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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 15 de abril DE 2008

UM GATO NA CHUVA

Debrucei minha insônia na janela. A chuva fina, dessas chuvas macias, que umedecem a alma antes de molhar completamente a calçada, criava um inelutável cenário para a melancolia.

Então, vários andares abaixo, vi o gato.

Na noite úmida, era impossível ver com clareza a cor do gato. Era uniformemente negro? Havia intervalos de manchas cinzas em seu pêlo? Ou pedaços amarelecidos, em meio ao negro, nessa cor ambígua comum a gatos e cães vadios? Ou seria isso tudo reflexo dos carros que passavam ou dos tons e semitons que as luzes dos postes jogam sobre o espelho das águas nos dias de chuva?

Gatos, como se sabe, não gostam de água. Talvez os gatos de madame, trabalhados pelos pet shops, com seus pêlos penteados e cheirosos, a tolerem. Mas de jeito nenhum os gatos vagabundos, que na certa preferem as noites secas, calorentas, onde suas patas bem firmadas e focinhos de olfato aguçado podem levá-los a gatas disponíveis para a loucura de noites felinas.

Tinha porte, esse gato. Vi – ou imaginei ver, talvez influenciado pela fama dos gatos – um brilho reservado aos olhares penetrantes nos olhos grandes desse gato. Parado na calçada, seu pescoço retesado elevava sua cabeça de orelhas pontiagudas a boa altura para sua espécie.

A chuva fina, insistente, indiferente ao que imaginei ser o desejo de estio do gato, continuava a molhar tudo, das coisas aos, agora raros, veículos que passavam, as árvores, a calçada, as marquises, o asfalto...

O gato parecia absorto. Para mim estava, com certeza, inteiramente absorvido em seus pensamentos felinos, talvez antecipando momentos de prazer, ou pensando num leite morno que pode ter tido nos tempos em que gozava de companhia, afeto e atenção numa ninhada.

Dei-me conta de que pensava pelo gato. Loucura? Talvez. No entanto, quantos de nós já não se identificaram com essa liberdade felina, essa gatice inabordável, que faz dos gatos animais estranhos, quando medidos por nossa sabedoria, ou ignorância, humana?

Por um momento, identifiquei-me com aquele gato. E, estranhamente, pareceu-me que, numa girada de cabeça, o gato voltara seu olhar para cima, em minha direção, na direção daquele doido, que observava, lá de cima, do conforto da sala, sua existência felina lá na rua.

De onde viera esse gato? – perguntei-me sem almejar resposta. Talvez tal gato, cheguei a imaginar, nem tivesse existência real. Quem sabe não seria uma representação imaginada de liberdades noturnas e de arrogâncias altivas que todos os gatos parecem ter? Ou seria esse gato na chuva um símbolo daqueles azares que imputaram aos gatos, certamente aos pretos, mas por extensão a todos os gatos?

Pouco tempo ficou o gato exposto aos meus olhos e como objeto de minhas reflexões de noite de insônia. Logo seguiu, lento, ereto, em passo macio, pela calçada, perdendo-se na noite chuvosa.

Fiquei ali, na minha janela, pensando que todos nós precisamos tanto de noites chuvosas quanto de reflexões assim, haja gatos ou não. O gato - que nem tenho a certeza se existia de fato, pois podia ser uma visão pertencente às brumas de um cochilo à janela - serviu para que meus pensamentos voassem e o espírito se soltasse pelas sendas da imaginação, em busca de estrepolias, humanas mas como as dos felinos, e do amor à liberdade e à insubmissão que atribuímos a esses animais.

Dizem que gatos têm sete vidas. Não sei. O que sei é que nós temos muito mais de sete incertezas, sete noites de insônia ou sete pecados a expiar.

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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