A PONTE

Vejo a ponte que liga duas cidades. Maravilha em ferro e concreto, lança-se como um traço-de-união, ligando a sintaxe citadina de duas metrópoles, Rio e Niterói.
Megalomanias de governos ufanistas à parte, é quase unânime o elogio da ponte, como obra de engenharia, e obra de arte. Sim, e obra de arte com moldura sem igual: o céu, o mar e a beleza desse lugar abençoado por todos os deuses, mesmo que as mazelas urbanas insistam em tentar transformá-lo em inferno.
Há quem passe pela ponte sob o domínio do medo – do vento, da altura, do trânsito. Eu passo feliz, vendo o vento como brisa, mais forte ou mais fraca; sentindo a altura como um desafio, e como um balcão debruçado sobre o oceano, que nos faz sentir o poder que o engenho humano pode ter quando posto a serviço de construções assim.
O trânsito, sem dúvida, pode ser terrível, seja na lentidão exasperante dos engarrafamentos, seja quando a pista se transforma num autódromo sobre pilotis, fazendo a alegria dos condutores irresponsáveis, dos loucos do volante ou dos apressados por necessidade. Então, essa estrada suspensa sobre o mar pode assustar, intimidar, amedrontar, como aliás acontece com qualquer rua ou qualquer estrada.
Já tive o desprazer e o prazer de ficar, de pé, sobre a ponte. Desprazer por causa do defeito no veículo que conduzia e a conseqüente e longa espera pelo socorro. Prazer por tornar-me um espectador privilegiado, olhando a beleza das duas cidades, de longe e encarapitado naquela estrutura monumental.
Ver os navios a passar sob a ponte é um espetáculo digno de se observar.
Aquela imensa máquina se aproxima e, enquanto vem, parece desafiar a grandeza da ponte. Um imenso petroleiro, useiro e vezeiro, em singrar impávido mares, calmos ou encapelados, dá a impressão de que se insurge contra as vigas de sustentação. Eis que, dentro em pouco, o imenso barco se achega, parece acalmar-se, apaziguar-se, e passa, com segurança e vagar respeitoso, sob a ponte.
Há dias, do bairro bucólico niteroiense, de nome bem poético – Ponta da Areia – vi a ponte de um ângulo bem de baixo. Lá em cima, os veículos passavam velozes, com a luz do sol brincando de se refletir em seus pára-brisas.
De minha humilde posição inferior, admirei a grandeza da estrutura, que me pareceu um ser, forte e seguro, de pernas imensas e mergulhadas na profundeza das águas, para garantir a segurança de pequeninas criaturas, com seus carrinhos minúsculos, a brincar de ir de cá para lá.
Nos dias de temporal, mesmo nestes, acho a ponte linda. A chuva e o vento, o céu cor de chumbo, a saraivada de gotas da água caída do céu, tudo compõe um quadro admirável no embate entre a natureza e a criatividade técnica dos homens, esses seres abusados, que insistem em transformar-se em pequenos deuses, que se julgam capazes de vencer todos os desafios, ultrapassar todas as barreiras, fustigar todos os elementos.
Quando há cerração, acontece outro espetáculo muito belo. Dirigir por entre a bruma é um desafio. Mas olhar para os pedacinhos de céu e as nesgas de mar que surgem aqui e ali, quando o sol vai furando, neste e naquele ponto, o esbranquiçado, o fumacento nevoeiro, é algo que merece ser visto, revisto e apreciado.
À noite, quando as luzes da ponte se acendem, gosto de pensar que a Cidade Maravilhosa, linda e vaidosa, resolveu usar... seu colar fantástico, feito de sonho e de luminosidade.
...........................................................................................................................................................
J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
Voltar | Capa |