SOBREVIVEM OS CHAPÉUS
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Cabeças cobertas sempre significaram uma coisa ou outra: em termos práticos, a proteção da cabeça contra impactos, sol, chuva e tudo que ameace essa preciosa parte do corpo onde se situa o cérebro; em termos simbólicos, muito mais.
Essas duas utilizações básicas dos chapéus e afins se misturam, desde priscas eras. Por exemplo: além de proteger os guerreiros, os elmos transformaram-se em símbolos de poder, glória e força política, além de militar. Das legiões romanas às armaduras dos cruzados, dos cocares indígenas aos quepes militares, penachos, insígnias, enfeites e penduricalhos mil sempre marcaram a posição de seus usuários na sociedade.
Que dizer, por exemplo, dos chapéus dos cowboys, aquele ápice da figura dos cavaleiros que, atravessavam vales, cruzando rios, comendo poeira nas estradas, enquanto enchiam de aventura as tardes da gente, nos cines-poeira dos bairros? E de seus adversários, a serem impiedosamente massacrados, os índios, eles também com seus símbolos de poder e valentia, exibidos nas penas coloridas enfeitando as cabeças?
Víamos, nessas mesmas tardes, e mesmos cinemas suburbanos, os chapéus dos detetives, naquelas séries assistidas, meses a fio, antes do filme principal. Complementando o terno bem talhado daqueles mocinhos e bandidos, lá estavam os chapéus, que contrariavam sem mais nem menos a lei da gravidade, quando, apesar das brigas incríveis, permaneciam nas cabeças. Aliás, tais detalhes inverossímeis jamais passariam pela cabeça daquela platéia barulhenta e ávida de aventuras, socos e pontapés.
Vítimas do tempo, com as implacáveis mudanças impostas pela ditadura da moda, e também pela praticidade e pelo conforto – ufa, que calorão na cabeça! – os chapéus se foram como componente obrigatório da elegância, do apuro no vestir no dia-a-dia.
Porém, renitentes, os chapéus sobrevivem. Por exemplo, como pensar no Grande Prêmio Brasil sem os chapéus femininos, alguns bem bonitos e discretos, outros verdadeiras obras-primas de mau-gosto, em honra e glória de ensadecidos estilistas?
Em festas de gala, como em casamentos chiques, lá estão eles também, nem que seja como uma imitação opaca do que eram nos tempos de antanho, do glamour, da elegancia refinada e mesmo das maneiras afetadas.
Saudosismo à parte, o que podemos observar, caro leitor, é uma periódica volta dos chapéus com mais força, para além de sua sobrevivência como acessório nas cabeças de idosos aferrados ao hábito.
Já observaram como é, hoje, recorrente o uso de chapéus pelos jovens envolvidos com o benfazejo retorno do chorinho? Ou por parte de pagodeiros e mesmo de cultores do chamado “sambolero”? Essa homenagem simbólica aos malandros do passado só é possível com o recurso ao chapéu.
Os bonés, que eram apenas primos-pobres e baratos dos chapéus, usados como simples cobertura da cabeça, agora viraram peças de grife, e veículos privilegiados para mensagens comerciais. Os pilotos de corrida, por exemplo, entre a saída do carro e o pódio, substituem os chapéus de proteção obrigatória, chamados capacetes, pelos bonés que exibirão ao mundo as marcas daqueles que patrocinam seu caríssimo esporte. Assim também agem tenistas, golfistas e os atletas de quase todas as modalidades esportivas.
Mas, caro leitor, gosto de lembrar que, basta uma saidinha das cidades em direção ao interior e já vemos os chapéus da gente do campo. Sob sol ou chuva, sobrevivem os chapéus na cabeça de plantadores, colhedores, vaqueiros, enfim, de todos aqueles que juntam a elegância das coisas simples, fabricada com palha, couro, lona e outros materiais, com a necessidade de proteger a cabeça, protegendo, desse modo, também os chapéus contra a ameaça da extinção.
Uma imagem, de elegância, ternura e arte pode nos garantir que os chapéus sobreviverão para sempre. Lembre-se, prezado leitor, do genial maestro Tom Jobim correndo os dedos pelas teclas, enquanto, sobre o piano, seu chapéu panamá guardava a beleza eterna dos chapéus.
Vida eterna aos chapéus.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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