EU, SERESTEIRO
Reprodução: "O Violeiro" - óleo s/ tela de Almeida Junior - 1850-1899
Eu, seresteiro, vivo pelas canções. Minh’alma se alimenta de acordes e harmonias; meu corpo, do luar que banha as ruas nas madrugadas calmas.
Meu coração-cantor entoa cantigas – de dor, saudade, ciúme, mistério, paixão – que são sempre de amor. Um amor profundo pela vida, pelas pessoas, pelas coisas, traduzido em versos casados com perfeição aos acordes do violão.
Também canto pelos que não podem cantar; pelos que sofrem mudos, mas ecoam dentro de si todas as cantigas.
Canto com humor o cotidiano, fazendo do riso a arma que vence a raiva, o terror, as injustiças.
Eu, seresteiro, preservo em mim e espalho por aí a memória dos tempos gentis, elegantes, encantadoramente musicais, trazendo para jovens e sensíveis ouvidos de hoje um tempo que não viverão.
Minha voz é um pássaro que atravessa os espaços sem fim e mergulha, de repente, nas almas comovidas de quem me escuta.
Meu violão, sempre aconchegado ao peito, é o amigo, cúmplice e companheiro fiel com quem atravesso a existência e troco confidências, na alegria ou na tristeza.
Eu seresteiro, sou aquele que ainda entoa madrigais, como um moderno trovador e guardião da poesia.
Contando histórias nas letras que canto, trago de volta, em poemas musicados, um tempo, ido e vivido mas eterno, de delicadeza.
As serenatas vivem em mim, mantendo, lindas e apaixonadas, as donzelas que se debruçam nas janelas da alma.
Eu, seresteiro, sou um porta-voz musical dos encantos e desencantos do mundo. Sou um beija-flor que suga, aqui e ali, o néctar que existe nos corações sensíveis e apaixonados, nas almas envoltas em sonhos, nos corpos vibrantes com verdadeira paixão.
Minha noite nunca finda; o céu de minhas madrugadas é, e será por toda a eternidade, cravejado de estrelas.
Eu, seresteiro, viverei para sempre, pois a beleza, a poesia e as canções estarão eternamente sonorizando corações, brindando ouvidos, tornando a vida mais bela, e transformando o mundo na morada do amor.
Eu, seresteiro, canto assim:
Sobre as pedras da calçada,
violão colado ao peito,
seus passos, na madrugada,
têm o compasso perfeito.
Lá se vai o seresteiro,
olhando o nascer do dia.
Coração aventureiro,
só vive pra boemia.
Siga em paz, cantor da rua,
mensageiro do passado.
Para sempre, a luz da lua
vai torná-lo iluminado.
Mas, enquanto houver canções
e cantores do seu jeito,
sentirão os corações
o que é amor perfeito.*
*Canção “Compasso perfeito”, Letra J. Carino, Música Taisinho. Ela pode ser vista e ouvida no YouTube, na interpretação de Taisinho. O endereço para acesso direto é http://br.youtube.com/watch?v=ioQpvMqof2U&feature=related
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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