AQUELE BOLO DE FUBÁ
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Bolo de fubá com erva doce.
Se a frase acima nada lhe disse, caro leitor, se em sua boca a salivação não começou, se um sabor marcante não lhe chegou à memória, você certamente tem menos de quarenta anos.
Aos demais, companheiros de bolo e de saudades, saúdo como privilegiados, pois não somente comeram verdadeiros bolo de fubá como vivenciaram saborosos lanches vespertinos, que marcaram para sempre as papilas gustativas, e puderam gravar indelevelmente na lembrança essa delícia.
Alguém poderá dizer que existem por aí, em quase todas as confeitarias, e mesmo nas padarias mais providas, bolos de fubá. Mas não é desse bolo feito às pressas e em quantidade, cozido nos modernos fornos industriais, de que falo. É outro o bolo que me preenche a lembrança, um bolo feito não somente dos ingredientes materiais, que podem ser os mesmos de hoje em dia. É um bolo que também leva, em sua composição sublime, ingredientes inefáveis, que não se pode comprar ali no supermercado.
Esse bolo encantado tem um cheiro que vem dos fornos simples existentes em casas modestas; um cheiro que inundava o ar não somente por causa do cozimento dos ingredientes. Esse odor carregava também um mistério em forma de emanações, algo que não somente impregnava as narinas, mas também inundava a alma.
Esse bolo maravilhoso de fubá tinha em si a pitada certa do carinho de mães ou de avós, com seu talento culinário e o cuidado de preservar receitas que já vinham de muito longe, da noite do tempo de várias gerações, interligando uma infinidade de outras mamães e vovós.
A cor do bolo de fubá já era em si marcante: estava entre o amarelo-creme da manteiga batida com o açúcar e o amarelo-cheguei exuberante da gema do ovo – um amarelo no tom certo, talvez para combinar com o matiz dourado de que são feitos os fins de tarde que assistem ao declínio lento do sol.
Não se pode pensar num verdadeiro bolo de fubá sem envolver na sua feitura a erva-doce. Ah, essa mistura é absolutamente mágica em termos de cheiro e sabor. Complementam-se perfeitamente, como a goiabada com o queijo, o amor com a paixão, a chuva com a melancolia, Machado de Assis com ironia – essas e muitas outras coisas que se casam à perfeição, das quais o prezado leitor na certa se lembrará para aumentar esta lista.
Além de contribuir para seu cheiro sem igual, a erva-doce ainda tornava personalíssima a massa do bolo de fubá. Na hora de partir, surgiam, no meio do amarelo uniforme, aquelas sementinhas marrom-escuro, que também eram deliciosas para triturar entre os dentes, liberando um gostinho, também este, inigualável.
Claro que igualmente se casam perfeitamente o bolo de fubá com um café fumegante, de preferência passado no coador.
De que é feita a felicidade, caro leitor? De muitas coisas, o que torna a resposta a essa pergunta na certa difícil, mas certamente muito variável segundo a visão de cada um. Para mim, a arte de ser feliz inclui comer um daqueles bolos de fubá, a maravilha culinária de que falei.
Juntando-se bolo de fubá com erva-doce, um cafezinho bem feito e bem quente, carinho culinário de alguém e tardes mágicas, com um sol dourado e preguiçoso que se vai, creio que se juntam duas receitas: a do bolo e a de ser feliz.
Sei bem, amigo leitor, que não se pode saborear o bolo ido e vivido, que só povoa lembranças. Mas, mesmo assim, irei agora procurar, em cadernos de receita antigos, que todos nós herdamos, uma receita do verdadeiro bolo de fubá.
Está servido?
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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