O CAPINZAL

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Cantamos e decantamos as espécies vegetais. Hoje em dia, então, com as justificáveis preocupações ecológicas, compõem-se odes em louvor às grandes árvores, a todas as florestas, à beleza e importância das plantas; as flores também continuam reverenciadas, elas que sempre mereceram lugar de destaque na poesia e no coração, de homens e sobretudo de mulheres. Porém, aqui e agora, nesta manhã luminosa em que caminho ao sol, indago: e o capim? Sim, haverá a necessária homenagem a esta gramínea onipresente? Esta humilíssima plantinha tem recebido a atenção e os elogios que merece?
Sei o quanto o capim representa, por exemplo, para os fazendeiros, quando compõe os belos pastos ondulados e verdejantes em que o gado faz seu banquete. Será que a alma vacum se eleva em prece por esse alimento benfazejo, enquanto remói com gosto o capim ainda molhado pelo orvalho, comido na luminosidade da manhã?
Na alameda à beira-mar em que habitualmente passo nas minhas caminhadas existe um grande terreno margeando o caminho. Nele, o capinzal dá sua demonstração de forma, de pujança vital, e da capacidade de renovação da vida.
Todo mês, o zelo do dono do terreno, ou o cuidado preventivo dos moradores próximos, preocupados talvez com os mosquitos ou com a exuberância perigosa de um matagal, em tempos de assaltos e estupros, providencia a limpeza do capim.
Muitas vezes, chego a ver o homem que, empunhando o cortador de grama, vai fazendo voar, a poder de lâminas afiadas, as folhinhas verdes do capim.
Nessas ocasiões, sobe ao ar aquele cheirinho inconfundível de capim cortado, que me parece o próprio odor da dama Natureza, essa misteriosa rainha das coisas verdejantes.
Cortado rente o capim, o terreno nu fica com a estranha, a chocante aparência das devastações. A impressão que dá, de imediato, é que o terreno jamais ficará como antes, que a irreversibilidade da morte atingiu para sempre aquele pedaço de chão.
Mas qual, alguns dias depois, quando passo, já posso ver um brotinho aqui, outro ali; uma folhinha, de um verde clarinho (a infância do capim?), se insinua da terra, e outra, mais outra, vão pontilhando novamente o terreno com o verdor vital.
Se chove, então, a festa da renovação do capinzal é maior e muito mais rápida. Um ou dois dias de chuva fazem uma rega que promove o nascimento e o crescimento vigoroso, belo e desafiante dos pés de capim.
Às vezes, olho as folhas do capinzal como se fossem as lanças erguidas de um enorme batalhão dos soldados da natureza. Empertigadas ao sol da tarde, as hastes do capim parecem guardar, com orgulho, os mistérios da vida e de sua renovação permanente.
Um capinzal é um paraíso para os pequenos insetos, para borboletinhas miúdas, passarinhos e mesmo para os cães e gatos vagabundos que por lá se insinuam.
No vento primaveril, o capim ondula, com suas folhas brilhando e rebrilhando, num espetáculo de coreografia sem igual, como um conjunto sincronizadíssimo de bilhões de dançarinos em luxuosos trajes verdes, exibindo-se graciosamente para quem passar e tiver olhos de ver.
Em apenas algumas semanas, o capinzal já está viçoso, refeito, exuberante, impondo-se poderoso; não apresenta nenhum vestígio daquela devastação promovida pelos humanos, que talvez só sobreviva mesmo em minha memória e nesta semeadura de palavras, que oxalá consigam ter um vigor descritivo à altura da importância que tem essa humilde e poderosa gramínea na criação e na renovação da vida.
Desejo apenas que o ciclo continue: capinzal viçoso, poda implacável que o deseja extinguir, valente, implacável e eficaz renovação, com o capinzal em nova exuberância, nova poda, com tudo se repetindo perenemente.
Eu quero continuar sendo somente a testemunha atenta e silenciosa desse milagre cotidiano garantindo a beleza do capinzal, que meus olhos contemplam, fazendo minh’alma reverenciar, também no simples capim, a eterna beleza da vida.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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