NA VITRINE DA VIDA
Somos cartazes ambulantes ou manequins exibidos na vitrine da vida. Duvidam, cara leitora ou leitor? Pois olhem a inscrição em suas camisetas.
Vivemos num mundo de exposição pública, sob os ditames da propaganda, disto não há dúvida. Nunca na história “ser” se confundiu tanto com “parecer”. E dentre essas formas de exposição, uma das mais interessantes de se observar é a dos letreiros que carregamos em nosso próprio corpo, transformando nossa vestimenta num eficaz suporte de divulgação de imagens, frases, fotografias – conteúdos sérios ou bobagens incríveis.
Há uma peculiaridade que merece atenção: o conteúdo das mensagens inscritas na roupa com muita freqüência não corresponde à figura de quem a veste. Gordos divulgam mensagens que clamam pela boa forma física; gente magérrima anuncia corpos musculosos; altos malham a altura e baixos, vice-versa. Conservadores empedernidos ostentam a famosa fotografia de Che, o herói de esquerda midiático; supostos esquerdistas, praticantes da fúria contra tudo que represente os EUA, estão circulam por aí com frases de apologia ao capitalismo, escritas na língua de Sheakspeare e de conteúdo que parece ter sido escrito em Wall Street.
Pior é que isso quase sempre acontece em função da simples ignorância do significado do letreiro que se carrega ao peito.
Dia desses, vi uma bela mocinha, com aparência de pessoa recatada, modos gentis, andar nada lascivo e sorriso tímido de quem tem caráter, preza, respeita e representa o que há de melhor na mulher. Pois bem, sua bonita camiseta, ornada com o desenho de flores primaveris, continha uma frase, em inglês, que anunciava quem a vestia como uma prostituta.
Já vi jovens sarados, de aparência, gestos e atitudes másculas, em meio a paquera que não parecia nada enganosa ou hipócrita, exibindo na roupa uma inscrição inegavelmente gay. Assim como vi, também, homossexuais declarados com roupas que serviam para divulgar frases homófobas.
Vi gente grossa exibindo versos com a incomparável suavidade de Cecília; via Quintana mal posto no peito de gente pernóstica; trechos de Nitzsche ostentados com comportados; fotos de Simone de Beauvoir na camiseta de mulheres submissas; artistas de TV reacionários na prática mostrando frase revolucionária de Bretch...
O que mais choca, no entanto, é ver a pobreza humilhada vestida com camisetas contendo palavras ou frases que exaltam a riqueza, o fausto, o consumo desenfreados.
Dias desses, vi a foto de um homem desdentado, num lixão. No meio das sobras da riqueza, da opulência, do desperdício, lia-se em sua camiseta: - Sorria, Deus te ama!
Sei que a comunicação reina, que a privacidade é invadida a cada passo por uma vida cada vez mais exposta; sei que somos imagens, num mundo de divulgação, antes de sermos gente com direito à proteção da vida privada, ao aconchego das sombras quando não estiver desejando a luz do mundo. Mas me parece patética essa ignorância que divulga o que não quer ou não conhece.
Somos e seremos mesmo, cada vez mais, cartazes ambulantes e manequins posicionados na vitrine da vida, cada vez menos opacos, cada vez mais iluminados de todos os ângulos, mais expostos, mais traspassados pela curiosidade que agride, pelo olhar impiedoso que investiga.
Que, pelo menos, possamos resistir um pouco à avassaladora força que nos lança num mundo comum de impiedosa homogeneização. O primeiro passo talvez possa ser representado por este ditado que ora parodio:
- Dize-me o que exibes na tua camiseta e te direi quem és!
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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