Os sofás baratos das humildes casas suburbanas, ou as poltronas caríssimas das casas e dos apartamentos de luxo dos ricos, têm sentados neles velhos solitários modernos, postos de lado como improdutivos, ou simplesmente como inconvenientes, aqueles que cometeram o simples crime de envelhecer.

A nova face da solidão é a incomunicabilidade entre as gerações. A antiga repressão por parte dos adultos e dos mais velhos, seu autoritarismo e a imposição de sua vontade tornavam essa comunicação muito difícil. Porém, agora, a desgraça da falta de diálogo, entre as crianças e jovens e os adultos e velhos, se generalizou talvez como nunca, impondo a esses mundos tão diferentes uma solidão dolorosa.

Outra terrível manifestação de solidão é o fatal desencontro de cada um consigo mesmo. Há cada vez melhores possibilidades de comunicação; existem cada vez mais estímulos para atividades; a operosidade, a produtividade, a ação para as realizações são imperativos cada vez maiores. Não obstante, sua conseqüência mais funesta é a redução das oportunidades que cada um tem de estar consigo mesmo, observando seus anjos ou se digladiando com seus demônios.

Solidão egoísta da defesa dos próprios interesses; solidão dos desencontros; solidão do confinamento dentro dos automóveis; solidão diante das telas de TV. Todas são solidões terríveis, cruéis, desumanizantes. Todas são a mesma solidão, talvez inevitável, talvez irreparável.

Quando olhamos para esse mundo louco, vemos a imagem da solidão. E o pior de tudo é que estamos diante de um espelho...

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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